Ano V - junho  2003 - nº 58

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 58
FESTANÇA
CANCIONEIRO

setaquad.gif (95 bytes)A dificuldade do pobre, ABC de Adolfo Mariano

setaquad.gif (95 bytes)Folclore dos garimpos, um ABC contando a vida dos garimpeiros do sertão goiano.

setaquad.gif (95 bytes)O ABC da crise, por Adolfo Mariano.

IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

CANCIONEIRO: Nesta seção, textos sobre música regional; literatura de cordel; cantos de trabalho; poesia popular; desafios; romances; cantos religiosos; quadras, pasquins...


FOLCLORE DOS GARIMPOS

João Dornas Filho


Da região do rio das Garças e do rio Araguaia recebeu o autor algumas peças de valor etnográfico, qual sejam os "abc" que contam a vida do garimpo do alto sertão goiano. O que, aqui, reproduzimos é assinado por Otávio J. de Oliveira.

Ei-lo:

Araguaia é um rio rico
Porém de muita importância
Contará com o prejuízo
Quem fizer fiança
Gente que muito abraça
Quando é no fim pouco alcança

Bastantes almofadinhas
Que lá estão iludidos
Estão tocando escafandro
Já todos esmorecidos
Pelo que estou vendo
Seus cálculos saem perdidos

Coitados dos bamburristas
De lá nos anos passados
Pensavam que este ano
Os bamburros eram dobrados
Mas agora eles estão vendo
Que todos estavam enganados

Diamante tem o tempo
Ele não sai assim à toa
Se ele fosse inacabável
Isto era uma vida boa
Porém com mais ambição
Parace que ele avoa

Eu até hoje me lembro
Que no garimpo do Poço
Ninguém queimava cascalho
Pegava diamante grosso
O fato bem pensado
Isto era um colosso

Fizeram um grande alarme
Pelo Brasil inteiro
Diziam que trabalhando
No canal faziam dinheiro
O Araguaia abalou
Até país estrangeiro

Grande número de gente
Que lá este ano ajuntou
Se alguém lá fez dinheiro
O mais tudo se encravou
Lá morreu um canalista
Que até o capacete ficou

Havia lá muitos homens
Bem poucos que mergulhava
A influência era tanta
Porém não atacava
Tinha gosto de vestir
Mas nem o capacete molhava

Isto era perigoso
Quem tinha medo tinha razão
Quando uma máquina encravava
O mergulhador não tinha salvação
Logo ele saía morto
Arrastado pela mão

Já o povo se assustava
Viviam só em aflição
Logo corria dizendo
Ali tem naufragação
Só quem salvava era Deus
Se tivesse compaixão

Cada vez que uma máquina
estava tocando encravava
Este no dizer do povo
O mergulhador não se salvava
Logo o mangueiro
Nos emburrado enroscava

Lá o primeiro desastre
Que aconteceu este ano
Foi uma máquina encravada
Com um mergulhador baiano
Já o rapaz estava morto
Quandoo tirou pelo cano

Morreu também um alemão
Com desculpa de congestionado
O que é certo quando viram
Já ele tinha rodado
Embaraçou-se com o outro
Que estava do outro lado

No espaço de pouco tempo
Logo outro alemão morreu
Este ficou congestionado
Pelo aspecto pareceu
Quando ele foi tirado
Logo as unhas empreteceu

O povo não se incomodam
No dia foi para o serviço
Este pobre que morreu
Só se achou com um patrício
Para levar ao cemitério
Foi um grande sacrifício

Pois neste mesmo dia
Que este foi sequetado
Quando foi ao meio-dia
Tinha um embaraço
Não havia meio de tirar
Aquele pobre coitado

Quando passou dezoito dias
Foi que o cadavel boiou
Foi caso muito sério
Que preso o capacete ficou
Isto foi visto por todos
Que todos admirou

Rio bravo como este
No mundo não há igual
Daí passou poucos dias
Morreu outro no caudal
O Araguaia este ano
Vai causar um grande mal

Se o Araguaia fosse manso
Não tivesse correnteza
Podia-se facilmente
Descobrir sua riqueza
Araguaia é um rio rico
Bem rico de natureza

Também lá tem o rebojo
Que este muito atrapalha
É com muito sacrifício
Que o mergulhador trabalha
A influência este ano
Foi como fogo de palha

Uns escafandristas este ano
Que lá não fizeram nada
Estão todos esburacados
Isto é uma vida encravada
Esperando o rio encher
Estão todos de arriba

Vai servir de grande exemplo
Para os capitalistas
Pensavam por ter dinheiro
Eles eram bamburristas
Ele só dava valor
Mergulhador canalista

Xegava tanto escafandro
Coisa de admirar
A mancha velha
Todos iam visitar
Iam tirando entulho
Até desacuçar

Isto era um comunismo
Serviço ninguém reparava
Aonde um descobrisse
Os outros todos encostava
Só na praia do bamburro
Que eles lá respeitava

Zoiando lá os serviços
Para ninguém não entrar
Tinha muito diamante
Para eles só pegar
Tinha fuzil encostado
Para quem quiser teimar

— O til é letra do fim
Porém de muito valor
Esta serve de exemplo
No Araguaia eu mais não vou
Garimpo do Araguaia
Para mim já se acabou

Poço do rio Araguaia, 12 de outubro de 1928

Como se viu pelo desenvolvimento da xácara sertaneja, inúmeros elementos etnográficos contêm a sua contextura, e peças como esta precisam ser recolhidas cuidadosamente para o posterior exame dos entendidos.

(Do Diário de Minas, Belo Horizonte, 15 de novembro de 1950)



(Boletim da Comissão Catarinense de Folclore, ano 2, nº 8, junho de 1951, p.88-89)

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