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| IMAGINÁRIO
- Nesta seção, textos sobre lendas e mitos; contos; personagens; fábulas;
narrativas populares; seres fantásticos... |
ONDE COMEM DOIS COMEM TRÊS |
Vai um dia, no tempo em que Nosso Senhor andava pelo mundo, por uma noite de muita chuva e
muito frio, alta hora, um pobre lavrador, carregado de família, ouviu bater à porta de
seu rancho.
Ó de casa!
Ó de fora! respondeu.
Abriu a porta e deu com dois pelingrinos que lhe pediram pousada e janta.
Mandou preparar a ceia com o que havia e os pelingrinos, um velho e outro moço,
atiraram-se a ela com vontade.
Vai daí, ouviu-se bater de novo à porta. O lavrador foi abri-la e apresentou-se outro pelingrino
em tudo semelhante aos outros. Pediu-lhe pousada e de comer.
O lavrador hesitou. Os pratos estavam quase vazios e em sua casa não havia mais nada.
Mande entrar disse o mais velho dos viandantes onde comem dois, comem
três.
O que chegou tomou assento à mesa e pôs-se a comer também.
Passado um instante, outro a bater, e depois outro, mais outro. Assim, dentro em pouco,
tinham chegado doze, que eram os apóstolos, e mais Nosso Senhor Jesus Cristo em pessoa,
em trajes de pedinte, numa pobreza nunca vista.
No dia seguinte, no arraiar da primeira luz, despediram-se todos muito agradecidos,
e o velho, que não era senão São Pedro, disse ao lavrador que pedisse alguma coisa a
Nosso Senhor, que não lhe havia de negar.
O lavrador, que era inclinado ao jogo, pediu a Nosso Senhor que lhe desse meios e modos de
ganhar sempre pela certa.
Dito e feito. Aparece logo ali por milagre, um baralho com aquela virtude.
O lavrador começou então a desabusar todos os parceiros, e a fama correu.
Mas, não levou muito tempo morreu o homem e no caminho de ir prestar contas, encontrou-se
com dois diabos que levavam a alma de um escrivão, seguros com ela pelos cabelos. Era uma
ventania de levar tudo para os quintos.
O lavrador teve pena da alma e ainda porque devia umas certas obrigações ao escrivão,
propôs aos coisa ruim o resgate daquela alma numa partida de jogo. Se ele
ganhasse, estaria salvo o escrivão; se perdesse, já os diabos, em vez de uma, levariam
duas almas. Ele tinha confiança no baralho que lhe dera Nosso Senhor Jesus Cristo.
Os diabos aceitaram. O lavrador sacou do baralho, ganhou pela certa e lá se foi com a
alma do escrivão para o céu. Bateu à porta. Veio São Pedro.
Então, que quer?
Quero entrar. Ora, se quero!
Entre.
E levo o companheiro.
Isso não. Você já viu, homem de Deus, escrivão entrar no céu?
Pois será esta a primeira vez. Então vossa senhoria não me conhece mais? Sou o
homem do baralho, aquele que deu de dormir e de jantar a Nosso Senhor Jesus Cristo, a
vossa senhoria e aos santos apóstolos.
E daí? Já não vai entrar?
Daí é que a palavra de rei não volta atrás, pois vossa senhoria foi o mesmo que
disse que onde comem dois, comem três...
São Pedro não teve nada que responder e ficou a coçar a barba, e lá se foram os dois
entrando no céu, onde até então não constava haver entrado alma de escrivão.
(Em Gomes. Lindolfo. "Lendas populares de Santo
Antônio e São Pedro". Diário de Minas. Belo Horizonte, 21 de
junho de 1953) |
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