Alceu Maynard
Araújo
A chuva é boa, meu fio,
a fina e não a grossa
prá moiá nosso mio,
Qui prantemo lá na roça
É na flora e na fauna que o caipira vai buscar elementos para suas práticas mágicas,
terapêutica popular, cuja transmissão vem-se dando através das gerações. Estando em
contato direto com a terra, com o seu tamanho e aproveitamento, as necessidades de chuva
ou de sol, muitas vezes têm capital importância para sua própria sobrevivência ou
bem-estar coletivo. Desenvolvem seus conhecimentos também através da observação. Desde
cedo se iniciam na observação das fases da lua e dos fenômenos atmosféricos. Procuram
então dominá-los, daí praticarem formas mágicas para chamar ou afastar chuva, elegem
um santo do hagiológio católico romano como o supremo interventor nos fenômenos
meteorológicos. É a meteorologia popular que, na vastidão do Brasil, poderá variar,
mas nunca se afastará dos cânones portugueses dessas usanças.
Ad petendam pluviam
Varia de lugar para lugar e principalmente de região
para região, o santo que faz descer as chuvas. Na comunidade paulista de Cunha, é São
José. Aliás, como verificamos, é o santo mais querido do município todo.
Em São Paulo, pequeno burgo então em 1800, era outro o santo que desempenhava tais
funções. É do punho de um bispo que vemos firmada o que hoje é imputado como crendice
de caipira. O folclore é sem dúvida, um índice fiel das inquietações coletivas. Dizem
que o povo não cria, apenas repete. O que está repetindo hoje é o que aprendeu há
séculos, ou imita o que é proibido atualmente.
A sanção punitiva, o castigo que dão a São José do Bairro da Boa Vista é, sem
dúvida, a maior manifestação coletiva da crença na interferência mágica desse santo
no controle das forças da natureza. É a coletividade católica romana em Cunha que
participa dessa cerimônia de magia, castigando o santo, mudando-o de edícula. Quando é
grande a estiagem, vem a impossibilidade de prosseguirem na faina agrícola. Começam
então, a fazer novenas à noite, dirigidas por um "capelão-caipira". Fazem
promessas para São José e para Nossa Senhora da Conceição, que são os padroeiros do
lugar. Se as rogativas "ad petendam pluviam" não são ouvidas, então o
remédio é aplicar um castigo a São José. Vai o povo em procissão buscá-lo num
lugarejo chamado Boa Vista, distante légua e meia da cidade, e trazem-no para a matriz
local. O fato de o santo ser mudado de um lugar para outro, constitui a sanção punitiva,
pois ele não gosta disso visto que o nicho da matriz não é o seu. Isto traz-lhe
aborrecimentos e, como quer voltar para o próprio altar, manda chuvas copiosas. Vem,
então, a alegria e... renovam a crença no poder (controlador das chuvas) do santo punido
com a mudança de edícula.
"Às vezes o padre permite e avisa aos fiéis o dia em que devem ir buscar o santo.
Há, porém, vigários (mormente os estrangeiros) que não querem consentir nisso. Nesse
caso, o povo se reúne e, quer o pároco permita quer não, procedem assim. É enorme a
afluência de povo todos os lugares, para a cerimônia. Às vezes, mal chegam com o santo
na cidade, a chuva cai, chuva que encharca a terra, que tanto precisam dela. Após as
chuvas levam o santo de volta em grande cortejo, com alegres cantos e rojões."
Informaram-nos seguramente que essa prática é feita desde a fundação da cidade, antiga
Freguesia do Facão.
Dizem os lavradores: "a chuva "braba" cai no dia 2 de fevereiro, dia de
Nossa Senhora das Candeias, e a chuva miúda, no Natal. Vento seco, no dia de São
Bartolomeu, 24 de agosto. A primeira chuva nós a esperamos no dia 8 de setembro, que é o
dia de Nossa Senhora das Brotas."
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Orações para
chamar chuva: "Ó meu Deus, ó
meu Sinhó, vós por nóis óie e tenha dó, vós nos dá chuva que nos móie e dá o pão
que nos console. Tenha dó dos inocente, não deixai morrê de fome, nem a fome nem a
sede. Sinhô Deus di misericordi."
"Virge Santa do Rosário, vós venha me remediá, vós nos dá a chuva que nos móie
e dá o pão que nos consola. Vós tenha dó dos anjo inocente, não deixai morrê de
fome, nem a fome nem a sede. Não deixai morrê de fome. Misericordi Sinhô."
"Sinhora Santana, socorrei nós da miséria, sinhô Deus di misericordi. Minha
Sinhora Santana vós socorrei nós da miséria. Vós tenha dó dos inocente, não deixai
morrê a fome, nem a fome, nem a sede. Sinhô Deus di misericordi."
"Santa Madalena, Madalena Santa, ô Virgi i sinhora, vós nois daí chuva na terra.
Santa Madalena, Madalena Santa, peço pra vós chuva na terra Santa Madalena, Madalena
Santa, pede a Virgi Senhora, que nos dê chuva na terra."
Outras práticas para chamar chuva:
"Buscar água em canequinhas ou tigelas no rio e
despejá-las na santa-cruz de beira de estrada e ajoelhar para rezar."
"Novena e dar para uma criança lavar os pés dos
santos."
"Fazer procissão passando pelo quatro cantos da roça."
"Colocar Santo Antônio de cabeça para baixo no sol quente."
"Fazer uma cruz de cinza no quintal. É bom recolher-se logo, pois vira mesmo
chuva."
"Matar sapo, é ter chuva na certa."
"Matar sapo, colocá-lo de barriga para cima."
"Pisar em formigueiro, chama chuva."
"Cantar desafinado traz chuva (ou chama chuva)."
Quando não querem trabalhar e o patrão não se esconde da chuva, os camaradas dizem:
"Bata chuva grossa, porque da fina o patrão não gosta." Ou também assim:
"Mandai Mãe de Deus, mandai, São Pedro, destampa a porta do céu, derrama o
pote."
"Pedra de raio (machado lítico dos índios) não presta em casa, porque quando
começa a chover, ele começa a saltar, pois tem as influências maléficas do raio."
Lugar onde cai um raio, a pedra afunda sete braças, depois de sete anos ela está emcima
da terra. Não presta ter a pedra de raio (machado lítico dos índios) em casa, pois
atrai raios.
"Quando chove não presta falar o nome de raio: é chamá-lo."
"Perobeira, jacarandá chamam raio, não presta fazer batente de porta ou janela com
essas madeiras. Para casa deve-se usar aroreira, que não chama raio."
"Não se deve ter cachorro nem gato perto, na hora da chuva: o pêlos deles têm
eletricidade que atrai o raio."
"Não presta olhar no espelho que atrai raio. Quando chove, deve-se cobri-lo."
"Quando se colocar uma galinha para chocar, deve-se riscar os ovos com carvão para
que os raios e trovões não os gorem."
Para chamar a chuva: "São Barnabé lá no arto da serra, manda chuva na terra pá
num dexá os inocentes morrê de fome". Rezar uma Salve-Rainha e "Ó Virge
Santíssima", que a chuva virá mesmo.
Mudar Santo Antônio de lugar no oratório, é chuva na certa. |