Junho
2002
Ano IV - nº 46 |
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FERONIA
A Veríssimo de Melo |
| Féronie, divinité sabine
et latine, dont le culte public disparat aprés les guerres puniques. Le sanctuaire de
Capena, prés de Soracte, était trés riche. Ses prêtres célébraient chaque année une
fête durant laquelle ils marchaient pieds nus sur dez charbons ardents sans en ressentir
aucun mal. Féronie avait aussi à Terracine (Anxur) un temple renommé. En Campanie, elle
était la protectrice dez affranchis. Elle possédait un temple à Preneste, et des traces
de son culte on été retrouvées dans les inscriptions de plusieurs autres viles:
Nouveau Larousse Illustré, IV, 490.
Ferônia, deusa do centro da Itália, tinha seus devotos entre o povo humilde dos campos.
Era divindade familiar aos lavradores. Os étimos latinos do seu nome indicam a variedade
e profundidade dos misteres, levar, trazer, gerar, produzir. Era uma das deusas da
colheita, justamente da distribuição dos produtos das safras, com as festas ruidosas em
meados de setembro. Como os escravos e trabalhadores forros tinham liberdade maior nessa
época, pela própria alegria da recolta e a esperança de ganho e fartura, Ferônia
aparecia como uma das égides protetoras dos escravos e dos manumissados. As cerimônias
da libertação de escravos realizam-se durante sua festa no Campo de Marte, em Roma (a
Preneste romana), em Palestrina, em Terracina, perto das lagoas Pontinas, em Capena, no
Soracte, na Etrúria, onde seus templos acolhiam multidão. Na sua jornada de Roma a
Brindise, Horácio lava as mãos e a boca na fonte votiva de Ferônia em Anxur
(Terracina): Ora manusque tua lavimus, Ferônia, lympha (Satiras, 1,
5). O culto público não desapareceu cerca de sessenta anos antes de Cristo, ao
findar a terceira guerra púnica. Horácio o cita durante o governo de Augusto.
Restringiu-se a um ou dois templos e suas cerimônias típicas foram resistindo,
assimiladas noutras liturgias e guardadas pela memória e devoção do povo.
George James Frazer informa no indispensável Rameau dOr (III, 501-5022):
"Na Itália, no santuário da deusa Ferônia ao pé do Monte Soracte, todos os anos
os homens de certas famílias andavam com os pés nus e sem se queimar sobre as brasas
ardentes e as cinzas de uma grande fogueira feita com pinheiros, em presença de
incontável multidão vinda de todos os pontos da região para fazer suas devoções à
deusa. As famílias a que esses homens pertenciam tinham o nome de Hirpi Sorani, os
Lobos do Soranus. Para recompensar os serviços que eles prestavam ao Estado andando sobre
o fogo, o senado os tornara isentos, por uma decisão especial, do serviço militar e de
todos os encargos públicos. Dizia-se, se podemos referir o testemunho de Estrabão, que
esses homens eram inspirados pela própria deusa Ferônia na prova a que se
submetiam".
Essa travessia sobre as brasas incandescentes impressionava vivamente a multidão e era
sinal de superioridade incontestável dos sacerdotes.
Noutras sedes religiosas o mesmo ritual coincidia. Em Barsana os feiticeiros e sacerdotes
tomavam posse das funções atravessando o fogo. Frazer cita ainda vários povos da
Índia, os Dosadhs que habitam o Behar e o Chota Nagpur, os Buiías, tribo dravidiana do
Mirzapor, as populações da antiga presidência de Madras estudadas por Risley, Crooke,
Walhouse, nesse ato de Passing through the fire ....... "Estas práticas
consistem essencialmente em marchar sobre brasas inflamadas ou sobre cinzas ardentes,
acumuladas num fosso profundo e mais ou menos longo. Entre os Dosadhs é o sacerdote que
é submetido a esta prova. Nos arredores de Madras são os devotos que passam de pés
descalços ao longo do fosso onde foram reunidas as brasas ainda flamejantes. No século
XVIII o viajante francês Sonnerat descreveu uma cerimônia inteiramente semelhante,
celebrada pelos Indus em honra do deus Darma Rajah e sua esposa Drobedé".
Identicamente ocorria em Castabala, na Capadócia, onde uma sacerdotisa da deusa asiática
a que os gregos denominavam Ártemis Perásia, passava com os pés nus uma esteira de
brasas vivas.
Esses cultos dedicavam-se simbolicamente às forças da fecundação e germinação. A
Bona Dea, Ceres, Libera, Flora, Pomona, Pales, Ferônia, Diana, em sua convergência com a
devoção lunar, Febe ou Selene, astro protetor dos vegetais e do ciclo do crescimento,
fecundavam-se pelo calor, energia misteriosa, fonte da vida. Ártemis, deusa caçadora,
fora legitimamente uma deusa da fecundidade. Era da mesma plaina de Coré, Deméter,
Perséfona. No Peloponeso evocavam-na como Ártemis Limnatis, égide fecunda dos rios,
lagos, fontes. No Taígeto era Ártemis Paidotrofos, fazendo crescer as plantas e os
animais novos. Também era Ártemis Cnagias, madrinha do gado e dos animais selvagens.
Fácil é ver sua ligação com a Ártemis Perásia da Capadócia ou a Diana da Silícia
em cuja honra os adoradores caminhavam sobre carvões ardentes.
Atravessar o fogo, passing through the fire, ou marchar sobre as brasas, Fire
walk, era cerimônia propiciatória para conservação e retenção da energia
vitalizadora, do elemento vivificante e procriador, do princípio ardente, Sol, Vida,
Semente. Assim, numa associação de idéias, europeus, africanos, asiáticos acendiam as
fogueiras no solstício de verão, tentando ajudar a aparente fraqueza do astro que
parecia desfalecer na extrema distância do giro.
Com o passar dos tempos esse ato sagrado tornou-se virtude pessoal do sacerdote, força do
mana, soma de virtudes religiosas e estado de pureza com renúncia, ascetismo e
frugalidade. Não mais se trata de uma oblação divina mas de uma exibição de relativa
santidade, uma possibilidade visível de milagre.
J. Maxwell (La Magie, 109) narra um episódio elucidador: "Citarei a
narrativa feita pelo coronel Gudgeon de uma cerimônia de que participou em Kaietea, Ilhas
da Sociedade (Taiti), a 20 de janeiro de 1899. Uma fogueira foi acesa sobre uma
plataforma, espécie de forno construído de grandes pedras, cerca de três metros e
sessenta de diâmetro. O sacerdote-mágico, às duas horas da tarde, o fogo ardia desde a
manhã, foi para perto do forno com o seu discípulo e pronunciou algumas palavras, feito
o que bateram por três vezes o rebordo do forno com um ramo de Ti, espécie de
dracena. Esta cerimônia repetiu-se três vezes, e os dois operadores atravessaram o forno
sobre as pedras ardentes. O mágico disse então ao coronel: Eu vos transmito
meu Mana, vinde com os vossos amigos através das pedras! O coronel e seus
amigos, o doutor W. Craig, o doutor George Craig e Mr Goodwin passaram sobre o forno ainda
em vermelho-vivo. Uma só das pessoas se queimou: desobedecendo ao ritual, tinha
olhado para trás quando ia passando. O coronel, que tinha os pés nus, sentira o calor
mas não tivera queimadura alguma. Eu senti como pequenos choques elétricos durante
a travessia e mesmo depois (isto durou sete horas), e foi tudo. Os pés dos
experimentadores não estavam defendidos por nenhuma substância".
Pela própria tradição jurídica dos Ordálios a incolumidade ante a prova do fogo é o
mais alto testemunho de inocência, pureza, castidade. Mesmo conduzir um ferro aquecido ao
rubro sem que tivesse as mãos queimadas constituía proclamação absolutória
irrecorrível e suprerna. A épreuve du fer chaud ficou na tradição popular. No
mosteiro de Leça do Bailio, perto do Porto, em Portugal, casa da Soberana Ordem de Malta,
há a Capela do Ferro, túmulo do beato dom Garcia Martins. Valendo-se de sua intercessão
na Corte do Céu a mulher de um ferreiro transportou um ferro de arado, aquecido ao rubro
pelo marido que a acusava de adultério, de sua residência até o túmulo de quem era
devota. Aclamada a inocência, permaneceu o ferro do ordálio pendurado na capela a que
deu nome. (Dom Henrique, conde de Campo Belo, A soberana militar Ordem de Malta e a sua
ação em Portugal, 174, Porto, 1931; Arnaldo Gama, Bailio de Leça, cap.8,
Lisboa, sem data). A passagem pelo fogo, através da fogueira, era prova comum. O desafio
de Savonarola é típico. Quando o mestre dAvis matou o conde Andeiro, a rainha dona
Leonor Teles, exclamava desvairada: "Santa Maria, val Mataram-me nele um
bom servidor... E sem o merecer... Mataram-no, bem sei por quê... Mas prometo a Deus que
amanhã irei a São Francisco, e mandarei fazer uma fogueira, e farei aí tais provas,
quais nunca mulher fez por estas coisas..." (Oliveira Martins, Vida de
NunAlvares, 105, Lisboa, 1893).
Em Portugal (Abiul, Pombal, Senhora da Guia, do Avelar, sete léguas de Tomar, Distrito de
Leiria) há, pelo menos no terceiro local, a cerimônia de "deitar o bolo", de
três alqueires de farinha de milho, num grande forno aquecido durante doze horas
ininterruptas e alimentado pela multidão. Um homem leva o bolo para dentro do recinto
asfixiante e numa temperatura altíssima sem que nada sofra. O único resguardo é um
cravo de papel na boca, retirado ao andor de Nossa Senhora da Guia. A operação dura
segundos mas é impressionante. Chamam-no o Homem do Cravo. O bolo, reduzido a
torresmo no dia seguinte, é distribuído em pedacinhos aos devotos para fins
medicamentosos.
Há poucos anos o hindu Khuda Bux, o Rei do Fogo, atravessou as brasas na
Universidade de Investigações Psíquicas em Londres (Society for Psychical Research)
diante de dez professores especialistas. Dois deles, diante do sucesso da exibição,
doutores Harry Price e Digdy Moynagh, tentaram imitar o hindu e tiveram queimaduras do
segundo grau. Khuda Bux repetiu a façanha no Hospital Psiquiátrico de Maudsey Hill e,
diante dos professores ingleses fez discurso explicando a maravilha. Disse que o Fogo é o
"símbolo do Mal (?) e destrói o que não é puro" e para caminhar sobre as
brasas é preciso, indispensavelmente, ter a alma completamente pura. Em caso contrário,
possuindo-se o menor pecado, o fogo ataca. Imagino. os doutores Price e Moynagh ouvindo
essa doutrina e tendo os pés queimados pelo "símbolo do Mal"...
Falta dizer que a opinião "dos sábios" é que a força de vontade da mesma
espécie das dos faquires, é um elemento decisivo. O mistério continua ante a
materialidade da prova.
A Revista de dialectologia y tradiciones populares (t.III, caderno 1, Madri, 1947)
publica um estudo do senhor dom Pedro Chicco y Rello sobre "El Portento de caminar
sobre el fuego", com fotografias dos camponeses de San Pedro Manrique, em
Castilla-la-Vieja, "los cuales todos los altos, en la noche de San Juan, y sin
previos y secretos ritos misteriosos, como buenos católicos que son, se descalzan y
caminan lentamente sobre las encendidas brasas de las hogueras. Y hacen todavía mucho
más: para asentar con firmeza mayor en el fuego las plantas de los pies, cargan a sus
espaldas a otros hombres robustos y, de este modo, pasan y repasan sobre las ascuas".
Há pormenores curiosos: "Lo más curioso es que para passar el fuego, sin
quemarse, es preciso haber nacido en la vila sampedrana. Y la experiencia lo demuestra. El
Dr. Iñiguez asistió, durante dos años, a la cerimonia del fuego y comprobó que ninguno
de loz mozos de la vila sufrió la menor quemadura y el médico del lugar, Don Antonio
Delso, nunca tuvo que asistir a ningun quemado en los muchos años que ejerció alli su
profesión. En 1922 un forastero que se atrevió a cruzar las brasas candentes, sufrió
importantes quemaduras. Y como el hecho se ha repetido muchas veces, es muy raro el que se
atreve a afrontar esta prueba. La Ciência española consignó, quince años antes que la
ciencia extranjera, en la comunicación citada (Dr. Mariano Ifliguez. Ritos
celtibéricos, memorias de la Sociedad Española de Antropologia, Etnografia y Prehistoria,
III) y a manera de conclusión, lo seguinte: Las ascuas llameantes pueden pisarse,
sin gran peligro, si se tiene la seguridad de que no han de producir quemaduras. Es
indispensables no sentir temor, ni repugnancia, y hay que pisar el fuego con la misma
resolución con que se pisaría la tierra o la arena. Estas condiciones, de orden
puramente psicológico, las tienen, sólo, los sam-pedranos, y es muy dificil que las
posean los forasteros, los cuales, casi sin excepción, ponen los pies en las ascuas con
temor y, casi siempre, sólo por fanfarronería. Una-se, a todo esto, que los habitantes
de la villa sienten, siquiera sea inconscientemente, un fervor grande. Además de estas
circunstancias, propias de los sampedranos, algo influye también la manera de pisar las
ascuas. Ponen éstos los pies apretando con firmeza y sin prisas de ninguna clase: al
revés de como lo haríamos los forasteros, que sentiríamos impaciencia por sair de las
brasas ardientes. Para harcelo sin quemar-se es preciso pisar con resolución y sin temor,
con fervor religioso, y del mismo modo que lo hacen los habiguna clase: al revés de como
lo haríamos los forasteros, que tantes de esta vila".
Esclarece o senhor dom Pedro Chicco y Rello: "Se trata, según el Dr. Iñiguez, de
la supervivencia de un remotisimo rito celtibérico de adoración al sol. Este rito de
pisar el fuego, la noche de la véspera dei día solsticial, sería rito preparatorio del
de adoración; era de purificación o penitencia: tal el bafiarse antes de salir ei sol,
en la mañana de San Juan, en otros pueblos de la misma comarca, y el deshojar rosas,
romero y espliego en una gran jofaina, lavándose las docellas el cuerpo con el agua
perfumada de este modo. El fundamento, pues, de las hogueras de la noche de San Juan, era
el de preparar las brasas para los ritos de los penitentes, con objeto de recibir, luego
de purificados sus cuerpos, los primeros rayos del sol, en el dia sagrado. La Religión
del Crucificado prohibió todas las practicas idolátricas y hoy, desaparecida aquella
general y primitiva prueba del fuego, subsiste todavia milagrosamente en este pintoresco
pueblecito español, sin aquel remoto significado pagano y sólo como curiosísima
costumbre e interesantísima fiesta popular".
No Brasil essa reminiscência resiste ao tempo por toda a região do Nordeste. Do Estado
da Bahia para o norte, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte,
Ceará, Piauí, estende-se a zona onde há sempre quem "atravesse a fogueira",
"passe a fogueira" na véspera do São João, 23 de junho.
Tenho assistido muitas vezes, no interior do sertão nordestino e nas cidades, vilas e
povoações do litoral, passar a fogueira. Na cidade do Ceará-Mirim, próximo de Natal,
no Rio Grande do Norte, no São João de 1929, Francisco da Paz, trabalhador do industrial
Milton Varela, passou e repassou uma grande fogueira, tantas vezes quantas lhe pedi. Chico
da Paz fora antes examinado por mim e nada fez demonstrando fé ou sentido religioso.
Passou com a naturalidade com que um lavrador do Douro pisa as uvas num lagar, por
hábito, por costume, por tradição, quase por ofício. Em Jaboatão, próximo ao Recife,
Pernambuco, dezenas de rapazes passaram e repassaram a grande fogueira crepitante.
Conheço sacerdotes católicos que, desde crianças, passam as fogueiras do São João.
Não há oração alguma dita antes nem preparação especial para o ato. O reverendo
padre J. P. N., jovem e culto sacerdote, disse-me sentir o calor mas não a menor
sensação de queimadura.
Conversei longamente com todos esses "passadores de fogueira". Afirmam todos que
todo perigo da queimadura está na existência da cinza cobrindo a brasa. O primeiro
cuidado é abanar a fogueira para limpá-la da leve poalha das cinzas. Queima a brasa que
tenha cinza ou a brasa não toda ardente, tendo uma parte irregularmente acesa. Daí
abanar-se a fogueira até torná-la incandescente em todas as direções. O que parece
constituir o maior perigo, a fogueira viva, é justamente o elemento de maior segurança.
Nunca vi alguém passar levando outra pessoa aos ombros, como em São Pedro Manrique
(Espanha). Nem me consta que entre as promessas religiosas exista a de passar uma
fogueira. Posso informar que essa promessa não existe na região do Brasil onde a
fogueira de São João é pisada com os pés desnudos. Posso ainda adiantar que não há
nenhuma exterioridade religiosa nessa operação nem ela inicia ou termina função que se
prenda ou refira à festa católica mesmo de caráter popular.
O reverendo padre J. P. N., pregador sacro, professor, viajou pela Europa (Itália,
França, Espanha, Portugal) e está na situação privilegiada para um depoimento pessoal
interessante por ser um dos bons "passadores de fogueira", com os pés nus e sem
a possibilidade de queimar-se. Atendendo a uma solicitação minha o padre J. P. N.
escreveu: "Vi, em diferentes lugares, muita gente caminhar sobre a brasa e algumas
pessoas fazê-lo, até mesmo, com grande agilidade. Certa ocasião, em Pernambuco, ao
tempo de estudante, seja atrás do exemplo de companheiros ou pelo estímulo de aventura,
tentei, também eu, superar o perigo, e o consegui, por mais de uma vez, sem dificuldade.
Por cima de uma calçada do Colégio estendera-se longa camada de carvões ardentes
tirados da fogueira de São João. Um grupo de alunos, de pés descalços, aguardando, em
fila, o momento de iniciar a parada, um depois do outro. Ao longo da estrada, um rapaz a
abanar com freqüência, evitando a concentração de cinzas sobre as áscuas. Caminha-se
normalmente, pisando de cheio por cima das brasas que deixam nos pés a sensação do
calor mas nenhum vestígio de queimadura. Alguns, mais práticos ou afoitos, correm,
saltam ou brincam, de causar admiração. E tudo feito desimpedidamente, com
espontaneidade, e sem invocação, prece ou ritual religioso qualquer".
Tive informação que "passar a fogueira" é tradição no Brasil central,
especialmente no Estado de Minas Gerais.
Se no Brasil não sobrexiste a feição religiosa ainda há a passagem ou dança nas
brasas sob caráter sagrado. Em outubro de 1948 a imprensa européia e americana anunciava
que um velho hábito religioso na Bulgária, a dança do fogo, condenado pela Igreja
Ortodoxa Grega, reaparecera e um grupo de camponeses fora surpreendido dançando sobre
brasas, dentro de uma igreja de São Constantino numa aldeia de Novo Panichere (?) na
região de Plodiv. Embora todos estivessem calçados o elemento é por demais vivo para
ser ignorado em sua justa interpretação feroniana (A República, Natal,
26/10/1948).
As explicações são variadas e confusas. A passagem pelas brasas só se efetua sem a
mais leve camada de cinzas. A superfície aquecida igualmente seca não queimará as solas
do pé se estiverem estas completamente enxutas. Qualquer umidade determinaria
queimaduras. O pé firmado de cheio, com uma sucessão ritmada e certa de passadas sobre a
brasa viva nada sofrerá por não haver desequilíbrio entre as duas temperaturas iniciada
a travessia sem irregularidade na cadência da marcha, tendo-se maior ou menor pressão,
sempre uniforme, sobre a câmara incandescente. Acresce muito naturalmente a esses
elementos físicos o estado psicológico, sem misterioso nos imprevisíveis efeitos sobre
o organismo humano em geral. Todas as pessoas que têm atravessado a fogueira dizem a
mesma frase: sensação de calor apenas. E a recomendação é de abanar as brasas
e não mudar a passada, mantendo ritmo inalterável.
Seria o culto da deusa Ferônia um dos mais populares pelo ritual assombroso. Não se
oferecia ao Sol o sacrifício estupefaciente mas às forças obscuras e poderosas da
germinação.
No Antigo Testamento, Provérbios, VI, 28, diz-se, parecendo ignorar Ferônia e
seus devotos: ... "andará alguém sobre as brasas sem que se queimem os seus
pés?" Mas no Deuteronômio , XVIII, 10, recomenda Jeová, prudentemente:
"Entre ti se não achará quem faça passar pelo fogo o seu filho, ou sua
filha". Certamente o rito da purificação nas religiões anteriores ao domínio
israelita na Palestina compreendia a passagem da criança através de chamas, rapidamente,
como símbolo de nova vida.
Passar pelo fogo era considerado culto estrangeiro e condenado pela ortodoxia de Judá. No
Paralipomenos há o registo do rei Achaz que abandonou a Iavé et lustravit
filios suos in igne (II, 28, 3), traduzido pelo padre João Ferreira de Almeida desta
forma sibilina: e queimou seus filhos no fogo, e o rei Manassé que Transireque
fecit filios suos per ignem in valle Bénennom (II, 33, 6). Significava a
purificação iniciadora, destruindo a chama a mancha do pecado invisível. Chegados à
Canaã os israelitas encontraram o costume que não tinham visto na terra do Egito. A luta
ortodoxa dos rabinos conseguiu eliminar esse cerimonial, proclamado de suprema revolta aos
olhos do Senhor Deus.
Restou realmente, nos povos latinos, a tradição de Ferônia que reunia essas heranças,
respeitos e venerações.
Seus devotos inconscientes, convergindo para o culto popular de São João, passam e
repassam hoje, com os pés incólumes, as brasas incandescentes.
(Cascudo, Luís da Câmara. Superstição no Brasil, p.69-75) |
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