Ano V - junho  2003 - nº 58

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 58
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PALHOÇA

setaquad.gif (95 bytes)Programa de um dia comum

setaquad.gif (95 bytes)Barbeiro! por Luís da Câmara Cascudo.

setaquad.gif (95 bytes)Quereis encontrar marido? - Aprendei!..., uma crônica de Lima Barreto.

COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

 

PALHOÇA - Nesta seção, textos sobre a casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e costumes; tipos populares...


BARBEIRO!

Luís da Câmara Cascudo


Na gíria automobilística "Barbeiro!" é o mau chofer, dirigindo o carro desastradamente. Fazendo barbeiragem.

O gesto de barbear-se, feito na intenção de um motorista, é uma agressão feroz, proclamando a incompetência total. Provoca reação lógica. Na França vale apensa o Je m’ennuie.

Os barbeiros de outrora sangravam, aplicavam sanguessugas e ventosas, afiavam espadas, extraíam dentes. "Quem lhe dói o dente vai à casa do barbeiro!". Eram legalmente autorizados ao exercício da Flebotomia. Ainda alcancei em Natal o velho barbeiro José Antônio Areias praticando sangria, então aconselhadas e regulares à volta de 1905-1910. Armando Nogueira China (1891-1969), médico, farmacêutico, filho de médico, de inesquecido convívio, dizia-me que a acepção insultuosa do epíteto nascera dos médicos novos, primeira década do século XX, satirizando os velhos policlínicos patas-de-boi, fiéis às tradições arcaicas da terapêutica. No seu tempo de estudante na Bahia referiam-se aos antigos doutores com ironia e desdém: "Aquilo é um barbeiro!". Quando alguém informava ter consultado a um deles, fazia-se o gesto de passar a navalha no rosto.

Parece-me, entretanto, que o centro irradiante fora o Rio de Janeiro e que o título faceto surgira quando popularizou-se a frase "Mão e contra-mão". Não sabendo "agoentar a mão", vindo ao enviés, ao contrário da direção, sugeria-se a raspagem da barba às avessas da implantação dos pêlos, pelos barbeiros aprendizes, praticando na cara dos fregueses. A partir de 1900, informa Dauzat, divulgou-se o chofer no sentido contempôraneo. A mão do barbeiro daria a imagem sensível da indispensável competência. Ele e o chofer dependeriam da habilidade manual. Qualquer erro provocaria protesto notório. Não obtive explicação cabal, mas o gesto ficou, na aplicação zombeteira do falso profissional.



(Cascudo, Luís da Câmara, História dos nossos gestos: uma pesquisa na mímica do Brasil. Melhoramentos 1976)

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