Junho
2002
Ano IV - nº 46 |
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Tive ocasião de assistir, faz alguns dias,
nas cercanias do Rio, ao casamento de dois negros. O senhor tornara obrigatória a
cerimônia religiosa, antes irreligiosa, penso eu. A noiva, preta como piche, estava
vestida de musselina branca e trazia um véu dessa renda grosseira que as próprias negras
fazem; o noivo vinha vestido de tecido branco. A jovem nubente parecia, e realmente
estava, penso eu, muito pouco à vontade, porque havia muitos estranhos, e a sua posição
não deixava de ser embaraçosa. O padre, um português de ar arrogante, olhar ousado,
interpelou os noivos, e, com a precipitação menos respeitosa, lhes dirigiu algumas rudes
palavras sobre os deveres do matrimônio, interrompendo-as várias vezes para censurar a
ambos, e principalmente a ela, porque não praticava os ritos com tanta rudeza e
brutalidade como ele. Mais com tom de imprecação do que de prece, ordenou-lhes que se
ajoelhassem diante do altar; depois, tendo dado a bênção, rugiu um amém, jogou
ruidosamente o livro de orações sobre o altar, apagou os círios e despediu os
recém-casados da mesma forma que teria expulsado um cão para fora da capela. A moça
saiu, sorrindo através de lágrimas, e sua mãe aproximando-se, espargiu-lhe na cabeça
uns punhados de pétalas de rosa. Assim se cumpriu esse sacramento, no qual a graça
única que me pareceu descer sobre o novel esposa foi a bênção materna.
Se essas pobres criaturas refletissem, que estranha confusão não se faria em seu
espírito! Ensinam-lhes que a união do homem e da mulher é um pecado a menos que seja
consagrada pelo santo sacramento do matrimônio. Vêm buscar esse sacramento, e ouvem um
homem duro e mau resmungar palavras que não entendem, entremeadas de tolices e grosserias
que entendem até demais. Aliás, como os seus próprios filhos, crescem crianças
escravas de pele branca que, praticamente, lhes ensinam que o homem branco não observa a
lei que impõe aos negros. Que monstruosa mentira lhes deve parecer todo esse sistema, se
alguma vez for objeto de suas meditações!... Estou bem longe de pretender que o exemplo
que acabo citar dê a medida exata do que geralmente é a instrução religiosa nas
plantações. Há, sem dúvida, bons sacerdotes que instruem e moralizam seus paroquianos
pretos; mas pelo fato de ser celebrado o ofício religioso na fazenda, e de os casamentos
se contraírem aí solenemente, não se segue que qualquer dessas práticas mereça
verdadeiramente o nome de instrução religiosa.
Seria injusto passar em silêncio aquilo que, no fato acabo de contar, forma o lado belo.
O novel esposo era liberto; sua esposa foi libertada e recebeu ainda da liberalidade do
senhor um pequeno terreno como dote...
[1865-1866]
(Agassiz, Louis. Viagem ao Brasil, 18651866. p. 95) |
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