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| OFICINA
- Nesta seção, textos sobre profissões; ferramentas; técnicas; agricultura, pecuária;
artesanato; vendedores ambulantes; pregões... |
Elas são em geral empregadas na pescaria e a das tainhas merece especial menção por ser
uma das mais curiosas, e na qual é preciso desenvolver muita sagacidade, por serem elas
muito tímidas e vivas.
Para esse fim empregam redes de dois sistemas: a da tainha é retangular, regulando suas
dimensões 60 metros de comprimento para 4 a 5 de altura, sendo a malha de 0,025 m. a
0,038. É guarnecida na parte inferior de pandulhos para não fazer barulho na
bordas das canoas.
A outra, a angareira, é uma pequena rede de malhas miúdas com as cabeceiras
cosidas em pequenas varas, a qual se coloca por cima da canoa no sentido da quilha, do
lado oposto ao cerco feito pela rede de tainhas, e inclinada para fora. As extremidades
inferiores das varas ficam no fundo da canoa escoradas pelos pés dos pescadores, que com
uma das mãos mantêm a parte superior delas na posição conviniente.
Em geral é a pescaria feita por duas ou mais canoas em número par, que levam, cada qual,
uma quartelada da rede das dimensões citadas.
Observa-se o mais rigoroso silêncio a bordo delas, e até o remar é de maneira a não
produzir o menor ruído, pois o mais ligeiro som as dispersaria.
Com estas precauções seguem vagarosamente procurando surpreendê-las em cardumes, como
geralmente andam. Elas denunciam-se, quando está lisa a superfície do mar, por um
ligeiro marulhar e opacidade em forma circular no centro do cardume, o que sendo
reconhecido pelos pescadores, instintivamente principia o trabalho de cerco.
As canoas de duas a duas lançam ao mar suas quarteladas de redes de maneira que, quando
se encontram com as outras do outro grupo, sobra sempre rede para trespassar uma sobre a
outra, e, ajuntando as extremidades, fica fechado nesse ponto qualquer buraco por onde
possam as tainhas fugir.
Quando são apenas duas canoas, partem ainda do mesmo ponto descrevendo um círculo a
encontrarem-se no outro extremo do diâmetro.
Desta sorte, em curto tempo, e sem rumor algum, fecham o círculo, em cujo centro está o
cardume das tainhas que, quando reconhecem a rede, a percorrem toda em roda procurando a
fuga, a qual não sendo encontrada, tentam salvar-se saltando por cima do obstáculo que
se lhes apresenta.
Já nesta ocasião estão as canoas dispostas em diversos pontos à beira da rede com as
angareiras armadas, onde elas, não tendo obtido a salvação dentro da água, vão bater,
e achar a morte dentro das canoas.
Passado o primeiro ímpeto da fuga, os canoeiros batem com as pás na borda da canoa, ou
em chato na água, para espantá-las, e elas mais descoroçoadas e menos avisadas
continuam a saltar até que com o ataque, desta ordem astucioso, termina quase o cardume.
Uma que outra salta às vezes por cima da angareira, algumas escapam saltando em lugares
onde não há canoa, e ainda outras mais tímidas, ou sagazes, aprofundam-se, e não
saltam, nem investem para rede, o que resultaria emalharem-se.
Assim o grande salto, ou a excessiva timidez, as salva.
Algumas, ao primeiro ímpeto na carreira, que dão para fugir, não reconhecem a rede, e
ficam presas nas malhas, principalmente onde as redes se ajuntam.
Essa pesca assim descrita é feita de dia, e em ocasião de calma e águas paradas.
À noite rara vez se a faz, e nas melhores circunstâncias de tempo e mar, e quando não
há fosforescência, que aliás é fenômeno pouco comum no porto da Bahia, empregam o
sistema de abalo, que as faz emalhar, por elas não verem a rede, e pouco saltarem
em noite escura.
(Câmara, Antônio Alves. Ensaios
sobre as construções navais indígenas do Brasil. São Paulo, Companhia Editora
Nacional / Brasília, INL, 1976, p.41-43) |
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