Ano V - junho  2003 - nº 58

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 58
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA

setaquad.gif (95 bytes)Influência milagrosa atribuída a Santo Antônio, por Jean-Baptiste Debret.

setaquad.gif (95 bytes)Narcissus ou O tabu do reflexo, por Luís da Câmara Cascudo.

setaquad.gif (95 bytes) A descoberta do marido, por Edison Carneiro.

CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

 

PANACÉIA - Nesta seção, textos sobre plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos; orações; devoções; magia e feitiçaria...


INFLUÊNCIA MILAGROSA ATRIBUÍDA A SANTO ANTÔNIO

Jean-Baptiste Debret


Em 1650, o porto e a cidade da Bahia aguardavam com temor o desembarque dos holandeses após um combate naval em perspectiva. O governador militar, depois de ter tomado as últimas disposições para a defesa, foi devotamente jogar-se aos pés da imagem de Santo Antônio, que se encontra na capela do convento dessa ordem religiosa, situado à entrada da barra. Começava ele a orar, quando uma terrível tempestade desabou, obrigando a esquadra a fazer-se ao largo e dispersar-se, libertando-se assim a cidade, que não mais a reviu. O governador, transbordado de fé e de alegria, foi o primeiro a proclamar o milagre; repetiram-nos os religiosos, aproveitando-se do entusiasmo geral para fazer crer ao povo que haviam visto no mesmo dia Santo Antônio voltar ao convento ainda molhado pelas águas do mar. A proteção milagrosa do santo libertador fez com que lhe concedessem, a título de recompensa, o cargo de governador-geral da província, cujo vencimento anual ele recebe e é empregado no seu culto particular. A generosidade devota dos habitantes da cidade apressou-se em conseguir os meios necessários à reedificação da igreja de Santo Antônio, onde se vê hoje a estátua do santo segurando o bastão de governador.

Com o triunfo, a imaginação dos irmãos do convento de Santo Antônio tomou novo impulso e, tendo afirmado haverem visto o santo voltar molhado do mar, não hesitaram em supô-lo percorrendo as ruas à noite, à caça dos negros fugidos que erravam pela cidade. Quando um frade pegava um negro, amarrava-lhe as mãos com o cordão de seu hábito e o intimava a indicar a casa do seu senhor. Aí chegando, o monge batia à porta e entregava o escravo em nome de Santo Antônio, cujo papel desempenhava, na escuridão da noite, e desaparecia logo em seguida, dizendo, num tom misterioso: "Santo Antônio lhe devolve seu escravo fugido". Os reverendos padres sabiam de antemão que essa santa generosidade seria recompensada no dia seguinte pelo proprietário do escravo, o qual não hesitava em vir ao convento encomendar pelo menos uma missa e entregar alguma esmola em ação de graças; levado pelas aparências da véspera, aumentava ainda o número de supersticiosos tributários de Santo Antônio, que, em circunstâncias difíceis, se mostram sempre dispostos a comprar-lhe a proteção eficaz. Essas especulações dos frades tornaram o santo tão temível aos negros, que o seu nome se tornou, para eles, uma exclamação familiar nos momentos de pavor.



(Debret, Jean-Baptiste. Viagem pitoresca e histórica ao Brasil. São Paulo, Círculo do Livro, sd. v.2, p.396-397)

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