Junho
2002
Ano IV - nº 46 |
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Houve tempo no velho Recife em que namorar
era quase um crime. A escolha dos maridos competia aos pais. E se a moça olhasse para
outro que não o escolhido o escândalo rebentava e os ânimos no meio das famílias
tomavam aspectos imprevisíveis. Havia mesmo lares em que a palavra namorar era
considerada tabu, gozava de má fama, constituía uma indecência.
Mas como o amor é eterno, as proibições e as severidades sofriam as naturais reações
do homem e da mulher. No tempo de antanho as coisas se processavam mais ou menos assim: Um
olhar mais demorado, depois um ar de riso, outro olhar agora lânguido, um furtivo aperto
de mão no bulício de algum aglomerado, um bilhetinho clandestino e pronto, estava
iniciado um namoro.
Até uns cinqüenta anos passados o grande confidente do moço enamorado no Recife foi o
lampião da esquina. Dali deitavam-se os olhares à distância, às vezes até de uma
calçada para o terceiro andar dos sobradões antigos. O moço ficava horas inteiras de
cabeça erguida, "gargarejando" como se dizia. A rua não existia para ele.
Somente a varanda ao alto e a visão de Naninha lá em cima, de tranças, blusa de
bolinhas azuis, saia preta chegando aos pés, lencinho entre os dedos pronto para ser
atirado em direção a ele.
E o Juquinha ali firme. Acabara de fazer o curso de Direito e estava praticando advocacia
com o tio-padrinho. Tinha um bom futuro pela frente, mas naquele instante era simplesmente
um namorado recifense dos primeiros anos do século XX: um molho de violetas na lapela,
jaquetão de gola de seda, colete de trespasse, plastrão vermelho, calça tabica,
colarinho duro, chapeu de coco cinzento.
Para eles nada mais havia: nem os carros que passavam; nem as pessoas que se cruzavam; nem
o menino que oferecia balas de cambará e de hortelã; nem a preta vendedora de bolos,
postada na esquina bem perto; nem os balaieros que passavam apregoando com voz melódica;
sequer o próprio acendedor de lampiões, que chegava para a faina diária.
Meses de namoro assim à distância. Uma ou outra cartinha por intermédio da comadre
Iluminata que morava perto. Raras, muito raras mesmo, às vezes que conseguiam conversar
no postigo da casa da comadre protetora do namoro. Embora correndo para ir tomar um
transporte que nunca chegava, num disfarce quando notava a aproximação de algum
estranho, esses momentos eram inesquecíveis: ele de fora, ela de dentro. Mãos que se
agarravam, rostos que se juntavam pela primeira vez, uma madeixa da moça roçando
levemente pela fronte do rapaz. As conversas, as promessas, os olhares profundos. Os
beijos eram raros, ou quase não havia. Isso só depois do noivado, e assim mesmo apenas
nas faces. Contudo ainda havia quem criticasse:
- Um "chamego", Dona Nanu. Uma pouca vergonha...
Às vezes o velho Cazuza aparecia sem ninguém esperar. Chegava brabo. Recebera uma
denúncia e saíra de casa violento. Pegara-os em flagrante. O rapaz pálido, gaguejando.
A moça chorando. O velho aos berros:
- Naninha passe pra casa... E você, cafajeste, que se afaste. Ou pensa que tenho filha
para dar a qualquer bilontra? Quanto à senhora, comadre Iluminata, deixe de ser
alcoviteira...
Mas nada impedia o namorado do Recife antigo. Havia sempre uma derivante, um escape. Ora
um encontro proporcionado em uma dança familiar, uma sessão nos cinemas Royal e Pathé,
uma ida à retreta da praça da República. Algumas vezes recorria-se também aos apelos
das serenatas altas horas da noite, com modinhas amorosas e violões plangendo pelas ruas
onde morava a moça.
Mas, algum tempo depois, "o cafajeste" tornara-se mesmo o noivo e, por fim,
marido de Naninha. Seu Cazuza andara tirando informações do rapaz e afinal concordara.
Agora era "o velho" quem dizia entre amigos:
- O Juca é um rapaz brilhante. Sou feliz em tê-lo como genro.
Mas para isso os moços sofreram muito.
Hoje os namoros são bem diferentes. Não têm mais o sabor da inocência, da proibição,
da luta pela conquista da bem-amada, como antigamente.
Hoje a coisa é fácil, aliás fácil demais...
(Guerra, Flávio, Crônicas do velho Recife, 1972, p.27-28) |
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