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Junho 2002
Ano IV - nº 46

OS PÁSSAROS DE BELÉM

Em 1954, quatro pássaros chegaram aos palcos populares de Belém — o Tentém, o Coati, o Rouxinol e o Periquito. O concurso patrocinado pela Prefeitura deu o primeiro lugar ao Tentém, o segundo ao Coati. O Rouxinol, três vezes campeão de Belém, não concorreu.

Embora se chamem pássaros, estes grupos de teatro dramático-burlesco popular — como se vê pelo exemplo do Coati, um dos mais queridos, — nem sempre recrutam os seus patronos entre as aves. Há noticia de pássaros como o Pirarucu Encantado, o Caititu, o Guariba, o Javali... No interior do Pará, estes grupos são chamados, com mais propriedade, bichos, uma designação que eventualmente ocorre em Belém.

Os pássaros fazem o seu aparecimento em Belém na véspera do São João e exibem-se em cinemas, teatrinhos, circos ou nos parques cedidos pela prefeitura, nos diversos bairros da cidade, para os espetáculos do boi-bumbá.

Assisti às últimas apresentações dos pássaros — o Tentérn no cinema Guanabara em Icoraci, o Coati no circo-teatro Íris em Humaitá e o Rouxinol no curral do boi Onze Bandeirinhas, tricampeão da cidade, no bairro do Guamá.

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O pássaro constitui um espetáculo muito singular — uma estranha mistura de novela de rádio, burleta e teatro de revista, a que não falta certa cor local. Há um drama, um dramalhão descabelado, com fidalgos vestidos à moda do século XVI ou XVII, mas, para suavizá-lo, o pássaro inclui cenas jocosas de matutos, sketches que nada têm a ver com o enredo e uma dança de belas jovens de 15 a 17 anos, seminuas, a tremelicar provocadoramente os seios e as ancas, a que se chama o ballet. Parte essencial da representação, uma espécie de justificativa do apelido do grupo, é a cena em que um caçador furtivo tenta matar, a tiro, o Tentém ou o Coati, que ora é o bicho de estimação da sua prometida, ora é um príncipe encantado, e que a boa Fada finalmente ressuscita. Uma criança encarna o animal — trazendo-o, vivo, numa gaiola à cabeça, quando ave, ou preso ao peito, — e representa por ele.


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Cada ano os pássaros apresentam uma peça nova, escrita de encomenda e paga ao autor na média de mil cruzeiros. Outra pessoa, também paga, escreve a música — ou adapta músicas à peça.

Tentarei resumir o enredo dos dramas do ano.

Tentém

O senhor duque opõe-se terminantemente ao casamento da filha com um plebeu. Este recorre à feiticeira, que faz pajelança contra o fidalgo. Ao surpreender a filha em colóquio com o namorado, o senhor duque bate-se com ele a espada. Durante o duelo, o caçador desarma o duque, mas, num gesto cavalheiresco, entrega-lhe novamente a espada. Num golpe infeliz, o duque atinge e mata a filha. Há um coro de lamentações. A boa fada, a pedido da selvagem branca, liberta o namorado das suas angústias e dos índios que o deixam moído de pancada, ao encontrá-lo desorientado na floresta. A desgraça cai sobre a família fidalga. O duque enlouquece, a duquesa transforma-se em mendiga. Novamente intervém a Fada — e o duque e a duquesa se reconciliam e o nobre dá a selvagem branca, que reconhece afinal como a filha que perdera anos antes, em casamento ao caçador.

Coati

Estamos numa ilha encantada. A filha do senhor marquês namora com Danilo, príncipe encantado que se apresenta como plebeu. O fidalgo a proíbe de alimentar esse amor e a garota recua um passo e pergunta, com altivez: "Quer dizer que o coração não tem o direito de gozar os benefícios da democracia?" Danilo desaparece para surgir como Walter, nobre cheio de conceitos, — "O homem tem a supremacia, a mulher a preferência"; "O homem é a águia que voa, a mulher o rouxinol que canta"... Com este ardil, o príncipe Danilo, "rei dos mistérios da ilha", experimenta a fidelidade de Magnólia. Intervêm a fada e a feiticeira, esta com a inevitável pajelança. E, finalmente, arrancando o bigode e o cavanhaque, Danilo revela a sua dupla identidade e se desencanta de vez —como um vilão, com a gargalhada típica e tudo, — sob o império mágico da varinha de condão da fada.

Rouxinol

O drama envolve a família Bamar. O marquês de Bamar chefia uma expedição na floresta, em busca do tesouro do pirata, a despeito da advertência da fada, de que a aventura redundaria em morte. Com efeitos, aparecem índios — índios tupinaés —que deixam ferido o fidalgo e lhe raptam o filho menor. Passam os anos. Os índios, no intervalo, treinam Miguel, filho do marquês, que cresce como um índio, Guaraci. O filho mais moço do marquês, Vítor, namora uma plebéia, Odinaíra, que. surpreendida pelos pais do namorado ("é melhor flagrá-los". diz o marquês) e escorraçada por estes, se revolta contra a nobreza da "laia" dos Bamar e amaldiçoa toda a família, exceto Vítor, revelando-se uma feiticeira sem par: o marquês matará o filho, a marquesa apaixonar-se-á pelo filho, a marquesinha, Vera namorará o irmão... Diante disto, Vítor exclama: "Será possível que tenham desaparecido os últimos resquícios de pudor na descendente de Eva?" À despeito dos esforços da boa fada, a profecia se cumpre. Guaraci (Miguel) namora a irmã, Vera, desprezando a índia Irecê, que lhe fora prometida pelo morubixaba. A marquesa, Semíramis, surpreende Guaraci e Vera e se toma de paixão pelo rapaz, mas Guaraci repele todas as suas instâncias e lhe exprobra o procedimento, lembrando-lhe os deveres de mulher casada. O irmão, Vítor, tenta fazer galanteios a Irecê, mas Guaraci aparece e o expulsa do bosque. Desprezada, Semíramis prepara uma cilada para Guaraci. O marquês o alveja e, quando vai liquidá-lo à faca, nota a medalha que o jovem traz ao pescoço e reconhece em Guaraci o filho que perdera durante a expedição à procura do tesouro do pirata. Vera, que chega nesse momento, acusa a mãe, inocentando Guaraci. O marquês se mata, Semíramis enlouquece. E Vítor, desvairado, sai de cena atrás da feiticeira, que veio, triunfante, contemplar a sua obra, a suplicar: "Odinaíra! Odinaíra!"

A platéia às vezes aplaude, às vezes escuta com indiferença, outras vezes ri às gargalhadas, fazendo pilhérias com os atores.

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Infinitamente mais apreciadas do que o drama são as cenas de matutos que servem de entreato no desenrolar do enredo dos pássaros, com que guardam certa relação remota. Os comediantes são bem conhecidos do público, pois são artistas profissionais em todo tipo de diversão popular no Pará, como Biriba, que encarnava o papel de Chuvisco, um endiabrado garoto de cueiros e chupeta do Coati; Pulico e Pechinchim, do Tentém, e Casquinho, do Rouxinol. Este pássaro anunciava, como apoteose, "O casamento de Sansão com Dalila", mas não foi possível apresentar o ato, porque a noiva de Sansão fugiu". O episódio foi substituído por um seketch de autoria do cômico Casquinho, que podia perfeitamente fazer rir a uma platéia carioca.

Os matutos do Coati — Chuvisco (Biriba), Plagiano com a sua filha Doquinha, namorada de Cornélio, e o Cabo Véio ou Cabo Zé Lapada, — faziam comicidade fácil em torno de uma caneta (de Cornélio) e um tinteiro (de Doquinha). Era mais ou menos o mesmo o assunto que provocava hilaridade na representação do Tentém. E. quanto ao Rouxinol, — que acrescentava aos matutos um negro comprido e magricela, o Picolé de Açaí, recebido em cena sob gostosas gargalhadas, — explorava uma cena de namoro entre adolescentes do interior, de que basta citar o seguinte exemplo cantado:

O beijo só dá sapinho
É uma coisa sem paladar
O que eu pedi pra ela
ela correu — e não quis me dar.

Os matutos adulteram a língua portuguesa à maneira das representações teatrais do gênero, mas acrescentam-lhe cor local, pronunciando a letra o como o fazem os caboclos paraenses — escula, desafuro, puço.

A apresentação dos cômicos encerra-se com cançonetas típicas de teatro de revista — maliciosas, apimentadas, com gestos bem eloqüentes para os mais tardos de compreensão, —em que todos os figurantes cantam e dançam.

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Não há ambientes interiores. Todas as cenas ocorrem ao ar livre, e muito freqüentemente na floresta. E, embora a floresta seja apenas o pano de fundo, está povoada de índios — uma maloca em movimento.

Os índios são caricatos, do tipo convencional, com uma peculiaridade apenas — longos, imensos cocares, que se elevam por mais de meio metro, como uma coroa de penas. Vêm sempre em formação, a dois ou a quatro de fundo, saltitando, sem jamais descansar ambos os pés no chão, e a todo momento põem o ouvido em terra. Alguns trazem machados de pedra, a maioria distende arcos. São geralmente moças, o rosto, os braços e as pernas pintados com manchas brancas, mas no Rouxinol havia um índio, o do centro do grupo, que estadeava um avantajado cavanhaque preto.

Os índios cantam em língua especial e, nas poucas vezes que palestram com os brancos, a quem chamam caríua, falam um português a que faltam artigos, preposições e flexões.

A atuação desses índios nos pássaros é fugaz, quase sempre a fim de impedir a penetração dos brancos nas matas. A riqueza das vestimentas, entretanto, constitui motivo de orgulho para os organizadores da representação. Como pode prescindir da maloca de índios um pássaro que se preze?

* * *


Nem será possível prescindir do ballet.

As mocinhas que o integram são a atração do pássaro. Há qualquer coisa de cabaré da Lapa, de teatro de revista da praça Tiradentes e das Folies Bergère de Paris nas meias de malha preta, nos chapéus de abas largas, nos biquinis e nas luvas de canhão alto com que estas bonitas jovens chegam ao palco e, ao som de música excitante, requebram o corpo, de frente e de costas para a platéia, sob aplausos, assobios lascivos, gestos e ditos obscenos, pedidos de bis. Uma delas faz de estrela — Solange no Coati, Mirtes no Rouxinol, — e, naturalmente, está obrigada a remexer ancas e seios mais compenetradamente do que as outras. São todas moças que não têm mais do que a malícia própria da sua adolescência em flor — e muitas vezes são parentas bem próximas dos donos da representação, como acontece no Rouxinol.

Como as cenas cômicas, o ballet é um entreato, mas não tem qualquer relação com o enredo do pássaro. Para dar lugar ao ballet, um dos figurantes do drama do Rouxinol, Vítor, levanta os olhos para o céu, abre os braços e exclama: "Meu Deus! Permiteis que venha o nosso Corpo de Bailé..."

Um pássaro custa 30 a 40 contos aos seus organizadores — ou donos, como se diz em Belém. E, enquanto dura a estacão, todos os dias há uma despesa fixa de dois contos — 1500 cruzeiros para a orquestra (sete figuras no mínimo) e 500 cruzeiros para o ônibus que transporta a companhia, por exigência da polícia, a fim de evitar choques com os desafetos. Em média, o cachê oscila entre 30 e 40 cruzeiros, mas os artistas de mais público, disputados pelos pássaros, chegam a perceber 150 cruzeiros por dia; há outros brincantes remunerados com a diária de 80, 100 ou 120 cruzeiros; os índios recebem apenas 20 cruzeiros... Ora, o elenco do Coati, por exemplo, somava 36 pessoas,o que permite um cálculo aproximado da folha de cada dia.

O pássaro representa cada dia num local — e as entradas variam entre 8 e 12 cruzeiros para adultos. A assistência, das mais heterogêneas, tanto em idade como em condição social, sente-se poderosamente atraída pelo espetáculo. Chovera pouco antes da representação do Coati e o circo da Rua Humaitá estava inundado, cheio de poças d’água, mas lotado. Ao terminar a função, um dos atores chegou ao palco e anunciou que o Coati ia repetir a peça, em homenagem à certas pessoas que haviam chegado tarde. Os espectadores, que já se movimentavam para a saída, voltaram imediatamente aos seus lugares.

À última representação do ano — uma carinhosa festa de despedida — dá-se o nome de a fugida do pássaro.


(Carneiro, Edison. A sabedoria popular, p.94-105)

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