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| CANCIONEIRO: Nesta seção, textos sobre
música regional; literatura de cordel; cantos de trabalho; poesia popular; desafios;
romances; cantos religiosos; quadras, pasquins... |
Adolfo Mariano
Goiandira |
A
Agora quero falar
A respeito a carestia,
Quem percisa de comprar
Sustente em mercadoria,
Morrerás de trabalhar
E não dá conta da famía.
B
Barato ninguém não vende
Porque o cumerçu isplora,
Para o pobre nada rende
A fome sempre devora,
Ante que os preço suspende
Põe seus mantimentos fora.
C
Coitado do lavrador
Que vive a custa do braço,
Ainda sendo cavador
Luta com muito embaraço,
Porque os explorador
Hoje em dia são os maço.
D
De sorte que o lavrador
Quando apura a sua colhêta,
Não pode esperar valor
A situação é preta.
Logo chega seu credor
Ou paga ou assina a letra.
E
Eu tem dó do coitado
Que da lavôra tá vivendo,
Quando sobra algum bôcadu
Sujeito a ficá devendo,
Depois de tudo apurado
Percisa pagá o arrendo.
F
Fazer negócio fiado
Ninguém pode penchincar,
Se é dinheiro é um cruzado,
Aprazo tem que dobrar,
Quem vive necessitado
É obrigado a sujeitar.
G
Grangeando o pobresim
Fazendu cruel esforço
Quando ganha um cobresim
Não chega a quentar no bolso,
Sai pagando os seus biquim
E fica roendo o osso.
H
hoje o negócio anda sério
Para o pobre lavorista,
Tem muitos que tem império
Por ser um capitalista,
Está sujeito a ir a zero
E não fazer negócio a vista.
I
Imagina para o pobre
Quanto sofre dissabor,
Pra poder ganhar o cobre
Luta com chuva e calor,
Tem muito que vive nobre
A custa do seu suor.
J
Jeito de ganhar dinheiro
O pobre nunca qui arranja,
Quando sai de um fazendeiro
Já nas mãos de um outro enganja
Dibaixo do cativeiro
O pouco que faz esbanja.
K
Kilo e litro é que dá fim
Nos pobre do jornaleiro,
Para sustentar os filhim
E ser um home guerrêro
Não discança um bocadim
Trabalhanu o ano intêro.
L
Lavôra não está danu
A luta hoje anda fêa,
Muitos vive arrendanu
E outros tocanu a mêa
Passa a vida trabalhanu
E não tira o pé da pêa.
M
Muitos não pensa na era
Fais logo sua transação,
Vende cedo e não espera
Diz que é pru percisão,
Logo assim os preços altera
Já está em poder do patrão.
N
Nem todos pensa o futuro
Faz logo sua transação,
Assujeita pagar juro
O comerçu e o patrão,
E depois fica nos apuro
Com as cobranças na mão.
O
O pobre vai na cidade
Comprar as mercadoria,
Acha lá boa vontade
Compra sessenta dia,
Purque tem necessidade
De vistir sua famía.
P
Passando tempo marcado
E não saldando a sua conta,
Logo vem juros contado
Nem um tostão não desconta,
O pobre passa apurado
Purque cobrodô amonta.
Q
Quem tem famía não passa
Percisa sempre comprar,
Triste é se for na farmácia
E acaba de enterrar
Farmacêutico não faz graça
Deseja o couro tirar.
R
Remédio é a perdição
De um pobre que tá doente,
Ali quarqué uma poção
Que aplica num cliente,
Se deu resultado ô não
Paga imediatamente.
S
Se o pobre vae batizar
O seu filho pur acauso,
Bem não pode apresentar
Purque vive no atraso,
E se não pudé pagar
Padre não batiza a prazo.
T
Tem dó do pobresim
Luta com dificuldade,
Não educa seus filhim
Como muitos tem vontade,
Por faltar uns cobresim
E não achar a caridade.
U
Um momento de prazer
O pobre nunca que tem,
Nunca cumpre os seus dever
Mesmo sendo homem de beim,
Hoje em dia tem poderes
É quem possue alguns vinteim.
V
Vida triste o pobre passa
Vendo a casa sem pão,
Ali a fome devasta
Quando não tem proteção,
No mundo sofre a desgraça
E no outro tem salvação.
X
Xega da roça cansado
Coitado do pobre homi,
Vendo os filhim ao seu lado
Clamanu que estão com fomi,
Cumeça a ficá zangado
Blasfemanu todu nome.
Z
Zangado com seus pequenos
Mostra tão contrariado,
Deste geito tô vivenu
São vocês mesmo os culpado,
Na lavoura estou morrendo
E vivo sempre atrasado
(Copiado de um caderno de modas do autor)
(Teixeira, José Aparecido. Folclore
goiano; cancioneiro, lendas, superstições. 3ª ed. São Paulo; Brasília,
Companhia Editora Nacional; Instituto Nacional do Livro, 1979. Brasiliana, 306) |
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