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Junho 2002
Ano IV - nº 46

CARRO DE BOI

As carretas e os bois não são desprovidos de interesse. As primeiras são portuguesas, espanholas, medievais e clássicas. Sua construção é a mesma das carretas feitas pelos carpinteiros gregos e romanos. O eixo é invariavelmente ligado às rodas, e conseqüentemente gira com elas. As rodas são construídas de dois e, às vezes, três pedaços de pranchas; tem geralmente cinco pés de diâmetro, quatro polegadas de espessura na periferia, e cerca de sete ou nove no centro, onde recebem a ponta quadrada e afinada do eixo, sobre o qual estão dois munhões, logo para o interior das rodas, arrendodando e alisando seis ou oito polegadas de madeira, a fim de receber duas peças forcadas, ou dois blocos de madeira dura, presos ao fundo ou ao lado inferior do corpo da carreta. Os eixos são geralmente de pau-rosa. A mais singular característica destas carretas, no entanto, é que são todas elas musicais, emitindo um incessante gemido, mais ou menos grave ou agudo, interrompido por qualquer solavanco, numa depressão do terreno. Tal guincho é causado pela fricção da peça forcado sobre os munhões. O som é modificado, porém não eliminado pela graxa, mas também não é um barulho desagradável. Nele nada se parece com o ruído de uma lima de aço, nem o rilhar de dentes, e nada há que possa causar arrepios.

Durante toda uma meia hora, quando ontem seguíamos ao trote, os sons de música muito adiante chegavam até nós, aumentando ou diminuindo conforme surgiam morros e vales, ora com zumbido de abelhas, e logo agudo como o canto de mosquitos junto ao ouvido. Quando passávamos, os tons podiam ser comparados aos de duas dezenas de harpas eólicas; suave, claro e contínuo. Por fim, passamos adiante os instrumentos e seus músicos: doze carretas carregadas de cana, a caminho do engenho. Cada uma delas tinha um tom próprio, e a mistura de todos não era desagradável. Dizem que para os animais entre os varais é tão deliciosa quanto para os condutores. Cervantes, o mais descritivo retratista da vida espanhola, mergulha Sancho num acesso de medo pelo estralejar da mesma espécie de carreta, deslocando-se no escuro. Os animais freqüentemente vistos nestas carretas, tanto na cidade como na roça, são de porte a alegrar os corações de nossos fazendeiros. Aparentados ao búfalo da Índia, não se poderia encontrar animal de aparência mais nobre.

[1846]


(Ewbank, Thomas. Vida no Brasil)

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