Junho
2002
Ano IV - nº 46 |
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O culto do mar é praticado
pelos pescadores das nossas praias. É um culto variado, cosmólatra e fantasista, em que
entram a lua e alguns elementos divinizados.
Não conheces os nossos pescadores? Gente tranqüila. Raramente se agridem e sempre
por questão de pesca.
Os pescadores formam um corpo distinto, diverso dos catraeiros, dos marítimos, dessa
população ambígua e viciada que anda no cais à beira das ondas perturbadoras. Não há
canto da nossa baía que não tenha uma colônia de pescadores. Vivem todos muito calmos,
sem saber do resto do mundo. Enfim, uma classe à parte, com festas próprias, que não se
afasta do oceano e é única pelo culto do mar. Os pescadores são os últimos idólatras
das vagas. Conversar com eles é ter impressões absolutamente inéditas de moral, de
filosofia e de religião.
Mas essas colônias são brasileiras? Indaguei do meu informante.
Não. Há colônias só de portugueses, como a de Santa Luzia e de Santo Cristo, de
portugueses e brasileiros, como em Sepetiba, de italianos apenas, de brasileiros só. Uma
série de núcleos ligados pela crença. São outros homens. Nascem de mães pescadoras,
partejadas quase sempre por curiosas, vivem nas praias, nunca as abandonam. Aos quatros
anos nadam, aos dez remam e acompanham os parentes às pescarias, e assim passam a
existência, familiarizados apenas com as redes, os apetrechos de pesca e o calão, o
pitoresco calão marítimo.
O oceano imprime-lhe um cunho especial, são propriedades do mar. Nunca reparaste nos
pescadores? Têm os pés diferentes de todos, uns pés contráteis que se crispam nas
pranchas como os dos macacos; andam a bambolear, balouçando como um barco, e a sua pele
lustrosa tem o macio grosso dos veludos. A alma dessa gente conserva-se ondeante,
maravilhosa e simples.
Mas os pescadores são cristãos?
- Está claro. Mas cristão puros é difícil encontrar hoje afora os evangelistas e os
sírios.
Lembro-me da festa de Nossa Senhora, na Lapa.
É outra coisa.
Vi em Santa Luzia a devoção de São Pedro.
Era promessa de um rapaz que, por falta de meios não a continua. Deixemos Nossa
Senhora e São Pedro. Falo de um culto que emana no íntimo respeito das ondas. Todos os
pescadores das praias e das ilhas próximas festejam, sacrificam ao mar e têm um objeto
especial de devoção. Não há nenhum que não tema a mãe-d'água, a sereia, os tritões
e não respeite a lua. Conheço três manifestações desse culto. A mãe-dágua
entre os pescadores de Santo Cristo e de Santa Luzia, a da lua, e do mar e a do
arco-íris.
O arco-íris?
- Em Sepetiba. É dos mais completos e dos mais belos, tendo como sacerdote uma mulher.
O arco-íris, a adoração de um deus que se curva nas nuvens policromo e vago, que ergue
das ondas um facho de luzes brandas e desaparece, o terror daquilo que se desfaz, sem que
se saiba como! Era uma fantasia! Mas os cosmólatras inventam tanta coisa para perfumar
sua ignorância, que bem podia ser.
Não há dúvidas, disse o meu amigo. O arco-íris, é uma antiqüíssima
divindade, um anúncio dos céus. Lembra-te disso e acompanha-me.
Acompanhei-o, durante um inverno, muito úmido e muito estrelado. Os pescadores têm um
temor incalculável da polícia. Desde que um curioso aparece, guardam segredo das suas
crenças e negam toda e qualquer coparticipação em religião que não seja a católica.
Como são primitivos e rudimentares, porém, a bondade que têm é fundamental,
transforma-os e não há nenhum que não acabe confiante e falador, exagerando para
espantar os mistérios cosmológicos. Esses mistérios são de uma beleza delicada e
antiga, de uma beleza de rapsodos que relembra as fantasias escandinavas e helenas, um
montão de lendas e de ritos enervantes. Há nas práticas e nas idéias trechos de
Hesíodo, de Cristo e dos pretos-minas e a gente afunda-se, quando os quer guardar, num
banho de cristal batido pelo sol.
Quase sempre os diretores das festas, os sacerdotes não são pescadores. Em Santo
Cristo é o padeiro Carvalho, homem de posses, diz o meu amigo. Os sacrifícios são
feitos geralmente à noite.
Vamos os dois interrogar os pescadores. Essa gente teme a mãe-dágua, tendo a
longínqua recordação de que ela aparece vestida de branco seguida de homens barbados de
verde. A aparição feminina grita de repente, apaga as luzes na barca, faz as
cerrações, afasta os peixes, e às vezes canta.
Como a Darclée?
- Como as sereias meu caro. Os pescadores têm que cair no fundo da barca tapando os
ouvidos. Ulisses amarrava-se...
Para aplacar a deusa do mar, ser impalpável e lindo, os pescadores fazem o sacrifício de
um carneiro. Matam o bicho à beira do oceano; o sangue cai numa cova aberta na areia.
Depois partem canoas levando pedaços do animal com presentes que deixam cair no fundo da
baía com uma oração votiva.
Um rapazola, lindo como o Apolo do Belveder, responde às nossas perguntas:
- Eu fui batizado, patrão.
Mas sabe a história da mãe-dágua?
- Sei, sim. Aqui, para mãe-dágua ser boa fazem-se despachos. Na ilha do Governador
compram tudo do mais fino, põem a mesa à beira da praia, com talheres de prata, copos
bonitos, a toalha alva e galinhas sem cabeça, para a santa comer.
Que diferença há entre Nossa Senhora e a mãe-dágua? Indago interessado.
Nossa Senhora está no céu. Mãe-dágua é diferente; é a devoção, é como um
santo do mar... E sopra-me na cara uma baforada de fumo mau.
O meu amigo, cheio de literatura, declama logo:
- Não compreendes! A água é em toda a parte uma religião. O Nilo foi feito das
lágrimas de Ísis, o Ganges é o fator da crença da imortalidade, os gregos povoaram o
mar de habitantes sagrados.
Lembra-te dos árias ao descer do planalto: - "ó mar, grande laboratório!..."
Laboratório da vida da crença.
E leva-me a uma outra praia, a compreender como tudo depende do mar e da lua. Ele conhecia
um velho pescador, José Belchior. O velho recebe-o com intimidade e conta-me o que pensa
deste mundo. É curiosíssimo.
Para José o mar representa o homem, o princípio ativo. Por isso o mar é superior em
tudo à terra, que como a mulher só serve para o descanso. O oceano circunda a terra num
longo abraço. O mar só sofre uma influência, a da lua, que mostra a sua face de trinta
em trinta dias e o faz inquieto e a arfar. Nele mora Nossa Senhora com o seu filho Jesus,
e esse doce lampadário de ouro desencadeia os ventos, afaz as tempestades, esconde os
peixes, baixa as marés e guia as naves. Se Nossa Senhora quisesse, parava a lua quando
ela vem cheia, e tudo seria então magnífico. Como as coisas não são assim, fazem-se
promessas, pede-se aos santos para interceder e, nas noites de luar, fazem uma passeata em
embarcações com velas de cera acesas na mão e rezando baixinho.
Todas essas pequena modalidades reúnem-se em Sepetiba no culto geral do arco-íris. Há
festas de três em três meses, despachos simples e uma grande solenidade, que já foi
feita a 2 de fevereiro e atualmente se realiza em junho, no dia de São Pedro.
Estive lá nesse dia. A sacerdotisa é uma portuguesa reforçada, que se chama Maria Matos
da Silva. Só são permitidos na festa pescadores, e os pescadores vão de toda a parte ao
culto singular. A casa de Maria da Silva fica mesmo no ponto dos bondes, e nos dias de
festa está toda adornada de folhagens e galhardetes. Todos, lavados e de roupas claras, a
dona da devoção manda buscar os negros feiticeiros para preparar os ebós e fazer
a matança dos animais.
Ela própria deita as cartas para saber quem deve ir levar os sacrifícios e os desejos
sutis do arco-íris.
No interior da casa, onde ardem velas, é proibida a entrada com exceção das que tomar
parte nos sacrifícios. Em frente os pescadores bebem, cantam e dançam o cateretê. Se
por acaso no céu se curvam as cores do espectro, prosternam-se todos radiosos clamando
pelo milagre. O milagre porém, como todo o milagre, é raro.
Maria da Silva tem sempre a seu lado o coronel Rodrigues, velho guarda nacional, que com
os pés metidos em grossos tamancos, sentencia máximas morais para a assembléia. Os
pescadores que apanham na rede um boto, levam-no à mulher do culto para preparo do azeite
das festas sagradas.
Vou pela praia, alanhada por um vento álgido. No céu aparecem nuvens, na areia descansam
três barcas enfeitadas. Um rapazola guarda-as. É ele quem nos dá informações a
respeito da gente que dança. Reina entre estas criaturas uma perfeita amoralidade. Como
não há barulhos graves, não se vai à polícia. Conselhos dão os velhos. A mulher
serve para procriar, obedece cegamente ao homem, cose, trabalha, é inferior. O macho
domina. O respeito aos anciãos existe, porque estes sabem das manhas dos peixes, anunciam
as tempestades, ensinam. Quanto ao amor, deve ser muito diverso do nosso...
E as festas, quem as faz?
- Para as festas concorrem todos.
Das três barcas que eu via, a primeira era para o arco-íris, a segunda para a
mãe-dágua e a terceira acompanharia as duas formando a trilogia, duas na frente e
uma atrás.
O meu amigo, lembrando mitologias diversas, quis saber a razão desse triângulo. O rapaz
respondeu apenas:
- É costume.
É costume também pagar em todas as religiões. Tanto os feiticeiros como os condutores
das barcas recebem dinheiro. Os remadores pertencentes ao arco-íris têm seis mil réis,
os da mãe-dágua três e os acompanhadores nove. À noite, já no céu negro o
crescente lunar, depois dos búzios e dos baralhos terem indicado os dias em que não se
poderá pescar, começa o sacrifício.
Forçado a ficar de longe, embrulhado num paletó em que tiritava, vi sair da casa de
Maria uma teoria de camisolas brancas com as lanternas de azeite de boto na mão,
acompanhando dois homens, um vestido de seda, outro de cetim.
O primeiro era o voga da canoa arco-íris, o segundo ia dirigir a da mãe-dágua. As
canoas foram arrastadas para o mar. Na do arco-íris iam os mais finos presentes com os
despachos, na da mãe-dágua objetos caros e femininos. Quando as canoas partiram em
direção ao Norte, levando aqueles estranhos remadores vestidos de morim branco, os que
ficaram na praia levantaram os braços, e a Maria da Silva, na turba, sorria como quem se
desobriga de uma promessa sagrada.
E ao voltarem, que há? Indaguei ao rapaz.
Voltam de costas, de frente para o mar, entram assim em casa; os remadores, menos
os do arco-íris, batem com a cabeça no chão, e a festa continua.
Mas que é o arco-íris, afinal?
- O arco-íris indica se a gente está bem com Deus. É um aviso, o sinal da união, o
único meio porque o mar se deixa ver... é a crença.
Olhei mais o oceano soluçante sob o vento álgido.
As barcas todas acesas de luzes frouxas perdiam na fosforescência lunar; os remadores
cantavam, e eu ouvia como a copla de uma barcarola nostálgica. Em frente da casa de
Maria, o cateretê delirava e sombras de adolescentes desciam à praia ágeis e
finas.
A Maria, sentada, sorrindo, era indecifrável.
E para que decifrá-la? O seu culto era o culto de todas as épocas e de todos os homens.
O mar continua a ser o grande mistério. Para os espíritos simples que temem o diabo e
guardam na alma crenças acumuladas. Só a lua com a imagem de Nossa Senhora pode explicar
a angústia do mar e só as sete cores do arco do céu podem simbolizar o vago mistério
da união do oceano e do homem.
(Barreto, Paulo (João do Rio). As religiões no Rio)
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