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| PANACÉIA - Nesta seção, textos sobre
plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos;
orações; devoções; magia e feitiçaria... |
À aproximação da meia-noite, no São João, a moça da Bahia prepara-se para adivinhar,
por uma infinidade de processos mágicos, quem será o seu marido.
O processo de adivinhação, individual ou coletivo, é qualificado de "sorte",
mas a despeito disso não leva em conta acontecimentos imprevisíveis, e é válido
somente para um período determinado até o próximo São João. A interpretação
da "sorte" é pessoal, no cas de jovens reservadas, ou coletivas, quando se
trata de moças mais dadas, mais comunicativas. A descoberta do marido, em qualquer
caso, faz parte da folgança geral.
A maneira mais conhecida, embora menos usada, de saber com quem a moça vai casar é
enfiar uma faca virgem no caule de uma bananeira, à meia-noite, e decifrar a letra que a
ferida deixar na lâmina a inicial do felizardo.
O copo dágua, colocado perto da fogueira, serve para adivinhar. Há moças que
vêem o futuro na água, sem necessidade de lhe acrescentar mais nada. Outras benzem um
ovo sobre a fogueira e deixam cair no copo a clara, que então desenha um quadro o
do casamento, a melhor das hipóteses, uma viagem ou o enterro. Outras ainda escrevem em
pequenos pedaços de papel o nome dos seus pretendentes, com a mesma circunstância de
benzê-los sobre a fogueira, e os põem dentro da água do copo: aquele que se abrir
primeiro será o do futuro esposo.
A moça pode saber o nome do marido colocando-se atrás de uma porta geralmente a
porta da rua e fazendo bochechos com água, naturalmente depois de benzê-la na
fogueira. O nome do marido será o primeiro nome de homem que escutar. Ou então escreve
muitos nomes em pedacinhos de papel e os enrola em paus de fósforo, guardando-os em algum
lugar. O papel que, de manhã, estiver desenrolado, dará a resposta que se espera.
Também é possível descobrir se o marido será pobre ou rico, velho ou moço. Para
conhecer a sua capacidade econômica, a jovem procura três caroços de feijão, descasca
um deles completamente e outro pela metade, deixando o terceiro intacto, e os coloca
debaixo do travesseiro. De manhã, sem os ver, apanha um deles. Se for o caroço
completamente sem casca, o marido será um pobretão; se for o semi-descascado, será
remediado, homem de algumas posses; se for o outro, será rico. Para saber a idade do
marido, a moça dispõe de uma dúzia de limões, seis verdes e seis maduros, e vai buscar
um deles, de olhos vendados. Se apanhar um limão verde, terá um moço por companheiro;
se apanhar um maduro, terá um velho.
As moças, em grupo, podem descobrir ainda qual delas se casará primeiro. Forma-se uma
roda de moças, cada qual com um pouco de milho aos pés, e no meio da roda solta-se um
galo. A preferência do galo indica a que mais depressa passará para o rol das casadas.
Pode-se falar, gritar, cocoricar, induzir o galo a preferir este ou aquele punhado de
milho, mas não tocar diretamente no animal.
Se a moça quer saber uma coisa especial, relacionada com o casamento, mas não
enquadrada nestas possibilidades há o recurso de fazer secretamente a sua pergunta
ou exprimir o seu desejo enquanto planta um dente de alho. Se, no dia seguinte, o alho
estiver grelado, a resposta será afirmativa ou o que se deseja acontecerá.
Nenhum destes processos divinatórios terá valor, nem dará resultado, se não for
iniciado à meia-noite, ou logo depois, ou se a água e os objetos usados tiverem passado
pela fogueira. As bombas e os fogos de artifício, os balões, as fogueiras, a canjica e o
licor de jenipapo, a excitação das danças e das linhas de namoro se completam
com esta descoberta do marido, que acrescenta de muito a poesia da noite de São João, a
noite mágica por excelência.
(Carneiro, Edison. A sabedoria popular. Rio de Janeiro,
Ministério da Educação e Cultura / Instituto Nacional do Livro, 1957. Biblioteca de
Divulgação Cultural, série A, XI, p.55-58) |
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