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Junho 2002
Ano IV - nº 46

O "MÃO PELADA"

Ilustração de Marcos Jardim

Era tempo de São João com suas noitadas frias.

Dentro de uma cabana baixa, acocorados no chão como caitetus em furna, quedavamse junto à trempe de fogo os dois negros velhos. A fumaça tornava o ambiente irrespirável para outros que não tais malungos. De olhos fitos nas brasas incandescentes, como se delas partisse a evocação das reminiscências que os tinham, a ambos, absortos, meditativos — parecia estarem em dialogo mudo. Cortava-lhes o silêncio apenas alguma frase breve, escapada a longos intervalos.

A porta da cabana não dava entrada a um homem, de pé. Quem quisesse penetrar ali, tinha de curvar-se todo e meter primeiro a cabeça curiosa, como por surpreender no ninho algum animal bravio.

Pela portinha sempre aberta, entravam baforadas de ar frio que, enovelando o fumo, formavam, por vezes, um repuxo de centelhas.

Nesses momentos, a cara comprida do companheiro de Quindanda enfunava-se num ameaço de riso, logo abortado; e, exprimindo a meio a imagem que a irrupção das centelhas despertava, João Congo dizia alto:

— Meninada saindo da escola!

Quindanda não respondia; mas, daí a pouco, como se quisesse reatar o assunto que o preocupava no momento, falava ao malungo, em língua da Costa.

Do seu país eram ali os dois únicos; pertenceram à mesma tribo e foram governados pelo mesmo soba. Quindanda alegava, nas conversas com os brancos, o seu sangue real e convictamente se considerava príncipe. Lamentava, com sincera saudade, o seu serralho de odaliscas de ébano.

Fora, no seio da noite, os vagalumes erravam, tangidos no espaço pelo toque dos grilos.

As vacas, separadas das crias, remoíam deitadas, com os grandes olhos mansos fitos na treva; outras mugiam de espaço a espaço; e outras, mais conformadas com a separação, saíam vagarosamente pela porteira grande, abocanhando, daqui e dacolá, moitazinhas de catingueiro tenro e frio.

Era um vasto terreiro de fazenda, com suas manchas brancas de gado em repouso e suas manchas escuras de chorões e gameleiras.

A cabana de Quindanda no correr das antigas senzalas, defrontava com um largo terrapleno a cavaleiro do pátio. Ali se destacava, ao tímido luzir das estrelas, nessa noite sem luar, a alvura de uma capela. Na muralha do terrapleno cresciam cactus, cujas sombras esguias assustavam ao longe o viandante desprevenido.

Afora os dois negros junto do fogo, nenhum outro signal de gente por ali.

— Tá cochilano, pai Zuão?

— Tá pensano no vida, Quindanda.

E mergulharam de novo na meditação e no silêncio.

Quindanda aconchegou ao corpo o jaleco de baetão e a carapuça vermelha, enquanto João Congo, rindo sem saber de que, mostrava ao companheiro, brilhantes à luz do fogo duas filas de dentes alvos.

— Quedê a batata pra comê, Quindanda?

— Não tem, não. Tem só mandioca puba, pra comê co melado. Oia a cabaça ali dupundurada.

— Ocê não quis falá do guampo de ristilo, Quindanda? Ah! nego veiaco!

Comendo e bebendo, desatou-se-lhes a língua.

Foi então que João Congo pegou a contar casos do tempo do senhor velho, do pai do senhor velho de então, que já tinha idade avantajada.

Interromperam-se de repente, olhando um para o outro.

João Congo levantou o indicador para o ar, enquanto Quindanda, percebendo claro a recordação terrível que lhes salteava o espírito, simultaneamente, sopeando-lhes a voz por instantes, resmungava:

— Iô tá lemblado também do que ocê tá pensano. Cruz, Ave-Malia! Nossinhô do céu me livre do "Mão Pelada"!

— Iô te esconjuro, "Mão Pelada"! — exclamou João Congo. E levantou-se para espiar, pela porta baixa, a solidão da noite.

De lá de fora, como se à memória lhe acudisse algum episódio, tornou:

— Foi lá mêmo, na bocaina embaixo da pedreira grande!

Entrou e acocorou-se.

Quindanda, pequeno, magrinho, de rosto chupado, a pele adusta e furfurácea, encarquilhada como a de um jenipapo maduro, parecia mais velho que o companheiro. Congo, alto e esguio, de rosto comprido terminando por um molho de barba áspera no mento, tinha nos olhos vermelhos e na fisionomia cauta um quê de lobo arteiro e experimentado.

Pouco a pouco, às golfadas, começou a desabafar-se, recontando, hora em língua da Costa, ora na sua meia-língua portuguesa, a história terrível.

Quindanda, metido no borralho, como um gato velho, lampejava os olhinhos fundos e cintilantes no meio da cabana enfumaçada.

Quantos anos se passaram, não poderiam dizê-lo: era no tempo do senhor velho, pai do senhor velho de hoje.

Diante do portão grande da fazenda passava o caminho das tropas, a estrada real para Vila Rica. Defronte, havia um rancho espaçoso, coberto de telhas. Muita gente assistia por ali, por causa da capela do Pilar e por ser "a borda do campo", nome que ficou sempre na fazenda. Como era alegre o lugar, para um negrinho esperto como João Congo!

Tropas a passarem com as madrinhas garbosas, de cabeça de prata e uma boneca vermelha no topete, sincerros tinindo, tinindo, e, pelo vargedo a fora, nas manhãs claras, as cantigas dos tropeiros...

— Deus dê saúde a quem sofre muita saudade! — dizia às vezes o sinhô velho quando, pelos tempos adiante, parava no portão grande e via o rancho deserto, a estrada esquecida e os grandes chorões do pátio a debruçarem cada vez mais para o chão a fronde emaranhada, chorando, chorando sem cessar aqueles que a terra guarda!

Um dia — já por volta do meio-dia — entrou na fazenda um moço de fora, por sinal que vinha montado numa mula crioula calçada dos quatro pés. Esteve muito tempo com o senhor velho, o coronel José Aires. O que eles conversaram não era da conta de negro nenhum quanto mais de um molecote como era então o Congo. Mas, para alguma cousa servem os moleques; tanto assim que, sobre a tardinha, o coronel chamou o João Congo e perguntou-lhe se, no tempo de dois rosários e tres coroas, seria capaz de ir levar uma carta ao padre Rodrigues, no Registo, daí a légua e cousa.

Congo era bem mandado e ladino. Como pretendia ser pajem do coronel, aproveitou a ocasião para mostrar suas aptidões e respondeu logo:

— Meu senhor mandando eu vô só no tempo dos dois rosários.

— Pois toma essa carta e leva ao padre. Acompanha-o aqui; ele virá hoje mesmo. O tempo está bom e ele conhece bem o caminho. Na hora da canjica, à noite, eu quero ver o padre aqui. Se ele não vier, virás tu logo, moleque. Vai andando já!

Congo não deu mais prazo à conversa e ganhou logo a estrada, que descia para uma chan inculta, onde medrava o assa-peixe e os porcos soltos refocilavam, a grunhir.

Com pouca dúvida, deixava à mão esquerda a ponte sobre o riacho, lá no fim da várzea alagadiça. Aprumou logo o morro, fugindo do rio. E foi quando ia fraldejando um capãozinho crescido no lançante, que seus olhos viram, viram deveras, e nunca mais esqueceram — o "mão pelada".

Ia com a mente muito longe dali, a matutar lá na Costa distante, quando topou o bicho do diabo, ou que nome tenha.

Para dizer que era suçuarana, não era; lobo, também não; cachorro não podia ser. Talvez fosse o demônio encarnado.

De dentro do capão, o animal, ou o que quer que fosse, pulou na estrada, correu os olhos pela redondeza, deu com o negro e foi seguindo estrada a fora, sem se importar com o encontro.

O moleque vinha a pó, com uma foicinha ao ombro.

A princípio hesitou em proseguir a marcha, e recuou assustado ; mas, voltando logo a si desse primeiro movimento, talvez porque visse o animal dar-lhe as costas indiferentemente e seguir adiante, apressou também o passo para a frente.

Pôde então reparar na fera estranha, que tão pouco caso fazia da gente: tinha o pêlo fulvo como o de uma onça vermelha, a cauda comprida e movediça, o fio do lombo preto e lustroso.

No mais, era um lobo de maior corpulência, querendo emparelhar na altura com um bezerro novo. A cara era mais para o redondo do que para o comprido.

O que causava espécie ao negro é que o bicho não trotava, nem corria, como o lobo, mas galopava a três pés, deixando ver uma das patas dianteiras encolhida e pelada.

Ou fosse obra de algum mandingueiro de dois pés, ou fosse mandinga do próprio bicho, de vez em quando, voltava a cara para o negro, a ver se o acompanhava.

Não é dizer que fosse medo de cousa de outro mundo, pois o sol estava lambendo ainda o cocoruto do arvoredo do capão, antes de sumir-se; a tarde estava clara e serena, sobretudo em campo aberto — mas, o moleque sentiu certa fascinação pelos olhos da fera.

Que diabo de coisa haveria neles?

Mostravam uma luz a modo de fogo azulado e parecia que, ameaçando e rindo, chamavam a gente para algum mistério terrível.

O Congo não parou mais, varando capões, descendo bocainas, galgando morros, na batida do "mão-pelada".

O dia não dura sempre: tinha de acabar logo numa noite sem luar. O tempo dos dois rosários já se fora havia muito, sem que João pudesse entrar à porteira do Registro. Entretanto, pareceu ao molecote que estava num atalho, pois, deixando a estrada real, seguia um trilho que coleava pelo mato, morro abaixo, em direção ao fundo de uma garganta onde se precipitava uma torrente, sob uma velha ponte de paus roliços.

Aí já estava bastante escuro, porque o mato era muito alto. Da banda de lá da torrente o morro empinava-se, para sair adiante, num descampado, obra de um tiro de reúna.

O trilho abeirava um barranco alto, onde havia muitas furnas.

Naquelas alturas, parecia que do pêlo do bicho faiscava o mesmo fogo azulado que lhe chamejava nos olhos. Estes viravam-se ainda para o João Congo, de espaço a espaço; agora, as chispas que despediam eram de assustar.

Só, no meio do mato, já noite, tendo diante dos olhos a escuridão e no meio dela aquele bicho infernal a deitar fogo pelos olhos e cabelos, Congo reuniu todas as forças para romper o terror e fugir à fascinação. Era preciso passar adiante.

Até então não tinha gritado; mas aí, no fundo do valle, rugiu com força e chamou por nomes de santos.

A voz lhe ribombava no desfiladeiro escurecido duplamente pelo mato virgem e pela noite sem luar.

Ao mesmo tempo, das profundezas do desfiladeiro onde gemia a torrente, começaram a subir uns sons de voz como que estrangulada e uns silvos longos, fortes e agudos, de rebate para os misteriosos habitadores daquelas brenhas.

Ao aproximar-se da ponte velha sobre a corrente, João Congo viu que o "mão-pelada" lançou-lhe um derradeiro e mais demorado olhar; depois, vomitando fogo pelos cabelos, pela ponta da cauda, pelos olhos e pela bocca, deu um miado fortíssimo e saltou no fundo.

O preto estacou na entrada da ponte, ouvindo ainda afastar-se o miado da onça no cio.

Parecia que a madeira ia fugir-lhe debaixo dos pés e precipitá-lo na torrente, ao fundo.

A ponte não tinha guarda-mão — e quem sabe os buracos que poderia a escuridão esconder?

Entrementes, reanimou-se de novo e, tateando, avançando devagarinho, atravessou a ponte e ganhou a barranca oposta.

Lá em cima viu de novo atravessar-lhe à frente o dorso curvo e faiscante do "mão-pelada".

Então, começou a ouvir, da orla da mata, uns gemidos humanos, tênues como se foram de criança.

Os olhos da fera não se voltavam mais para ele, como ainda há pouco, mas seu corpo flexuoso cobreava - diante do negro, em faiscações de luz azulada. Diante de uma furna, junto de cuja bcca passava o caminho, Congo viu a fera desaparecer.

Sentiu então que ia ser acomettido logo.

Decerto eram aquelas furnas a morada daquele demônio de bicho.

Quantos companheiros teria ali dentro o "mão pellada"? Se ele sumiu-se por instantes foi para ir dar o alarma aos outros, lá no fundo da caverna.

Ao mesmo tempo que semelhante reflexão passava rapidamente pelo espírito de João Congo, pôde ele reconhecer que defronte das furnas o trilho se angustiava numa tira apenas de chão, pois o terreno rasgava-se ali mesmo num precipício, coberto de vegetação; no fundo corria um lacrimal, que, logo acima da ponte velha, desaguava na torrente.

Não havia dúvida: o "mão pellada" cercou-o bem cercado. Ali, com um simples empurrão, Congo iria ao fundo do precipício.

Era preciso recuar, se não quisesse morrer estupidamente, sem meio de defesa.

Quando chegava a essa conclusão, viu assomar na porta da primeira furna a cara do "mão pelada", ou antes, os dois olhos que relampeavam na escuridão. A coisa estava feia mesmo!

Nesse lugar, o único jeito que tinha — pensava o João Congo — era apegar-se com São Benedico e com o gavião da foice.

Morrer por morrer, a gente tem de morrer mesmo, mais hoje, mais amanhã.

O moleque não teve tempo de encomendar sua alma, porque o "mão pelada" cresceu logo para cima dele, com as duas enormes patas para o ar, as unhas aduncas desembainhadas, a face escura arreganhada, de onde rompiam rugidos ferozes. Parecia que o fim de João Congo seria o de ser ali mesmo esmigalhado como um pinto sob a pata de um cavalo.

Parecia, mas não foi; e não foi só porque Deus não quis. Contando não se acredita, mas as cousas se passaram deveras. Tudo foi num abrir e fechar de olhos: o "mão pelada", marcou o pulo; João Congo encolheu-se como um nhambuzinho velhaco; o "mão pelada" pulou por cima dele; João Congo caiu para trás. Mas, ou fosse grande demais o bote do bicho, ou o moleque fizesse por mergulhar por baixo dele — o certo é que a fera foi direito em cima do precipício, ao mesmo tempo que o moleque, despencando da beira do barranco, caía por ele abaixo e agarrava-se, aqui, acolá, em moitas de capim e raízes de árvores.

De repente parou: pareceu-lhe estar no fundo do precipício, sem queda, sem choque nem dor. Seria possível. Quem sabe se estaria vivo ou morto? Aquilo era a morte sem dúvida. Ela não podia ser mais feia do que o que viam os olhinhos do negro, arregalados e brilhantes: embaixo dele, por cima dele, de um e outro lado, reinava a mais atra escuridade; nem mesmo o pestanejar medroso de uma estrela solitária e longínqua.Era breu só; breu por toda a parte.

Ainda se fosse a escuridão, só poderia ser a morte, como pensava Congo.

Mas, o pior é que, não tardou muito, do meio da escuridão, começou, pouco a pouco, a subir um rosnado ameaçador; e foi crescendo, crescendo, e, pouco a pouco, o precipício, o desfiladeiro, o lacrimal e a torrente foram atroados por uivos, miados e roncos tremendos.

João Congo, resignado e convicto, passou rápido exame de consciência, inquirindo o por que fora arrojado daquele modo ao inferno.

E achou que este era ainda mais feio do que o outro, pintado pelo padre no último sermão, em dia de Natal. Ao menos no outro há companhia, embora de almas perdidas e de demônios, enquanto nesse, por toda a parte se estendem a solidão e a treva.

Debalde João Congo, devagarinho, cautelosamente, estendia uma perna, esticava o braço, procurando tatear em torno de si: encontrava, apenas o vácuo. Com efeito, seu corpo, preso numa laçada de cipó, balouçava brandamente no espaço.

Quando verificou que estava suspenso sobre o. precipício a meio caminho do fundo, encolheu-se todo e esbugalhou os olhos, como se quisera apalpar o terreno embaixo e sondar a altura da queda provável.

Então, com grande horror, viu acesos de novo, no fundo do precipício, a quererem atraí-lo e devorá-lo, os olhos sinistros do "mão pelada." Congo fechou os olhos, e de espaço a espaço, dava um gemido cavo de agonizante.

Parece que perdeu a consciência, porque era dia claro quando Quindanda, mandado com outros pelo senhor velho em busca do moleque, foi descobri-lo dependurado de um galho de pau d‘óleo crescido à beira do precipício e enredado numa rodilha de cipó, suspenso no espaço.

João Congo não tinha ferimento algum; mas seus olhos desmesuradamente abertos e suas feições destendidas pareciam aparvalhados.

Por muito tempo, depois de içado à beira do barranco, à força de braços, conservou-se mudo. Quindanda deu-lhe alguns tapas nas costas e o sacudiu violentamente perguntando-lhe, aos gritos, se ficara mudo e pateta. Nada, nenhuma resposta!

Afinal, dando um grande suspiro de alívio, como se desengasgasse naquele instante, João Congo urrou:

— Oia! Oia! o "mão pelada!"


(Arinos, Afonso. Histórias e paisagens, p.63-78)

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