Ano V - junho  2003 - nº 58

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


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SUMÁRIO - EDIÇÃO 58
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO

setaquad.gif (95 bytes)História da fortuna, por Zé do Norte.

setaquad.gif (95 bytes)A boa mulher, por Viriato Padilha.

setaquad.gif (95 bytes)Onde comem dois, comem três, uma história do tempo em que Jesus Cristo andava pelo mundo.

OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

 

IMAGINÁRIO - Nesta seção, textos sobre lendas e mitos; contos; personagens; fábulas; narrativas populares; seres fantásticos...

ONDE COMEM DOIS COMEM TRÊS

Lindolfo Gomes


Vai um dia, no tempo em que Nosso Senhor andava pelo mundo, por uma noite de muita chuva e muito frio, alta hora, um pobre lavrador, carregado de família, ouviu bater à porta de seu rancho.

— Ó de casa!

— Ó de fora! — respondeu.

Abriu a porta e deu com dois pelingrinos que lhe pediram pousada e janta.

Mandou preparar a ceia com o que havia e os pelingrinos, um velho e outro moço, atiraram-se a ela com vontade.

Vai daí, ouviu-se bater de novo à porta. O lavrador foi abri-la e apresentou-se outro pelingrino em tudo semelhante aos outros. Pediu-lhe pousada e de comer.

O lavrador hesitou. Os pratos estavam quase vazios e em sua casa não havia mais nada.

— Mande entrar — disse o mais velho dos viandantes — onde comem dois, comem três.

O que chegou tomou assento à mesa e pôs-se a comer também.

Passado um instante, outro a bater, e depois outro, mais outro. Assim, dentro em pouco, tinham chegado doze, que eram os apóstolos, e mais Nosso Senhor Jesus Cristo em pessoa, em trajes de pedinte, numa pobreza nunca vista.

No dia seguinte, no arraiar da primeira luz, despediram-se todos muito agradecidos, e o velho, que não era senão São Pedro, disse ao lavrador que pedisse alguma coisa a Nosso Senhor, que não lhe havia de negar.

O lavrador, que era inclinado ao jogo, pediu a Nosso Senhor que lhe desse meios e modos de ganhar sempre pela certa.

Dito e feito. Aparece logo ali por milagre, um baralho com aquela virtude.

O lavrador começou então a desabusar todos os parceiros, e a fama correu.

Mas, não levou muito tempo morreu o homem e no caminho de ir prestar contas, encontrou-se com dois diabos que levavam a alma de um escrivão, seguros com ela pelos cabelos. Era uma ventania de levar tudo para os quintos.

O lavrador teve pena da alma e ainda porque devia umas certas obrigações ao escrivão, propôs aos coisa ruim o resgate daquela alma numa partida de jogo. Se ele ganhasse, estaria salvo o escrivão; se perdesse, já os diabos, em vez de uma, levariam duas almas. Ele tinha confiança no baralho que lhe dera Nosso Senhor Jesus Cristo.

Os diabos aceitaram. O lavrador sacou do baralho, ganhou pela certa e lá se foi com a alma do escrivão para o céu. Bateu à porta. Veio São Pedro.

— Então, que quer?

— Quero entrar. Ora, se quero!

— Entre.

— E levo o companheiro.

— Isso não. Você já viu, homem de Deus, escrivão entrar no céu?

— Pois será esta a primeira vez. Então vossa senhoria não me conhece mais? Sou o homem do baralho, aquele que deu de dormir e de jantar a Nosso Senhor Jesus Cristo, a vossa senhoria e aos santos apóstolos.

— E daí? Já não vai entrar?

— Daí é que a palavra de rei não volta atrás, pois vossa senhoria foi o mesmo que disse que onde comem dois, comem três...

São Pedro não teve nada que responder e ficou a coçar a barba, e lá se foram os dois entrando no céu, onde até então não constava haver entrado alma de escrivão.



(Em Gomes. Lindolfo. "Lendas populares de Santo Antônio e São Pedro". Diário de Minas. Belo Horizonte, 21 de junho de 1953)

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