Junho
2002
Ano IV - nº 46 |
|
A rarefação crescente da fauna veio
tornar desvantajosa as atividades daqueles que viviam no mato. Assim, os que nele se
embrenham para caçar bichos ou abelhas o fazem agora como atividade ocasional. E no caso
das abelhas, mais das vezes para acudir uma encomenda de gente da rua [1], usar o
mel como meizinha [2] de alguma tosse-braba ou tirar a abelha achada quando estavam
noutro serviço qualquer.
Encontrada a morada da abelha, tratam de cortar o pau em que está situada mesmo em
se tratando de uma essência de maior valor ou que, de futuro, venha a dar obra [3]. Lá um
ou outro mais previdente é que se limita a fazer um corte por onde extrair o mel para
depois tapá-lo com barro, cortar as duas extremidades da tora e, à noitinha, levá-la
para as proximidades da casa e pendurá-la no beiral das telhas. Porque o comum é abrir o
ninho, fartarem-se do mel e abandoná-lo à voracidade dos seus inimigos naturais
(formigas, pássaro, lagartixas, etc.). Daí, é de se imaginar, um dos maiores fatores de
decréscimo da fauna apícola regional.
Quando se trata de uma abelha mais agressiva como a tubiba ou de um
vespídeo, costumam defumá-la, antes, com estrume de gado.
Vale anotar, como curiosidade, o fato de que fomos testemunhas, mais de uma vez, quando em
suas atividades agrícolas, esbarravam com uma "casa"de boca-torta [4]. Mesmo
sem se protegerem, algumas vezes até nus da cintura para cima, limitavam-se a passar as
mãos nos sovacos suados e, devagarinho aproximá-las das "casas", até
esmagá-las, esfregando uma na outra, sem sofrer uma única ferroada...
Poucas abusões conhecemos ligadas aos caçadores de abelhas. Uma mais estranha e que
parece comum a todo sertão nordestino, é a de que o mel da abelha limão, tirado no
mato, tem de ser comido em silêncio. Se um dos tiradores, acabada a refeição diz para
outro: - "Vamímbora", fica completamente bêbado, lançando, lançando [5], areado [6]. De
alguns sertanejos ouvimos essa afirmativa como verdadeira, embora nunca tivessemos
oportunidade de testemunhá-la. A literatura regional registra o fato nos sertões
cearenses:
"Na serra da Barriga, também em Sobral, o mel de certa abelha, colhido em certa
época do ano, produz a embriaguez, principalmente nos tempos de seca.
Uma coisa singular: o embriagado, por esse mel, no delírio da embriaguez, dá para berrar
como bode, como querendo dizer que foi o mel que o embriagou" (Sobreira, J. G. Dias. Curiosidades
e fatos notáveis do Ceará).
Os "beiradeiros" do Sergipe e das Alagoas também, por lá, dizem o mesmo: [7]
"... a abelha limão é também conhecida por "come e não vamo". Se se
comer e convidar a pessoa para ir embora, ela fica bêbada, por isso coma e saia quieto,
não fale nada, adiantou-nos Anísio Jacaré" (Araújo, Alceu Maynard. Populações
ribeirinhas do baixo São Francisco).
Alguns sertanejos mais sagazes, de tanto caçarem abelhas para atender as encomendas de
suas freguesias, e face à crescente rarefação delas, aprenderam a rastejá-las. Raros
os que são capazes desse feito, de vez que para isso carece de muita paciência e
astúcia...
Assim nos meses de seca, procuram as perdidas bebidas existentes cacimbas,
barreiros [8] etc. e lá se acocoram atocaiando as abelhas que ali vão
beber, algumas podem vir em maior quantidade e freqüência. Espiam. Escolhem as que tomam
mais altura no vôo de volta e dizem que elas assim fazem porque têm morada mais perto.
Quando o cortiço está mais longe justificam as abelhas vão ganhando
altura mais devagar, vencendo pouco a pouco o vento e a distância.
Faz de conta que seja uma jandaíra... Espiam uma a uma as que vêm e o rumo que tomam de
volta. Sentem a direção do vento. Atentam para a altura de vôo. Andam mais algumas
braças naquele mesmo rumo e, de novo, botam sentido na passagem delas. Vêem passar a
primeira, a segunda, a terceira... está confirmada a direção. Adiantam-se outras tantas
braças e recomeçam o balizamento... E de lance em lance, vão bater no pau em que está
situada a jandaíra. Nele boto o ouvido, auscultando-o com pequenas batidas e chegam a
"diagnosticar" se é de morada velha, se está gorda ou magra. As pobres de mel
são chamadas magras, tanto assim que o enxu [9], em certa época do ano que tem
pouco mel e abundante ninhada de larvas, serve de comparação aos indivíduos de família
numerosa: "Fulano tem fio que só enxu magro"...
A diligência é naturalmente facilitada ou dificultada pela maior ou menor
identificação do homem com o seu mundo a flora melífera, sua distribuição nas
redondezas, épocas de floração, pontos de bebidas, hábitos das diferentes espécies
etc.
Os mais curiosos conhecem tim-tim por tim-tim o mundo que os cerca. Sabem de cor as
madeiras que se apresentam mais freqüentemente ocadas a imburana, a catingueira e
o cumaru morada das nossas abelhas silvestres. E a literatura oral comprova essa
preferência:
Xique-xique é pau de espinha,
Imburana é pau de abelha;
Gravata de boi é canga,
Paletó de negro é peia...
Nada distingüe a indumentária do caçador de abelhas do sertanejo comum. Apenas, em
trabalho, nunca se aparta do seu instrumento de corte e destruição a foice
e da clássica cabaça-de-colo [10] (ou de pescoço) alçada em embiras, em que recolhe o mel de sua
rapina.
Bibliografia
Araújo, Alceu Maynard. Populações ribeirinhas do baixo São Francisco. Rio de
Janeiro, Serviço de Informações Agrícolas, 1961, 125 p.
Sobreira, J. G. Dias. Curiosidades e fatos notáveis do Ceará. Rio de Janeiro,
Tip. Desembargador Lima Drummond, 1921. 130 p.
(Em: Revista Brasileira de Geografia, ano 26, nº 3)
Notas:
[1]. Rua o sertanejo assim designa o povoado, a vila
ou a cidade mais próxima donde reside.
[2]. Meizinha remédio caseiro da medicina popular.
[3]. Dar obra dizem para significar que uma
matéria-prima pode ser aproveitada na manufatura de alguma utilidade
[4]. boca-torta vespídeo social (Polybia
occindetalis OLIV.).
[5]. Lançar vomitar.
[6]. Areado perdido, desnorteado.
[7]. Em carta de 7 de março de 1963, o doutor Paulo Nogueira
nos informava: "Infelizmente as pesquisas que estou realizando, juntamente com o
biologista Renato Jaccoud, sobre o mel tóxico, ainda não chegaram a sua conclusão.
Penso que os casos graves de intoxicação sejam devidos ao néctar de uma planta, que
ainda não conseguimos localizar. Mas não estamos longe disso. Quanto aos casos de
simples tontura (embriaguez) parece difícil descobrir a causa. Possivelmente também seja
alguma planta a responsável ou, em alguns casos, uma tendência diabética. Certo tipo de
intoxicação, com diarréia, etc., está sendo estudado farmacologicamente pelo doutor
Domingos Valente. Ele escreveu um artigo (não publicado ainda) a esse respeito, sobre
experiências com material que lhe fornecemos".
[8]. Barreiro pequena barragem; em ordem crescente de
grandeza visual há o ambó, o barreiro, o açudeco e o açude.
[9]. Enxu vespa social que nidifica nos ramos das
árvores.
[10]. Cabaça-de-colo (ou de pescoço) Cucurbita
lagenaria LINN. Da família das cucurbitáceas.
(Faria, Osvaldo Lamartine de. Em Tipos e aspectos do Brasil. p.244-247) |
|