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| PANACÉIA - Nesta seção, textos sobre
plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos;
orações; devoções; magia e feitiçaria... |
INFLUÊNCIA MILAGROSA ATRIBUÍDA A SANTO ANTÔNIO |
Em 1650, o porto e a cidade da Bahia aguardavam com temor o desembarque dos holandeses
após um combate naval em perspectiva. O governador militar, depois de ter tomado as
últimas disposições para a defesa, foi devotamente jogar-se aos pés da imagem de Santo
Antônio, que se encontra na capela do convento dessa ordem religiosa, situado à entrada
da barra. Começava ele a orar, quando uma terrível tempestade desabou, obrigando a
esquadra a fazer-se ao largo e dispersar-se, libertando-se assim a cidade, que não mais a
reviu. O governador, transbordado de fé e de alegria, foi o primeiro a proclamar o
milagre; repetiram-nos os religiosos, aproveitando-se do entusiasmo geral para fazer crer
ao povo que haviam visto no mesmo dia Santo Antônio voltar ao convento ainda molhado
pelas águas do mar. A proteção milagrosa do santo libertador fez com que lhe
concedessem, a título de recompensa, o cargo de governador-geral da província,
cujo vencimento anual ele recebe e é empregado no seu culto particular. A generosidade
devota dos habitantes da cidade apressou-se em conseguir os meios necessários à
reedificação da igreja de Santo Antônio, onde se vê hoje a estátua do santo segurando
o bastão de governador.
Com o triunfo, a imaginação dos irmãos do convento de Santo Antônio tomou novo impulso
e, tendo afirmado haverem visto o santo voltar molhado do mar, não hesitaram em supô-lo
percorrendo as ruas à noite, à caça dos negros fugidos que erravam pela cidade. Quando
um frade pegava um negro, amarrava-lhe as mãos com o cordão de seu hábito e o intimava
a indicar a casa do seu senhor. Aí chegando, o monge batia à porta e entregava o escravo
em nome de Santo Antônio, cujo papel desempenhava, na escuridão da noite, e
desaparecia logo em seguida, dizendo, num tom misterioso: "Santo Antônio lhe devolve
seu escravo fugido". Os reverendos padres sabiam de antemão que essa santa
generosidade seria recompensada no dia seguinte pelo proprietário do escravo, o qual não
hesitava em vir ao convento encomendar pelo menos uma missa e entregar alguma esmola em
ação de graças; levado pelas aparências da véspera, aumentava ainda o número de
supersticiosos tributários de Santo Antônio, que, em circunstâncias difíceis, se
mostram sempre dispostos a comprar-lhe a proteção eficaz. Essas especulações dos
frades tornaram o santo tão temível aos negros, que o seu nome se tornou, para eles, uma
exclamação familiar nos momentos de pavor.
(Debret, Jean-Baptiste. Viagem
pitoresca e histórica ao Brasil. São Paulo, Círculo do Livro, sd. v.2,
p.396-397) |
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