Junho
2002
Ano IV - nº 46 |
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Das indústrias humanas é a cesteira uma
das mais antigas. Técnica primitiva de trabalho que não requer senão instrumental
simples, de fácil locomoção e arranjo, encontrou larga área de difusão,
caracterizando-se como indústria doméstica. Atualmente, a cestaria abandonou o âmbito
artesão, mas pode ainda ser encontrada com alguns aspectos de sua primitiva simplicidade,
em certas comunidades rurais, onde está ligada às várias atividades agrícolas. Assim,
entre os tipos humanos que vivem nas colônias situadas nos arredores da capital
paranaense, não é raro encontrar-se o cesteiro.
Um dos materiais utilizados, com maior frequência, no trabalho do cesteiro é o vime do
gênero salix.
O vime foi introduzido nesta zona como elemento complementar à cultura da vinha, pois é
costume usá-lo para amarrar videiras, e quase não há colono que não tenha dois ou
três vimeiros na sua propriedade. Tendo o vime encontrado habitat favorável ao
seu desenvolvimento, a sua presença em abundância fez surgir uma cestaria incipiente,
que foi aos poucos se ampliando, assumindo, em alguns casos, caráter de verdadeira
indústria. Contudo, são muitos os que ainda a conservam em seu aspecto de artesanato
rural, sendo comum encontrar-se nas ruas de Curitiba, entre as inúmeras carrocinhas que
vêm à cidade vender os frutos e produtos das colônias, aquelas que trazem peças de
cestaria.
Diferentes tarefas exigem do cesteiro intensa atividade. Por três meses ele se ocupa da
colheita e preparo do vime, material do seu trabalho.
A colheita do vime pode ser realizada em duas épocas do ano: no verão, de janeiro a
março, e no inverno, de julho a setembro. O vime da colheita de verão é o chamado vime
de seis meses ou vime branco, que é empregado na cestaria fina e de móveis, e não
necessita cozimento para ser descascado, o que sem dúvida torna mais cômodo o trabalho.
O vime da colheita de inverno é o chamado vime de um ano ou vime cozido e se destina à
cestaria grosseira. Ele é cortado anualmente quando está maduro, despido de folhas e se
apresenta com uma coloração vermelha intensa; necessita ser cozido, a fim de que sua
casca possa ser retirada com facilidade. O cozimento do vime é realizado em um grande
forno-tacho de forma retangular, com três metros de comprimento, situado à beira de
águas correntes. Uma tachada leva em média 30 feixes de vime, ou seja mais ou menos 18
arrobas. É possível fazer-se cinco tachadas diárias, uma vez que se gasta com o
carregamento do tacho, espera do cozimento e o descarregamento, cerca de duas horas e
meia, perfazendo, no final do dia, um total de doze horas e meia de trabalho pesado e
intenso para o cesteiro, que deve dirigir-se ao local do cozimento nas madrugadas frias do
inverno paranaense.
Cada tachada levando 18 arrobas de vime, ao findar do dia, o rendimento do cesteiro
deveria ser de noventa arrobas, mas com a limpeza, cozimento e descasque o vime quebra ao
terço, fornecendo apenas 30 arrobas de vime limpo. Vencidas estas etapas da colheita e
preparo do vime, nas quais se ocupa toda a família do cesteiro, ele retorna à sua
ocupação específica o trançado do vime.
O trançado do vime é ocupação tanto de homens e mulheres quanto de crianças, mas
também nesta, como em outras atividades, se afirma o princípio da divisão do trabalho:
os mais pesados são feitos pelos homens, enquanto os mais leves e fáceis são confiados
às mulheres e às crianças.
O cesteiro, mesmo na execução de cestos grosseiros, que parecem não requerer atenções
à técnica e conhecimentos especiais, deve obedecer a certas normas de trançado, sem as
quais não poderá realizar trabalho perfeito. Estas normas são seguidas com fidelidade
tanto pelo aprendizado que efetuou junto aos antigos quanto pela intuição profunda que o
orienta na execução harmoniosa do trançado.
Além de produzir objetos domésticos e agrícolas, isto é, cestos e balaios para as
diversas colheitas, medição de cereais, rações de animais, para o transporte de
legumes, frutos e aves, o cesteiro faz também numerosas outras peças tais como
roupeiros, berços, cestinho de fantasia para flores e presentes, móveis e outras.
O cesteiro é um elemento que tem vida econômica próspera dentro da comunidade em que
vive, pois se não ganha mais que o comum, pelo menos corre um risco menor do que aqueles
que se dedicam à agricultura.
Também socialmente, pela técnica do seu artesanato, goza o cesteiro, entre os seus
concidadãos, de posição destacada que lhe dá o seu trabalho independente, no qual,
além do sustento próprio e da família, encontra motivos de inspiração e beleza.
(Em Revista Brasileira de Geografia, ano 27, nº 1)
(Balhana, Altiva Pilatti. Em Tipos e aspectos do Brasil, p.419-420) |
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