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| PALHOÇA - Nesta seção, textos sobre a
casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e
costumes; tipos populares... |
O PROGRAMA DE UM DIA COMUM |
Toda a família trabalha. É difícil empregar o pessoal de fora. Se acontece, é a de Cr$
10,00 por dia mais a comida, e o horário de trabalho se estende das 6 horas da manhã às
4 da tarde. O trabalhador tem tempo de chegar a seu rancho antes de escurecer.
Em casa, todos se levantam logo que começa a clarear. A mulher põe no fogo a água para
fazer café e o feijão. O homem toma uma xícara de café e segue para a roça. Filho
menino vai junto. Aos 12 anos, o menino já faz tudo o que o pai faz, menos a derrubada.
Enquanto isso, a mulher trata das criações: para os porcos, dá milho, ramos de
mandioca, raízes. Para as galinhas, milho. Leva as louças para lavar perto do monjolo, e
aproveita para trocar o arroz do monjolo.
Se não tem monjolo, depois de lavar a louça, trabalha no pilão perto de uma hora.
Então corta lenha e prepara o almoço. Por volta das 9 horas sai o almoço. Se o pai
está longe, uma criança leva o almoço para ele. Às três horas da tarde é a janta.
Esse horário não é generalizado porque também vi algumas famílias que antigamente
viviam na cidade, e que almoçam ao redor do meio dia e jantam de noite.
Duas vezes por semana, de manhã, a mulher lava a roupa no córrego; o lugar se chama
"porto". As crianças pequenas brincam na água. Se o sol ajuda, ao meio dia a
roupa já está seca. Passa com ferro de carvão. Nos outros dias, depois de fazer o
almoço, ela também vai para a roça, deixando a casa aos cuidados da menina mais velha.
É o caso de Jerônima, de 7 anos, que já sabe fazer o almoço, lavar a louça, dar banho
nas irmazinhas etc.
Quando estavámos, José Basílio e eu, a caminho da casa do Laurentino, vimos mulheres
cortando os primeiros cachos de arroz ainda verdes, para "torrar", isto é,
fazer amadurecer à força do fogo. Usam esse processo quando já acabaram com a reserva
da colheita anterior. "Arroz para torrar é comida de abade", comentou José
Basílio, querendo dizer com isso que esse arroz é mais gostoso. Vimos outras mulheres
arrancar amendoin, aproveitando uma boa chuva que amolecera a terra.
Depois da janta, conforme a hora, trabalha-se ainda até escurecer, tempo de tomar banho e
ir dormir.
O parceleiro é dono de organizar seu horário, de programar seu trabalho; mas o seu
patrão é o tempo. Sabe que deve aproveitar cada instante do dia como também cada dia de
sol ou de chuva se não quiser ser tomado de surpresa ou se atrapalhar na hora da
colheita. Isso faz com que viva sempre tenso e atarefado. Mas uma visita que chega em casa
é motivo suficiente para alterar o programa. Vimos isto quando paramos em frente à casa
de Milton, o cearense. Estávamos, como já falei, a caminho da casa de Laurentino. Já
devia ser perto das 6 das tarde e não conseguíamos achar sequer a "linha",
isto é, a rua. Tínhamos o número do lote mas nos faltava o número da
"linha".
À mão direita, avistamos uma casa de palha e justamente lá vem vindo um moço, jovem,
branco, com o machado ao ombro. José Basílio explica a situação, a minha presença,
solicitando um lugar para pousar. Não há problema nenhum e o dono até parece encantado
de nos receber. Encosta o machado num pau e nos faz entrar em casa. É um quarto de 3 por
3 sem porta. Sentamo-nos em bancos toscos, tomando o cuidado de não enfiar os pés nos
bancos entre as tábuas do chão. De fato, o chão é feito de umas tábuas meios soltas,
mas que evitam de se sujar de barro quando chove, porque a casa não tem baldrame e fica
no nível mesmo do terreiro. Atrás desta sala onde estamos, fica a cozinha à direita, o
quarto de dormir à esquerda. A cozinha se resume no fogão de barro e o quarto de dormir
numa cama de casal onde agora dorme duas criancinhas. Sentamos e conversamos: cada um
explica onde mora e o que faz. A esposa e a sogra estão ocupadas na cozinha. Só vão
aparecer para oferecer um cafezinho servido em bule, canequinhas esmaltadas e um prato
como bandeja. A mulher de Milton é muito discreta mas nada acanhada e responde sem
constrangimentos às nossas perguntas. Enquanto continuamos conversando, Milton pega de
novo no machado para cortar um pouco de lenha. Na volta, convida-nos para tomar um banho
no córrego atrás da casa, o que aceitamos com prazer depois deste dia de cansaço, de
calor...e de piuns! Quando voltamos, já é noite e a janta está pronta. Em cima do
fogão, há três panelas: uma de arroz, uma de feijão e uma de carne de veado. Há
também pratos de alumínio e colheres, de forma que cada um vai preparar seu prato na
cozinha e volta à sala para comer, quer sentado, quer de pé. Alguns repetem. No canto
há uma moringa com água e cada um se serve. Enquanto acabamos de comer, dois vizinhos
chegam, decididos a ganhar a revanche da partida de baralho do domingo passado. Não que
costumem jogar todas as noites, como faz questão de explicar o Milton. Hoje é
excepcional!.
Alguns conversam, outros fazem seu jogo; as mulheres ficam de pé na divisa da cozinha. A
água está no fogo para mais um cafezinho. Por fim nos ajeitamos para dormir, eu na minha
barraca porque emprestei minha redes, às outras visitas no paiol... No dia seguinte,
almoçamos antes de seguir caminho. São 8 e meia da manhã. Mas desde cedo fomos passear
pelo arrozal com o Milton e outros vizinhos, gravamos várias conversações...
O parceleiro dá com todo gosto o pouso, a comida, o seu tempo. Tomara que quem o visita
saiba lhe dar pelo menos uma amizade sincera!
Esse fato de a mulher sempre ficar de pé me chamou a atenção. Mesmo para comer, ela
pega no seu prato e come de pé. As crianças sentam na porta ou numa cama, se existe
alguma por perto, ou no chão. O marido, quando volta para casa, está cansado, não se
discute. Mas não quer saber se os outros também estão. Ele é o chefe, ele manda, sem
pedir "por favor", manda porque é normal que os outros estejam a seu serviço.
A mulher faz tudo para ele, sem reclamar.
Quando as crianças vão dormir, elas pedem a bênção aos pais. Não vi ninguém beijar
ninguém.
(Thiéblot, Marcel Jules. Rondônia:
Um folclore de luta. São Paulo, Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia /
Conselho Estadual de Artes e Ciências Humanas, 1977. Coleção Folclore, nº 6, p.83-86) |
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