Ano V - junho  2003 - nº 58

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 58
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA

setaquad.gif (95 bytes)Influência milagrosa atribuída a Santo Antônio, por Jean-Baptiste Debret.

setaquad.gif (95 bytes)Narcissus ou O tabu do reflexo, por Luís da Câmara Cascudo.

setaquad.gif (95 bytes) A descoberta do marido, por Edison Carneiro.

CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

 

PANACÉIA - Nesta seção, textos sobre plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos; orações; devoções; magia e feitiçaria...


A DESCOBERTA DO MARIDO

Edison Carneiro


À aproximação da meia-noite, no São João, a moça da Bahia prepara-se para adivinhar, por uma infinidade de processos mágicos, quem será o seu marido.

O processo de adivinhação, individual ou coletivo, é qualificado de "sorte", mas a despeito disso não leva em conta acontecimentos imprevisíveis, e é válido somente para um período determinado — até o próximo São João. A interpretação da "sorte" é pessoal, no cas de jovens reservadas, ou coletivas, quando se trata de moças mais dadas, mais comunicativas. A descoberta do marido, em qualquer caso, faz parte da folgança geral.

A maneira mais conhecida, embora menos usada, de saber com quem a moça vai casar é enfiar uma faca virgem no caule de uma bananeira, à meia-noite, e decifrar a letra que a ferida deixar na lâmina — a inicial do felizardo.

O copo d’água, colocado perto da fogueira, serve para adivinhar. Há moças que vêem o futuro na água, sem necessidade de lhe acrescentar mais nada. Outras benzem um ovo sobre a fogueira e deixam cair no copo a clara, que então desenha um quadro — o do casamento, a melhor das hipóteses, uma viagem ou o enterro. Outras ainda escrevem em pequenos pedaços de papel o nome dos seus pretendentes, com a mesma circunstância de benzê-los sobre a fogueira, e os põem dentro da água do copo: aquele que se abrir primeiro será o do futuro esposo.

A moça pode saber o nome do marido colocando-se atrás de uma porta — geralmente a porta da rua — e fazendo bochechos com água, naturalmente depois de benzê-la na fogueira. O nome do marido será o primeiro nome de homem que escutar. Ou então escreve muitos nomes em pedacinhos de papel e os enrola em paus de fósforo, guardando-os em algum lugar. O papel que, de manhã, estiver desenrolado, dará a resposta que se espera.

Também é possível descobrir se o marido será pobre ou rico, velho ou moço. Para conhecer a sua capacidade econômica, a jovem procura três caroços de feijão, descasca um deles completamente e outro pela metade, deixando o terceiro intacto, e os coloca debaixo do travesseiro. De manhã, sem os ver, apanha um deles. Se for o caroço completamente sem casca, o marido será um pobretão; se for o semi-descascado, será remediado, homem de algumas posses; se for o outro, será rico. Para saber a idade do marido, a moça dispõe de uma dúzia de limões, seis verdes e seis maduros, e vai buscar um deles, de olhos vendados. Se apanhar um limão verde, terá um moço por companheiro; se apanhar um maduro, terá um velho.

As moças, em grupo, podem descobrir ainda qual delas se casará primeiro. Forma-se uma roda de moças, cada qual com um pouco de milho aos pés, e no meio da roda solta-se um galo. A preferência do galo indica a que mais depressa passará para o rol das casadas. Pode-se falar, gritar, cocoricar, induzir o galo a preferir este ou aquele punhado de milho, mas não tocar diretamente no animal.

Se a moça quer saber uma coisa especial, — relacionada com o casamento, mas não enquadrada nestas possibilidades — há o recurso de fazer secretamente a sua pergunta ou exprimir o seu desejo enquanto planta um dente de alho. Se, no dia seguinte, o alho estiver grelado, a resposta será afirmativa ou o que se deseja acontecerá.

Nenhum destes processos divinatórios terá valor, nem dará resultado, se não for iniciado à meia-noite, ou logo depois, ou se a água e os objetos usados tiverem passado pela fogueira. As bombas e os fogos de artifício, os balões, as fogueiras, a canjica e o licor de jenipapo, a excitação das danças e das linhas de namoro se completam com esta descoberta do marido, que acrescenta de muito a poesia da noite de São João, a noite mágica por excelência.



(Carneiro, Edison. A sabedoria popular. Rio de Janeiro, Ministério da Educação e Cultura / Instituto Nacional do Livro, 1957. Biblioteca de Divulgação Cultural, série A, XI, p.55-58)

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