Ano V - junho  2003 - nº 58

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 58
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA

setaquad.gif (95 bytes)Pesca de tainhas, por Antônio Alves Câmara.

setaquad.gif (95 bytes)Pregões

setaquad.gif (95 bytes)Rendeiras de Guarapari, por Isabel Serrano.

PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

OFICINA - Nesta seção, textos sobre profissões; ferramentas; técnicas; agricultura, pecuária; artesanato; vendedores ambulantes; pregões...

PREGÕES

O IBES é o lugar por excelência dos pregões dos vendedores a domicílio. Madrugada ainda já os padeirinhos anunciam o dia que nasce e o sol que desponta entre nuvens róseas ou acobecadas, fazendo fundo a um quadro maravilhoso, realçando a imponência do convento de Nossa Senhora, branquinho e altaneiro no topo da montanha recoberta do verde escuro da floresta.

Os padeirinhos percorrem as ruas com os seus pregões:

Balança a roseira...

Ou este outro: Cheguei...

Um bando de garotos de 8 a 14 anos, cestinhas no braço, toalhas limpinhas cobrindo o pão que vendem para ganhar o pão que alimentará a si e a seus irmãos. Uns gritam bonito, outros em tom lúgubre parecem uns arutaus espantando as últimas sombras da noite:

Padei...ro Padei...ro.

Um velho num triciclo, com uma buzina estridente e irritante, contrapõe em fá menor:

Padeiro...

O sol já vai alto e surgem os vendedores de pirulitos, trazendo em "ombros armas" os seus pauzinhos sustentando as rodas empalitadas de pirulitos:

Ah é... o pirulito
Enfiado num palito
Chupa pobre, chupa rico
Chupa eu que também grito.

Mais tarde é o comprador de garrafas, com um cone de flandres na boca como porta-voz:

Este sim...

Comprando garrafa... cobre... chumbo... alumínio ou metal al...

Demora-se um pouco e se ninguém o chamou, avisa:

Então já vou...

Pára o cocadinha gritando:

É a cocadinha baiana...

Há o homem que solda panelas, anunciando-se às donas de casa:

Soldador... soldador...

E, de quando em vez visita o bairro o:

Amolador... vai passando o amolador...

O carrinho chia conduzindo o barrilzinho e o garoto apregoa: Querosene... querosene...

Passam os peixeiros (chamados de tubarões pelo elevado preço de seus peixes), passa o carangueijeiro e o vendedor de "cana caiana". De rua em rua, de porta em porta, todos os dias, ouvem-se os pregões dos vendedores do IBES.

Há pregões bonitos que encantam, que caracterizam um lugar e que deixam uma suave e doce melancolia a nos recordar da infância, a reviver lembranças e a provocar no peito uma saudade da terra da gente, como meninas de pés descalços na areia quente das ruas de Conceição da Barra, uma com a sacola, outra com uma caixinha com Nossa Senhora enfeitada de fitas e de flores, batendo de porta em porta:

Esmola para Nossa Senhora da Boa Morte.

Mas o pessoal de casa está lá no fundo do quintal ensaboando roupa, não ouviu. As meninas gritam mais alto quase cantando:

Esmola pra Nossa Senhora da Boa Morte...

– Ah, minha Nossa Senhora, me perdoe, não tenho nem um dinheirinho. Mas entrem minhas filhas, vou ver alguma coisa... umas florzinhas, um ovo. É o que posso dar. É de coração.

Na Bahia, recorda-se o amigo Seixas, as mulatas de saias rendadas, com o depósito na cabeça, anunciam pelas manhãs:

Olha a canjiquinha, tá quentinha, tá quentinha...

Em Maceió, é o mesmo informante que relembra os vendedores de sururu:

Olha o sururu fresco é sururu de capote...

E em Vitória, quem não se recorda aquele vendedor de sorvete que gritava a primeira sílaba: sor... e sustentando o agudo arrematava lá longe – vete... anunciando a seguir 56 qualidades: coco, manga, abacaxi, laranja e tantas outras frutas que não chegavam a 56, mas era mais de uma dezena.

Muitos citados e conhecidos são os pregões daqueles garotos preguiçosos e tão preguiçosos que um deles vendia pirulito na estação ferroviária para aproveitar o apito da locomotiva: p... i... e arrematar: rulito... E o outro, vendedor de amendoim, tão indolente que se, postava à porta da igreja e quando o sacerdote dizia Amém... ele concluia: "doim torradinho..."



(A Gazeta. Vitória, 8 de março de 1959)

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