Ano V - junho  2003 - nº 58

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 58
FESTANÇA

setaquad.gif (95 bytes)Fogueira do mês de junho, por Guilherme Santos Neves.

setaquad.gif (95 bytes)Cordões de bichos e pássaros, por Rossini Tavares de Lima.

setaquad.gif (95 bytes)Refletem-se nas danças folclóricas a alma e a vida do povo brasileiro. O marimbondo, a dança do tapuio e a candeia.

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PALHOÇA
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PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

 

FESTANÇA - Nesta seção, textos sobre festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas; instrumentos musicais...


CORDÕES DE BICHOS E PÁSSAROS

Rossini Tavares de Lima


Ultimamente, quem melhor tratou dos folguedos populares da Amazônia, os cordões de bichos e os pássaros, foi o folclorista e etnólogo Edison Carneiro.

Em seu último trabalho, A conquista da Amazônia, assim ele comenta os primeiros: "Os cordões de bichos são uma alegoria popular, que resulta numa defesa da flora, e da fauna da região norte". Constituem, "em palco armado nas cidades do interior, a representação dramática-burlesca que gira em torno de um caçador, que ora por inadvertência, ora por maldade, alveja, mortalmente, um pássaro encantado. Da trama fazem parte pajés e fadas, matutos e índios, estes como perseguidores do caçador e sentinelas da floresta". Para encerrar, entretanto, o pássaro ressuscita e o caçador "ganha o perdão da tribo ou se vê exposto à execração pública".

Os pássaros, segundo ainda o mesmo autor, são o prolongamento em roupagem urbana dos cordões de bichos. Folguedos do ciclo joanino como estes, se apresentam às vésperas de São João, em cinemas, circos e palcos populares de Belém, no estado do Pará.

Seu argumento é "uma estranha mistura de novela de rádio, burleta e teatro de revista, a que não falta certa cor local". E aí aparecem fidalgos à moda do século XVI e XVII, cenas jocosas de matutos, danças de belas jovens semi-nuas, etc.

Em 1954, o grupo dos Passors Tentém, que conquistou, em Belém, o primeiro lugar, no concurso patrocinado pela prefeitura, apresentou o entrecho dramático, assim resumido por Edison Carneiro: "O senhor duque opõe-se terminantemente ao casamento da filha com um plebeu. Este recorre à feiticeira, que faz pajelança contra o fidalgo. Ao surpreender a filha em colóquio com o namorado, o senhor duque bate-se com ele a espada. Durante o duelo, o caçador desarma o duque, mas, num gesto cavalheiresco, entrega-lhe novamente a espada. Num golpe infeliz, o duque atinge e mata a filha. Há um coro de lamentações. A boa fada, a pedido da selvagem branca, liberta o namorado das suas angústias e dos índios, que o deixam moído de pancada, ao encontrá-lo desorientado na floresta. A desgraça cai sobre a família fidalga. O duque enlouquece, a duquesa transforma-se em mendiga. Novamente, intervém a fada — e o duque e a duquesa se reconciliam e o nobre dá à selvagem branca, que reconhece como a filha que perdera anos antes, em casamento ao caçador".

Também conta Edison Carneiro, que "infinitamente mais apreciadas do que o drama são as cenas de matutos, que servem de entre-ato no desenrolar do enredo dos pássaros, com que guardam certa relação remota". Delas participam artistas profissionais, muito conhecidos do público e suas apresentações terminam com a interpretação de "cançonetas típicas de teatro de revista — maliciosas, apimentadas, com gestos bem eloqüentes para os mais tardos de compreensão — em que todos os figurantes cantam e dançam".

Outro entre-ato dos pássaros é o bailado, chamado mesmo "ballet", no qual Edison Carneiro viu qualquer coisa de cabaré da Lapa, de teatro de revista da praça Tiradentes e das Folies Bergere de Paris, nas meias de malha preta, nos chapéus de abas largas, nos biquinis e nas luvas de canhão alto, com que as bonitas jovens chegam ao palco e, ao som de música excitante, requebram o corpo, de frente e de costas para a platéia. Mas, acrescenta o folcorista, estas moças do ballet não têm mais do que a malícia própria da sua adolescência em flor — e muitas vezes são parentas bem próximas dos "donos" da representação.

A parte essencial dos pássaros, como no cordão dos bichos do interior, é sempre a história do caçador, que chega a matar o pássaro e mesmo o bicho de estimação da sua prometida, e às vezes, até um príncipe encantado, que a boa fada finalmente ressuscita. O pássaro ou bicho é representado por uma criança, que o traz, quando ave, numa gaiola, presa à cabeça, quando bicho, colocado ao peito.

Os pássaros, em geral, não apresentam cenários decorativos. As diferentes cenas decorrem ao ar livre e, freqüentemente, com um pano de fundo a imitar uma floresta poviada de índios. Estes são mocinhas, que usam imensos cocares e saltitam sem descansar, colocando a todo momento o ouvido em terra. Também cantam e, às vezes, falam com os brancos, chamando-os de "cariua".

Cada ano, os pássaros ensaiam uma peça nova, escrita de encomenda e paga ao autor na média de mil cruzeiros; outra pessoa, também profissional, escreve a música ou adapta uma outra à peça. Em 1954, a organização custava aos "donos", como se diz em Belém, 30 a 40 mil cruzeiros, e durante o período de apresentação havia uma despesa fixa de 2 mil cruzeiros por dia. Por isso, para saldar os compromissos, os "donos" cobravam entradas para os espetáculos, cujo preço variava de 8 a 12 cruzeiros.

Entre os mais famosos pássaros de Belém, os quais, com mais propriedade, deveriam se chamar, como no interior do Pará, cordões de bichos, destacam-se na crônica daquela cidade o Galo, Gato, Uirapuru, Xincuã, Japim, Pirarucu, Encantado, Caitetu, Guariba, Rouxinol, Periquito, Quati e o já mencionado Tentém.



Referências bibliográficas

Carneiro, Edison. A conquista da Amazônia, Coleção Mauá, Ministério da Viação e Obras Públicas, Serviço de Documentação, 1956. / "Os pássaros de Belém". Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 24 de outubro de 1954



(A Gazeta. São Paulo, 1º de junho de 1957)

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