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| PALHOÇA - Nesta seção, textos sobre a
casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e
costumes; tipos populares... |
QUEREIS ENCONTRAR MARIDO? APRENDEI!... |
Lima Barreto
Hoje, 26-6-1919 |
A livraria Schettino, desta cidade, há tempos, editou um pequeno opúsculo de doze
páginas, tipo graúdo, entrelinhado, com este soberbo título: Quereis encontrar
marido? - Aprendei!...
É autor do livro uma senhora, dona Diana D'Alteno, que, a seguir a regra geral, nunca
encontrou o seu. Digo isto porque, na quase totalidade, todas as pessoas que se propõem a
fornecer tal coisa ou outra aos seus semelhantes, não a possuem. Haja vista os
feiticeiros, negromantes, cartomantes, adivinhos, hierofantes, que estão sempre prontos a
dar fortuna aos outros, mas que, entretanto, não têm níquel, pois precisam de
espórtulas e gratificações para os seus generosos serviços.
Dona Diana D'Alteno começa o seu interessante opúsculo assim, deste modo, que transcrevo
tal e qual:
"Gentis e amáveis moças solteiras. É a vós que dedico estes meus escritos. O
motivo que me induz a traçar estas linhas é um dos mais vitais, e quiçá dos mais
graves."
Depois dessa invocação às suas caras leitoras, a autora entra de pronto no
"argumento".
Sabem qual é este argumento? Pois fale ela. Eis as suas palavras:
"Permiti, pois, que vos fale disso como coisa nova.
"Se trata do terrível dépeuplement, a diminuição progressiva de
nascimentos, que poderá um dia ser causa de tremendos conflitos entre as nações,
aproveitando-se umas sobre as outras de maior a menor número de combatentes."
Vejam os senhores só como esta senhora está adiantada em matéria de previsão
histórica e como a sua sociologia é muito obstétrica e ginecológica.
O despovoamento pode ser um dia causa de tremendos conflitos, fenômeno terrível que ela
qualifica mais adiante: "espada de Dâmocles suspensa sobre a cabeça de
boa parte do gênero humano".
A senhora D'Alteno, ao acabar de fazer tão curiosa descoberta, não fica satisfeita.
Parece que o seu gênio é como a atividade catequizadora de São Francisco Xavier; quer
ir mais longe, mais longe. "Amplius!"
Então toma a palavra pela segunda vez e descobre a causa. Mais uma vez passo para aqui as
palavras da ilustre socióloga:
"Pela segunda vez, peço permissão de tomar a palavra e explicar sem ambages qual
seja esse motivo: é a diminuição dos matrimônios. É o caso de dizer: "a
pequenas causas, grandes efeitos" e na verdade, os matrimônios se tornam cada vez
mais raros e mais difíceis."
Peço licença para observar à ilustre senhora coisas simples. Antes, tenho a dizer que
nada entendo dessas coisas sociais, mesmo em se tratando de casamentos. Não é atividade
da minha seara intelectual mas já foi dito que cada qual tem o direito de ter uma
opinião e de dizê-la. Eu julgo que o casamento nada tem com o despovoamento. Pode haver
multiplicação da humanidade sem ele, como pode haver com ele. O "crescei e
multiplicai-vos" não subentende casamento algum. Há muitas espécies animais que
obedecem ao preceito bíblico e prescindem de semelhante cerimônia. Por acaso entre os
nossos animais domésticos que crescem e se multiplicam, apesar das pestes, das facas das
cozinheiras, do choupo, etc.; há pastores e sacerdotes encarregados de realizar
casamentos? Não.
Estou bem certo que a autora não se zangará comigo, apesar do seu nome que, entretanto,
não é também propício aos destinos do seu singular folheto. Mas... Afirma dona Diana
que "o homem (o grifo é dela) tem medo do matrimônio. Um sacro terror se
apoderou dele a tal palavra".
Ainda uma vez peço licença à ilustre autora para discordar. O "homem" não
tem medo do matrimônio; o "homem" o quer sempre. A culpa é da mulher que
escolhe muito. Se ela casasse com o primeiro que encontrasse, a tal história não se
daria. Eu, por exemplo, atiro ao terreiro um grão de milho; se não houver um galináceo
que o coma, ele germina logo. Agora, se ele quiser terra especial ou a terra quiser um
grão especial, a coisa é outra. Vai ver a ilustre autora como me vai dar razão nas suas
penúltimas palavras que são estas:
"Permanecei mulher, se quereis um dia ser mãe - a Maternidade! é essa a
maior vitória que glorifica a mulher; é esta a sua grandiosa obra."
Não falaria eu com, tanto calor, mas diria a mesma coisa com simplicidade, chãmente.
Vossa Excelência, porém, está no seu direito, apesar de Diana, de fazê-lo da forma que
o fez.
E essas suas palavras vêm a pêlo agora quando várias senhoritas se assanham para entrar
para a estrada de ferro, para o Tesouro, como funcionárias públicas.
Há nisto vários erros, uns de ordem política, outros de ordem social. Os de ordem
política consistem em permitir que essas moças se inscrevam em concurso para aspirar um
cargo público, quando a lei não permite que elas o exerçam.
Não sou inimigo das mulheres, mas quero que a lei seja respeitada, para sentir que ela me
garante.
Nos países em que se há permitido que as mulheres exerçam cargos públicos, os
respectivos parlamentos têm votado leis especiais nesse sentido. Aqui, não. Qualquer
ministro, qualquer diretor se julga no direito de decidir sobre matéria tão delicada. É
um abuso contra o qual eu já protestei e protesto.
Quando era ministro Joaquim Murtinho da Fazenda é preciso saber uma
moça requereu inscrever-se em concurso para o Tesouro. Sabem o que ele fez, depois de
ouvir as repartições competentes? Indeferiu o pedido, por não haver lei que tal
autorizasse.
Nos Telégrafos e Correios, as moças têm acesso, porque os respectivos regulamentos
autorizados pelo congresso permitem. Nas outras repartições não; é
abuso.
Mulher não é, no nosso direito, cidadão.
Está sempre em estado de menoridade. Por aí iria longe; por isso convém parar.
Spencer, na Introdução à ciência social observa que desde que o serviço
militar obrigatório foi instituído em França, para todos os rapazes entre dezoito e
vinte e um anos, o que obrigou as raparigas a virem a fazer os serviços que competiam
àqueles, as exigências de altura, talhe, etc., para os recrutas foram pouco a pouco
diminuindo; o trabalho da mulher tinha influído na geração...
Krafft-Ebbing diz, não sei onde, que a profissão da mulher é o casamento; por isso
cumprimento dona Diana D'Anteno por ter escrito o seu interessante opúsculo Quereis
encontrar marido? - Aprendei!... |
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