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| PANACÉIA - Nesta seção, textos sobre
plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos;
orações; devoções; magia e feitiçaria... |
NARCISSUS OU O TABU DO REFLEXO - a Gonçalves
Fernandes |
... De quo consultus, na esset. Tempora maturae visuris longa senectae, Fatidicus
vates: - "Si se non viderit" inquit.
(Ovídio, Métamorphoses, III, VI)
Narcissus, filho da ninfa Liriope e do rio Céfiso, na Beócia, era o mais lindo
adolescente da região. Liriope consultou o cego Tirésias, que podia ver o futuro, se o
filho chegaria a ser velho. O vidente respondeu: - Si se non viderit, (Ovídio,
III,VI), se não se vir. Um dia, voltando da casa, sedento, Narcissus curvou-se para beber
numa fonte. Viu sua imagem refletida na limpidez dágua. Apaixonou-se por si mesmo.
Recusou alimentar-se e morreu, vítima do amor impossível, mirando-se nágua
quieta. Foi para o inferno e lá ainda se revê nas águas escuras do Stix. No lugar do
seu corpo, nasceu a flor que lhe herdou o nome bonito, o narciso branco, com a mancha
dourada ou rubra no centro.
Frazer opina que a lenda do auto-amoroso é posterior ao verdadeiro mito. Narcissus morreu
por ter visto sua imagem nágua da fonte de Tespias. Acreditava-se que os espíritos
das águas levassem para o abismo os reflexos ou as almas dos que se olhavam na
superfície e os corpos, privados de elemento vital, sucumbiam. Um vestígio possível,
creio eu, é o idílio XIII, Hylas, de Teócrito, onde o herói é arrebatado pelas
ninfas de uma fonte na Propontida quando ia buscar água para os Argonautas. Narcissus
enlangueceu, perdendo o sabor dos alimentos, bebidas, divertimentos. Morreu por ter
violado o tabu do reflexo.
Uma das mais antigas crenças primitivas, ainda viva e com poderosos vestígios no
espírito popular do Brasil, é esse tabu do reflexo. A imagem reproduzida nágua ou
na superfície polida dos espelhos tem uma impressão de sobrenaturalidade e de mistério.
A duplicação parece materializar-se e um "alter-ego", um outro eu, olha o
companheiro distante no fundo da água imóvel. Os povos mais velhos, em sua maioria,
acreditavam que a alma, princípio divino e motor da vida, impulsivo do movimento e da
vontade, podia ficar, inteira e real, no reflexo exterior. A imagem era uma projeção
completa, uma materialização, impalpável mas visível da alma humana. Não era o
"duplo" mas a própria alma que abandonara o corpo e o olhava, como que
independente dele.
Havia proibição de olhar-se nágua viva em quase todas as paragens do mundo. Na
Grécia, a lenda beociana de Narcissus é expressiva. Mesmo sonhar que se tinha avistado
na face das águas era agouro sinistro, conforme registrou Artemidoro. A mesma proibição
corria nas terras das Índias e estava nas Leis de Manu, no
"Mânava-drama-çâstra" cuja antigüidade fabulosa é impossível calcular.
Assim, negros dÁfrica do sul e do norte, homens da Melanésia, astecas do México,
europeus ibéricos, conservam, como os brasileiros atuais, a superstição do reflexo, que
se poderia denominar "complexus de Narcissus" na acepção etnográfica e não
psicanalítica do vocábulo.
A imagem nágua é uma alma disponível às forças do mal. Pode ser mutilada,
prisioneira, transportada, ferida. Instintivamente o homem primitivo defendia aquela
estranha reprodução do seu físico, temendo a agressão dos inimigos armados com a
força irresistível da magia.
No Brasil, em noite de São João ou Ano Bom, quem não se vir nágua é porque
morrerá. Studart informava: "Em noite de São João põe-se uma bacia ou tigela com
água e olha-se para dentro: se não vê a figura é que se morrerá nesse mesmo ano.
Outros fazem a experiência olhando para o fundo de uma cacimba". Gonçalves
Fernandes registrou outra modalidade: "Faz mal olhar o rosto refletido nágua
de fundo de cacimba, o diabo pode levar a alma da pessoa para as pronfundezas do
inferno".
A relação do reflexo no espelho é identicamente a mesma e com maior intensidade
supersticiosa. Criança que se olha no espelho custa a falar. Espelho quebrado é anúncio
de morte. Quem se mira no espelho de noite pode ver o demônio. Quando há morto em casa
cobrem-se os espelhos de negro durante três dias, como ocorre na Europa (Inglaterra,
Alemanha, Bélgica, Escócia), entre os muçulmanos sunitas de Bombaim, os Raskolniks
eslavos etc.
Na noite de Santa Luzia, 13 de dezembro, a moça que deseje conhecer o seu futuro esposo
reza a Salve Rainha até o "nos mostrais" (ad nos converte) e com uma
vela acesa na mão vai mirar-se, sozinha, num espelho. O noivo aparecerá por detrás
dela. Na noite de São Silvestre havia a mesma tradição na Rússia. A consulente levava
duas velas acesas nas extremidades das mãos estendidas em cruz.
O reflexo do espelho é força defensiva, repelindo, afastando, contrariando a magia
inimiga. Os espelhos espalham-se em trajes, altares, móveis, decorações, como amuletos
poderosos e em qualquer parte do mundo os encontramos. Estão nos templos chineses e nas
capelas católicas, na sala de visita burguesa e na indumentária de aparato dos
bumba-meu-boi, maracatus e congos do nordeste brasileiro.
Naturalmente a sombra do corpo vivo é parte dele e suscetível de todas as suas virtudes,
poderes e perigos. Quem brinca com a sombra, assombra-se. A alma e a sombra tinha a mesma
denominação em Roma, "umbra" e significava o espírito do morto vivendo no
reino de Plutão, o reino das sombras. Pisar na sombra de alguém é agouro por toda
Europa e se passou a superstição para o continente americano. A sombra podia ser
comprada, como o diabo a comprou ao velho Peter Schlemihl. Os feiticeiros da Oceânia
podem raptá-la e ter domínio sobre o corpo de quem a perdeu.
A fixação da imagem nas câmaras fotográficas determinaria o mesmo perigo alucinante.
Negros e indígenas fugiam espavoridos ante a máguina fotográfica dos exploradores que
queriam roubar-lhe a alma, presa na imagem imóvel. Os batas de Sumatra resistiam a von
Bremer como os canelas do Brasil a Simson ou os pele-vermelha norte-americanos ao
príncipe de Wied-Neuvied. Mais fácil, inicialmente, era Martim Johnson fotografar um
leão do que um negro na África. Gonçalves Fernandes nunca obteve consentimento do velho
Adão, o poderoso balalorixá do Recife, para deixar-se fotografar. Frazer relacionou
muitos povos fiéis a esse pavor-defensivo pelo imagem. Os indígenas do rio Uaupés (Rio
Negro, Amazonas) afirmavam que o conde Ermano Stradelli era Mayura Raíra,
filho-da-serpente, podendo multiplicar os homens apenas batendo com as mãos... no
trabalho fotográfico de revelar as chapas impressionadas. Cada chapa, cada fotografia,
era uma vida independente, solitária, livre da inicial prisioneira do "branco".
Se é possível a alma projetar-se na sombra e aparecer aos nossos olhos no reflexo do
espelho ou das águas quando estamos conscientes e aptos a produzir uma reação que a
retenha no nosso interior, imagine-se para o povo o perigo do homem adormecido, sem
ação, abandonado ao desconhecido, às forças inimigas!... A alma aproveita essas horas
de liberdade e deixa a sua morada para viajar, livremente, amplamente, por todos os
recantos do mundo. Por isso quando acordamos há uma vaga impressão de regresso, de
chegada da romaria, sensível até numa espécie de fadiga.
Aparece aí a tarefa do anjo da guarda, defendendo a alma vagabunda e viajeira sem o
controle da nossa vontade racional. Quem dorme com sede arrisca-se a ter a alma afogada
num poço, rio ou cacimba onde irá, infalivelmente, procurar beber água. Há no Brasil
sertanejo, todo o cuidado para com a pessoa adormecida porque está sem a alma. Ninguém o
acordará bruscamente temendo que a alma não tenha tempo de voltar e o despertado morra.
Acorda-se devagar, dando tempo ao regresso da alma. Essa tradição ocorre em quase todos
os povos primitivos (Frazer, Rameau dor, I, 93).
Evita-se o perigo da alma não reconhecer, não identificar o corpo em que vive. A
brincadeira de pintar, disfarçar caricaturalmente quem dorme é um perigo. A alma ao
voltar não reconhece a morada e passa adiante, vagando. O homem não acordará mais. E
vigia-se para que o dormente não conserve os braços abertos ou cruzados sobre o peito. A
alama regressando não pode entrar porque não lhe é permitido atravesar o
santo-sinal-da-cruz feito pelos braços de quem dorme.
No sul do Brasil, no mito da mãe do ouro, esta arrebata a alma das moças que dormem e
fá-las dançar a noite inteira nas festas maravilhosas nos palácios no fundo das lagoas
e dos rios. Pela manhã a moça desperta exausta e perfeitamente ignorante da orgia de que
participou (Geografia dos mitos brasileiros, 372).
Essa alma viajante, external soul, é uma conseqüência da concepção do
espírito vivo no reflexo. É uma reminiscência inteira e fiel do amor desesperado de
Narcissus à sua imagem resplandecente no espelho da fonte de Tespias...
(Cascudo, Luís da Câmara. Anúbis e outros ensaios: mitologia e folclore.
Funarte Rio de Janeiro, 1983. P. 107-110) |
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