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| OFICINA
- Nesta seção, textos sobre profissões; ferramentas; técnicas; agricultura, pecuária;
artesanato; vendedores ambulantes; pregões... |
O IBES é o lugar por excelência dos pregões dos vendedores a domicílio. Madrugada
ainda já os padeirinhos anunciam o dia que nasce e o sol que desponta entre nuvens
róseas ou acobecadas, fazendo fundo a um quadro maravilhoso, realçando a imponência do
convento de Nossa Senhora, branquinho e altaneiro no topo da montanha recoberta do verde
escuro da floresta.
Os padeirinhos percorrem as ruas com os seus pregões:
Balança a roseira...
Ou este outro: Cheguei...
Um bando de garotos de 8 a 14 anos, cestinhas no braço, toalhas limpinhas cobrindo o pão
que vendem para ganhar o pão que alimentará a si e a seus irmãos. Uns gritam bonito,
outros em tom lúgubre parecem uns arutaus espantando as últimas sombras da noite:
Padei...ro Padei...ro.
Um velho num triciclo, com uma buzina estridente e irritante, contrapõe em fá menor:
Padeiro...
O sol já vai alto e surgem os vendedores de pirulitos, trazendo em "ombros
armas" os seus pauzinhos sustentando as rodas empalitadas de pirulitos:
Ah é... o pirulito
Enfiado num palito
Chupa pobre, chupa rico
Chupa eu que também grito.
Mais tarde é o comprador de garrafas, com um cone de flandres na boca como porta-voz:
Este sim...
Comprando garrafa... cobre... chumbo... alumínio ou metal al...
Demora-se um pouco e se ninguém o chamou, avisa:
Então já vou...
Pára o cocadinha gritando:
É a cocadinha baiana...
Há o homem que solda panelas, anunciando-se às donas de casa:
Soldador... soldador...
E, de quando em vez visita o bairro o:
Amolador... vai passando o amolador...
O carrinho chia conduzindo o barrilzinho e o garoto apregoa: Querosene... querosene...
Passam os peixeiros (chamados de tubarões pelo elevado preço de seus peixes), passa o
carangueijeiro e o vendedor de "cana caiana". De rua em rua, de porta em porta,
todos os dias, ouvem-se os pregões dos vendedores do IBES.
Há pregões bonitos que encantam, que caracterizam um lugar e que deixam uma suave e doce
melancolia a nos recordar da infância, a reviver lembranças e a provocar no peito uma
saudade da terra da gente, como meninas de pés descalços na areia quente das ruas de
Conceição da Barra, uma com a sacola, outra com uma caixinha com Nossa Senhora enfeitada
de fitas e de flores, batendo de porta em porta:
Esmola para Nossa Senhora da Boa Morte.
Mas o pessoal de casa está lá no fundo do quintal ensaboando roupa, não ouviu. As
meninas gritam mais alto quase cantando:
Esmola pra Nossa Senhora da Boa Morte...
Ah, minha Nossa Senhora, me perdoe, não tenho nem um dinheirinho. Mas entrem
minhas filhas, vou ver alguma coisa... umas florzinhas, um ovo. É o que posso dar. É de
coração.
Na Bahia, recorda-se o amigo Seixas, as mulatas de saias rendadas, com o depósito na
cabeça, anunciam pelas manhãs:
Olha a canjiquinha, tá quentinha, tá quentinha...
Em Maceió, é o mesmo informante que relembra os vendedores de sururu:
Olha o sururu fresco é sururu de capote...
E em Vitória, quem não se recorda aquele vendedor de sorvete que gritava a primeira
sílaba: sor... e sustentando o agudo arrematava lá longe vete... anunciando a
seguir 56 qualidades: coco, manga, abacaxi, laranja e tantas outras frutas que não
chegavam a 56, mas era mais de uma dezena.
Muitos citados e conhecidos são os pregões daqueles garotos preguiçosos e tão
preguiçosos que um deles vendia pirulito na estação ferroviária para aproveitar o
apito da locomotiva: p... i... e arrematar: rulito... E o outro, vendedor de amendoim,
tão indolente que se, postava à porta da igreja e quando o sacerdote dizia Amém... ele
concluia: "doim torradinho..."
(A
Gazeta. Vitória, 8 de março de 1959) |
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