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| FESTANÇA - Nesta seção, textos sobre
festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas;
instrumentos musicais... |
FOGUEIRAS DO MÊS DE JUNHO |
Por todo o Brasil, nas vésperas e dias de Santo Antônio, de São João e São Pedro,
crepitam festivamente as belas fogueiras juninas. Esse costume, que o português nos
herdou, não é apenas luso-brasileiro estende-se a todos os povos da velha Europa,
e nos vem dos longes mais distantes do passado.
Dizem os entendidos que as fogueiras de junho são antiga reminiscência pagã da festa do
Solstício estranho culto ariano de Agni o Fogo habilidosamente
aproveitado pela igreja e transformado na bela festa dos três santos queridos.
E as mesmas superstições, aquelas mesmas crendices dos pagãos, ainda hoje se repetem e
se propagam, com a mesma fé e com o mesmo calor doutrora, aqui, ali, por toda a
parte, dentro do espírito e no coração do povo ingênuo e crente.
Na Europa, povos eslavos, saxões ou latinos procedem, ante as fogueiras de junho, da
mesma forma que as gentes cá da América. Valha-nos o testemunho erudito de Sir James
George Frazer, em sua famosa obra La rama dorada (Magia y religion),
México, 1944 através de cujas páginas faremos ligeira viagem pelo mundo europeu
anotando os costumes e crendices em torno das fogueiras crepitantes.
Na velha Rússia, em vésperas de São João, moços e moças saltavam, aos pares, sobre a
fogueira (p.744). Em vários pontos da Prússia e Lituânia, acendem-se grandes fogueiras
na véspera do "verão médio" (23 de junho). Supõe-se ali que os fogos são
proteção contra os bruxedos, o raio e o granizo, bem como contra doenças do gado,
principalmente se, na manhã seguinte, se faz passarem os bois sobre as cinzas írias da
fogueira. (p.744). Na Hungria, na mesma ocasião, acendem-se nos morros as fogueiras:
sobre elas saltam os jovens pares, e "de la manera como la gente joven salta,
deducen los mirones cuando se casaran" (p.745). Na Áustria, todo aquele que
saltar três vezes cruzando o fogo das fogueiras se livrará de febres durante todo o ano
(p.742). Na Alemanha, em regiões da Baviera, julgava-se até que ponto cresceria o linho
naquele ano, pela altura que atingissem os moços nos seus saltos sobre a fogueira,
(p.740). Na Dinamarca e Noruega, na véspera de São João, brilham fogueiras, acesas para
afugentar as bruxas que velam nessa noite. E na Suécia, à véspera de San Hans, que é o
nosso São João crepitam as fogueiras e, sobre e em redor delas brinca alegremente
o povo (p.741). Em certas partes da França, ainda se mantém até hoje o costume das
fogueiras de São João. Em torno delas bailam os pares. Por vezes, dão três saltos
sobre elas, levando nas mãos um ramo de nogal. Na Bélgica, nos distritos rurais,
festeja-se a véspera de São João e São Pedro, com fogueiras e bailes. Crêem alguns
que elas se acendem para afugentar os dragões. (p.747). Em várias partes da Inglaterra,
também se observava o costume das fogueiras do "médio verano", bailando-se em
sua roda e sobre elas saltando-se também. Tal prática é corrente em toda a Espanha e em
alguns pontos da Itália. Também na Grécia acendem-se fogueiras nas vésperas de São
João e saltam sobre elas. Dizem lá que é para evitar... pulgas. As mulheres gregas,
quando pulam as fogueiras gritam: "Deixo meus pecados atrás de mim..." (p.748)
Aqui na América, na Argentina segundo se vê do magnífico Diccionario
Folklórico Argentino, de Félix Coluccio, as Sanjuanes são "Fogatas
que se enciendem la víspera y aun el dia de San Juan. Es costumbre difundida en todo el
país, y en el año 1945, en lá ciudad de Buenos Aires fueron preparadas en ocasión de
dicha festividad religiosa, por lá municipalidad mima, grandes fogatas que ardieron en
barrios tradicionales como el de San Telmo" (2ª ed. 1950, p.336).
Como se vê, o velho costume tão nosso de festejar os santos de junho com belas fogueiras
é de toda parte do globo. E as crendices que se ligam a tais chamas correm aqui e
correm por todo mundo. Com uma diferença, talvez: é que, em torno das fogueiras,
crepitam, entre nós, quase exclusivamente, as chamas do amor. Tanto que todas as nossas
superstições juninas, em regra, ao velho amor se prender... Por exemplo:
Aqui há, como se sabe, o tradicional costume de saltar-se a fogueira. O jovem par deverá
passar, num pulo, três vezes sobre as chamas da fogueira para batizá-la, dizendo:
- Boa noite, meu compadre
Boa noite, minha comadre
Santo Antônio (ou São João) manda dizer
Para nós nos escontrarmos
Tanto aqui como na eternidade.
No entanto, corre a crendice que os "compadres de fogueira" não se devem casar.
Há com que um "impedimento", nascido desse batismo simbólico...
Outras crendices rezam:
À meia-noite, a mocinha, para saber qual o nome do seu futuro marido, atira à fogueira
um tostão. No dia seguinte, recolhe-o das cinzas e o dá ao primeiro pobre que lhe bata a
porta, tendo o cuidado de indagar deste o teu nome. Tal nome será o do seu esposo, e não
tardará muito o casório...
À meia-noite, a jovem passa, sobre as chamas da fogueira, um galho de café. Se este, ao
amanhecer do dia seguinte, ainda estiver verde, ela se casará com o seu namorado; se,
porém, estiver seco, ainda não será tal moço o seu futuro marido.
Na noite de São Pedro, apanha-se um galho de limeira e se escreve, em cada folha, um nome
de rapaz. Passa-se, depois, o galho várias vezes nas chamas da fogueira. Verifica-se qual
a folha que não foi tostada e qual o nome nela escrito. Esse será o do noivo desejado. O
galho para a mesma "sorte" poderá ser de laranjeira bem nova.
Na véspera de Santo Antônio ou de São João, passa-se, em cruz, um copo com água,
sobre a fogueira. Depois, vai-se para trás de um porta, enche-se a boca dágua e,
sem se mexer, aguça-se o ouvido: o primeiro nome que se ouvir será o do futuro marido ou
da futura esposa.
O escrito já vai longo e não contamos aqui senão algumas breves crendices do rol imenso
criado no espírito ingênuo e esperançado das... mulheres. Todas essas superstições
foram colhidas em terras capixabas, mas, com certeza, são correntes também em outros
pontos do país.
Como se vê, as crendices juninas, aqui no Brasil, giram quase todas em torno do velho
"mal de amor", que, no ardor das fogueiras, parece que mais se atiça e lavra,
envolvendo nas suas chamas, também crepitantes, a alma e os corações dos jovens
namorados.
(Neves, Guilherme Santos. "Fogueiras do mês de
junho". Vida Capixaba. Espírito Santo, 30 de junho
de 1951) |
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