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Junho 2002
Ano IV - nº 46

FESTAS DOS ARCOS

Eram três os arcos existentes no velho Recife.

O do Bom Jesus, o de Santo Antônio e o da Conceição.

Os moços nunca os viram; os velhos não mais os verão.

O primeiro foi demolido em 1850. Não o conheceu, é claro, o cronista. Mas sabe-se que ficava no fim da atual rua do Bom Jesus, e constituía a porta norte da cidade. Era de maiores proporções que o da Conceição. Servira mesmo de matriz da freguesia em época recuada. No andar térreo permanecia um destacamento militar e perto existia um forte que quando salvava produzia um quebramento geral de louças nas casas vizinhas. Daí o nome de Quebra-Pratos dado a esse forte. O Arco do Bom Jesus vinha dos tempos da ocupação holandesa.

Por exigências urbanísticas foi botado abaixo no ano de 1850. As imagens que o habitavam foram transferidas em solene procissão para a igreja da Madre de Deus onde ainda se encontram.

Os arcos de Santo Antônio e da Conceição duraram até 1917 quando para a remodelação da cidade tiveram de ser destruídos.

Neles se efetuavam festas em honra dos respectivos patronos celestes.

Não se vestiam de excessivo realce, é certo, porém, tinham muito de pitoresco e de típico. As do Arco de Santo Antônio, por mais modestas, nem exigiam o fechamento do comércio, antes da hora costumada.

O Arco de Santo Antônio barrava a rua Primeiro de Março, ao subir da ponte. De um lado a Livraria do Ramiro, do outro, O Barateiro. Perto, a Viúva Guilherme, A Graciosa, a Loja de Chapéus, do Zé de Melo, a Livraria Francesa, expondo nas vitrinas do oitão os novos livros de sortes para São João.

Todo aquele trecho final de rua cerrava-se ao trânsito dos bondes e das carroças. Transformava-se num campo festivo. Armava-se um coreto de tabuazinhas azuis e vermelhas com grandes focos de acetilene nos ângulos. Espichavam-se uns cordões com bandeirinhas. Folhagens nos lampiões e no arco. O Santo Antônio, lá em cima, no nicho, entre velas e flores.

Durante três noites rezavam o tríduo.

Concorrência pouco numerosa.

A festa não merecia as honras de chiquismo. Festa religiosa de segunda ordem.

No dia 13, porém o aspecto melhorava. Meio santificado. Os "Antônios" feriavam a data. Havia mais solenidade. Honrava-se, ao menos, a patente do santo.

Cedo ainda, as negras de bolos estendiam os tabuleiros rentezinhos às calçadas; vendedores de geladas; meninos de midobins... De fora de Portas chegava pelas pontes do Recife e Buarque de Macedo gente e mais gente. Mulheres puxando crianças, homens de roupas de brim novas em folha, velhas de olhos já pouco afeitos ao movimento das ruas e com vestidos dignos de figurar numa exposição restrospectiva de modas.

Os fracos lampiões a gás faziam o que lhe era possível para emprestar claridade ao local. Todavia, as lojas ainda abertas davam uns sobejos de sua iluminação para melhor realce festivo. Passavam as últimas carroças de açúcar, muito meladas, compridonas, baixinhas, arastadas pelos bois fatigados e babosos. Os bondes da Carril já tinham cortado o tráfego por baixo dos arcos e contornavam agora a rua do Imperador. Ao pé da ponte num quiosque que ramalhuda gameleira protegia, homens do povo e barcaceiros viravam uma "bicada", loquazes e expansivos.

De repente o toque da música alvoroçava tudo. As portas das lojas povoavam-se, as varandas enchiam-se. E a banda do 14 ou do 27 apontava na estreita rua do Cabugá, em forma, de túnicas azuis e calças vermelhas, no entusiasmo de um dobrado. Por sinal o Conspiração que estava na moda e era mesmo vibrante.

À frente da banda um grupo de capoeiras, de cacetes em punho e as facas de ponta aparecendo nos cós, gingavam, piruetavam, ameaçavam... Todos instintivamente encolhiam-se ao vê-los passar nessas atitudes agressivas. Porque não seria rara a vez em que após uma passagem daquelas aparecesse um cristão se estorcendo no chão com a barriga aberta por uma navalhada. Os capoeiras continuavam a ser o terror das saídas de batalhões e músicas e ninguém podia acabar com eles. Eram, na maioria, valentões conhecidos na terra e capangas de figurões ainda mais conhecidos.

Dali a pouco, nos coretos, tocava-se a valsa Louca o pas-de-quatre Nair, a Uma flor no peito do Tim-Tim...

Depois os cânticos religiosos que se espalhavam pela rua inteira e iam comover até os tripulantes das barcaças encostadas no Cais do Abacaxi. Foguetes isolados, balões, girândolas. Devotos rezando, curiosos espiando, namorados conversando. Principalmente para o amor servia de toldo protetor a festa do arco. Não fora Santo Antônio alcoviteiro das moças... E também os amores pecaminosos se aproveitavam da cerimônia religiosa. Raparigas de vida torta, sem chapéus, com longas capas de veludo, com as criadas atrás à guisa de ordenanças, passavam abaixo e acima, provocando olhares dos homens e muxoxos das beatas.

Cerca de 10 horas tudo terminado. Aquela festa não ia até de madrugada como as outras, as de fama, as dos novenários que buliam com a cidade inteira: Santa Cruz, Penha, Santo Amaro, Cajueiro, Poço da Panela, Nossa Senhora do Carmo...

A música voltava ao quartel, tocando, de capoeiras à frente. O povo dispersava-se. As luzes extinguiam-se. As varandas cerravam-se. E os bondes recomeçavam a passar por baixo do arco.

Mais pomposa, muito mais mesmo, era a festa do Arco da Conceição, do outro lado da ponte, no começo da rua da Cadeia. O arco era maior. Em baixo tinha duas lojazinhas: uma em que o Carvalho vendia estampilhas federais e cigarros. Outra, oferecendo bilhetes de loterias. O comércio em grosso do bairro do Recife, auxiliava os festejos que mereciam toda a simpatia e prestígio do vigário do Corpo Santo, o cônego João Augusto. Havia novenário concorrido. Armavam-se coretos, um defronte da firma Camorim, outro perto da Drogaria Conceição. E no dia da Conceição quem vinha tocar ali era a Charanga do Recife, banda querida e apreciadíssima, sempre aplaudida nas suas difíceis "peças de harmonia".

Dia santificado, dia grande, não faltava gente para aumentar o número já crescido de fiéis residentes no próprio bairro. Acorriam famílias dos arrabaldes. Misturavam-se tipos de todas as classes. Desde o açucareiro da Passagem da Madalena ao catraieiro da Lingueta. Desde a viúva rica moradora no Caldeireiro à mocinha pobre do Pátio do Terço. Do chefe de seção do Correio ao aguadeiro do beco das Sete Casas. Da francesa da Pensão Siqueira à "mulher-dama" da rua da Senzala Velha.

Festão.

O arco recebia o engalanamento das rosas de pano feitas por umas solteironas da rua do Bom Jesus; de folhagens de palmeiras trazidas por um devoto barcaceiro; de folhas de canelas mandadas por um comerciante da rua da Cadeia; de cravos como oferenda de uma moça de Caxangá.

Lá em cima ficava a capelinha com janelas envidraçadas para a rua. A imagem de Nossa Senhora da Conceição no altar. Rezava-se missa pela manhã e à noite cantavam a novena seguida de ladainha.

Na esquina fincavam o mastro da bandeira.

Mais tarde fogos de vista. Morteiros, rodinhas, calungas e painel.

Tudo corria bem e em paz.

Quando muito os soldados da polícia corrigiam a preta Papoula que se excedia no vocabulário...


(Sette, Mário. Maxambombas e maracatus, p.164-169)

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