Ano V - junho  2003 - nº 58

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 58
FESTANÇA
CANCIONEIRO

setaquad.gif (95 bytes)A dificuldade do pobre, ABC de Adolfo Mariano

setaquad.gif (95 bytes)Folclore dos garimpos, um ABC contando a vida dos garimpeiros do sertão goiano.

setaquad.gif (95 bytes)O ABC da crise, por Adolfo Mariano.

IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

CANCIONEIRO: Nesta seção, textos sobre música regional; literatura de cordel; cantos de trabalho; poesia popular; desafios; romances; cantos religiosos; quadras, pasquins...


ABC DA CRISE

Adolfo Mariano - Goiandira


A
A vida si foi custosa
Hoji está com diferência,
Com a falta de dinhêru
Que trouxe esta indigência.

B
Boa vida quem passou
Aqui uns anos para trás,
Na fartura do dinheiro
Que hoje não se encontra mais

C
Coitado de quem percisa!
Coitado de quem não tem!
Percisa comprar de tudo
E não ter no bolso vinteim.

D
Desde que apareceu
A guerra do estrangeiro,
Todo mundo enriqueceu
E agora não há dinheiro.

E
Eu tenho dó da pobreza
Deixa lá que é infeliz!
Até os capitalista
Já queixa, clama e maldiz.

F
Fico triste aborrecido
Quando pego a maginar,
Com esta crise tão custosa
Que temos de atravessar.

G
Gosto de andar seguro
Nos direitos e meus negócios:
Com a falta de dinheiro,
Quero ser bom mas não posso.

H
Hoje está tão diferente
Como era de primeiro
Tendo dez tostões no bolso
Já digo que tenho dinheiro.

I
Ignoro de fazer dívida
Nesta triste ocasião,
Quando chega os credores
Já vem com imposição.

J
Já quando o dinheiro vem
Não sabe para quem dar,
Quanto mais está custoso
Mais a gente há de gastar.

L
Logo assim que acabou
A guerra do estrangeiro,
Pensei que podia ver
Abundância de dinheiro.

M
Mais que triste ocasião
Agora prá nós chegou,
A gente tem que vender
Mais não acha comprador.

N
Nesta falta de dinheiro
Muita gente passa mal,
Para luxar a gente faz
A questão é café e sal.

O
O dinheiro está sumindo,
Tenho dó é da pobreza
Mesmo assim o povo fala
Que Deus amou a "limpeza".

P
Por causa de dona crise
Muita gente tem sofrido,
Percisa comprar de tudo
Sempre está desprevenido.

Q
Quem tiver desprevenido
Tem de ficar no atraso
Percisa de alimentar
E ninguém não vende a prazo.

R
Ruim ocasião chegou
Para quem não faz esforço,
Percisa munir a casa
Sem ter dinheiro no borso.

S
Sorte triste da pessoa
Que percisa de socorro,
Numa ocasião assim
Passa vida de cachorro.

T
Triste coisa neste mundo
É a falta de dinheiro,
Faltando perciso em casa
Incomodar um companheiro.

U
Um café que é de saída
Quem tem ele para vender,
Custa treis mil reis o quilo
Se alguém quiser beber.

V
Valha-me Nossa Senhora!
Tenha dó dos flagelados,
Aumenta mais o dinheiro
Que está quasi acabado.

X
Xora a farta de dinheiro
O vil metal está sumido
Muita gente está chorando
Mais ninguém não é valído.

Z
Zombarei da dona crise
Fazendo este ABC,
Tomara que ela suma
Para o dinheiro aparecê.

O til é uma letrinha
Que no fim é que se escreve,
Obiserve, minha gente
Sem dinheiro não se véve.

(Copiado do jornal Novo Horizonte, 13 de julho de 1928)

(Teixeira, José Aparecido. Folclore goiano; cancioneiro, lendas, superstições. 3ª ed. São Paulo; Brasília, Companhia Editora Nacional; Instituto Nacional do Livro, 1979. Brasiliana, 306)

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