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| FESTANÇA - Nesta seção, textos sobre
festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas;
instrumentos musicais... |
CORDÕES DE BICHOS E PÁSSAROS |
Ultimamente, quem melhor tratou dos folguedos populares da Amazônia, os cordões de
bichos e os pássaros, foi o folclorista e etnólogo Edison Carneiro.
Em seu último trabalho, A conquista da Amazônia, assim ele comenta os primeiros:
"Os cordões de bichos são uma alegoria popular, que resulta numa defesa da flora, e
da fauna da região norte". Constituem, "em palco armado nas cidades do
interior, a representação dramática-burlesca que gira em torno de um caçador, que ora
por inadvertência, ora por maldade, alveja, mortalmente, um pássaro encantado. Da trama
fazem parte pajés e fadas, matutos e índios, estes como perseguidores do caçador e
sentinelas da floresta". Para encerrar, entretanto, o pássaro ressuscita e o
caçador "ganha o perdão da tribo ou se vê exposto à execração pública".
Os pássaros, segundo ainda o mesmo autor, são o prolongamento em roupagem urbana dos
cordões de bichos. Folguedos do ciclo joanino como estes, se apresentam às vésperas de
São João, em cinemas, circos e palcos populares de Belém, no estado do Pará.
Seu argumento é "uma estranha mistura de novela de rádio, burleta e teatro de
revista, a que não falta certa cor local". E aí aparecem fidalgos à moda do
século XVI e XVII, cenas jocosas de matutos, danças de belas jovens semi-nuas, etc.
Em 1954, o grupo dos Passors Tentém, que conquistou, em Belém, o primeiro lugar, no
concurso patrocinado pela prefeitura, apresentou o entrecho dramático, assim resumido por
Edison Carneiro: "O senhor duque opõe-se terminantemente ao casamento da filha com
um plebeu. Este recorre à feiticeira, que faz pajelança contra o fidalgo. Ao surpreender
a filha em colóquio com o namorado, o senhor duque bate-se com ele a espada. Durante o
duelo, o caçador desarma o duque, mas, num gesto cavalheiresco, entrega-lhe novamente a
espada. Num golpe infeliz, o duque atinge e mata a filha. Há um coro de lamentações. A
boa fada, a pedido da selvagem branca, liberta o namorado das suas angústias e dos
índios, que o deixam moído de pancada, ao encontrá-lo desorientado na floresta. A
desgraça cai sobre a família fidalga. O duque enlouquece, a duquesa transforma-se em
mendiga. Novamente, intervém a fada e o duque e a duquesa se reconciliam e o nobre
dá à selvagem branca, que reconhece como a filha que perdera anos antes, em casamento ao
caçador".
Também conta Edison Carneiro, que "infinitamente mais apreciadas do que o drama são
as cenas de matutos, que servem de entre-ato no desenrolar do enredo dos pássaros, com
que guardam certa relação remota". Delas participam artistas profissionais, muito
conhecidos do público e suas apresentações terminam com a interpretação de
"cançonetas típicas de teatro de revista maliciosas, apimentadas, com gestos
bem eloqüentes para os mais tardos de compreensão em que todos os figurantes
cantam e dançam".
Outro entre-ato dos pássaros é o bailado, chamado mesmo "ballet", no qual
Edison Carneiro viu qualquer coisa de cabaré da Lapa, de teatro de revista da praça
Tiradentes e das Folies Bergere de Paris, nas meias de malha preta, nos chapéus de abas
largas, nos biquinis e nas luvas de canhão alto, com que as bonitas jovens chegam ao
palco e, ao som de música excitante, requebram o corpo, de frente e de costas para a
platéia. Mas, acrescenta o folcorista, estas moças do ballet não têm mais do
que a malícia própria da sua adolescência em flor e muitas vezes são parentas
bem próximas dos "donos" da representação.
A parte essencial dos pássaros, como no cordão dos bichos do interior, é sempre a
história do caçador, que chega a matar o pássaro e mesmo o bicho de estimação da sua
prometida, e às vezes, até um príncipe encantado, que a boa fada finalmente ressuscita.
O pássaro ou bicho é representado por uma criança, que o traz, quando ave, numa gaiola,
presa à cabeça, quando bicho, colocado ao peito.
Os pássaros, em geral, não apresentam cenários decorativos. As diferentes cenas
decorrem ao ar livre e, freqüentemente, com um pano de fundo a imitar uma floresta
poviada de índios. Estes são mocinhas, que usam imensos cocares e saltitam sem
descansar, colocando a todo momento o ouvido em terra. Também cantam e, às vezes, falam
com os brancos, chamando-os de "cariua".
Cada ano, os pássaros ensaiam uma peça nova, escrita de encomenda e paga ao autor na
média de mil cruzeiros; outra pessoa, também profissional, escreve a música ou adapta
uma outra à peça. Em 1954, a organização custava aos "donos", como se diz em
Belém, 30 a 40 mil cruzeiros, e durante o período de apresentação havia uma despesa
fixa de 2 mil cruzeiros por dia. Por isso, para saldar os compromissos, os
"donos" cobravam entradas para os espetáculos, cujo preço variava de 8 a 12
cruzeiros.
Entre os mais famosos pássaros de Belém, os quais, com mais propriedade, deveriam se
chamar, como no interior do Pará, cordões de bichos, destacam-se na crônica daquela
cidade o Galo, Gato, Uirapuru, Xincuã, Japim, Pirarucu, Encantado, Caitetu, Guariba,
Rouxinol, Periquito, Quati e o já mencionado Tentém.
Referências bibliográficas
Carneiro, Edison. A conquista da Amazônia, Coleção Mauá, Ministério da
Viação e Obras Públicas, Serviço de Documentação, 1956. / "Os pássaros de
Belém". Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 24 de outubro de 1954
(A
Gazeta. São Paulo, 1º de junho de 1957) |
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