Em 1954, quatro pássaros chegaram
aos palcos populares de Belém o Tentém, o Coati, o Rouxinol e o Periquito. O
concurso patrocinado pela Prefeitura deu o primeiro lugar ao Tentém, o segundo ao Coati.
O Rouxinol, três vezes campeão de Belém, não concorreu.
Embora se chamem pássaros, estes grupos de teatro dramático-burlesco popular
como se vê pelo exemplo do Coati, um dos mais queridos, nem sempre recrutam
os seus patronos entre as aves. Há noticia de pássaros como o Pirarucu Encantado,
o Caititu, o Guariba, o Javali... No interior do Pará, estes grupos são chamados, com
mais propriedade, bichos, uma designação que eventualmente ocorre em
Belém.
Os pássaros fazem o seu aparecimento em Belém na véspera do São João e
exibem-se em cinemas, teatrinhos, circos ou nos parques cedidos pela prefeitura,
nos diversos bairros da cidade, para os espetáculos do boi-bumbá.
Assisti às últimas apresentações dos pássaros o Tentérn no cinema
Guanabara em Icoraci, o Coati no circo-teatro Íris em Humaitá e o Rouxinol no curral do
boi Onze Bandeirinhas, tricampeão da cidade, no bairro do Guamá.
* * *
O pássaro constitui um espetáculo muito singular uma estranha mistura de
novela de rádio, burleta e teatro de revista, a que não falta certa cor local. Há um
drama, um dramalhão descabelado, com fidalgos vestidos à moda do século XVI ou XVII,
mas, para suavizá-lo, o pássaro inclui cenas jocosas de matutos, sketches que
nada têm a ver com o enredo e uma dança de belas jovens de 15 a 17 anos, seminuas, a
tremelicar provocadoramente os seios e as ancas, a que se chama o ballet. Parte
essencial da representação, uma espécie de justificativa do apelido do grupo, é a cena
em que um caçador furtivo tenta matar, a tiro, o Tentém ou o Coati, que ora é o bicho
de estimação da sua prometida, ora é um príncipe encantado, e que a boa Fada
finalmente ressuscita. Uma criança encarna o animal trazendo-o, vivo, numa gaiola
à cabeça, quando ave, ou preso ao peito, e representa por ele.
* * *
Cada ano os pássaros apresentam uma peça nova, escrita de encomenda e paga ao
autor na média de mil cruzeiros. Outra pessoa, também paga, escreve a música ou
adapta músicas à peça.
Tentarei resumir o enredo dos dramas do ano.
Tentém
O senhor duque opõe-se terminantemente ao casamento da filha com um plebeu. Este
recorre à feiticeira, que faz pajelança contra o fidalgo. Ao surpreender a filha em
colóquio com o namorado, o senhor duque bate-se com ele a espada. Durante o duelo, o
caçador desarma o duque, mas, num gesto cavalheiresco, entrega-lhe novamente a
espada. Num golpe infeliz, o duque atinge e mata a filha. Há um coro de lamentações. A
boa fada, a pedido da selvagem branca, liberta o namorado das suas angústias e dos
índios que o deixam moído de pancada, ao encontrá-lo desorientado na floresta. A
desgraça cai sobre a família fidalga. O duque enlouquece, a duquesa transforma-se em
mendiga. Novamente intervém a Fada e o duque e a duquesa se reconciliam e o nobre
dá a selvagem branca, que reconhece afinal como a filha que perdera anos antes, em
casamento ao caçador.
Coati
Estamos numa ilha encantada. A filha do senhor marquês namora com Danilo, príncipe
encantado que se apresenta como plebeu. O fidalgo a proíbe de alimentar esse amor e a
garota recua um passo e pergunta, com altivez: "Quer dizer que o coração não tem o
direito de gozar os benefícios da democracia?" Danilo desaparece para surgir como
Walter, nobre cheio de conceitos, "O homem tem a supremacia, a mulher a
preferência"; "O homem é a águia que voa, a mulher o rouxinol que
canta"... Com este ardil, o príncipe Danilo, "rei dos mistérios da ilha",
experimenta a fidelidade de Magnólia. Intervêm a fada e a feiticeira, esta com a
inevitável pajelança. E, finalmente, arrancando o bigode e o cavanhaque, Danilo revela a
sua dupla identidade e se desencanta de vez como um vilão, com a gargalhada típica
e tudo, sob o império mágico da varinha de condão da fada.
Rouxinol
O drama envolve a família Bamar. O marquês de Bamar chefia uma expedição na
floresta, em busca do tesouro do pirata, a despeito da advertência da fada, de que a
aventura redundaria em morte. Com efeitos, aparecem índios índios tupinaés
que deixam ferido o fidalgo e lhe raptam o filho menor. Passam os anos. Os índios,
no intervalo, treinam Miguel, filho do marquês, que cresce como um índio, Guaraci. O
filho mais moço do marquês, Vítor, namora uma plebéia, Odinaíra, que. surpreendida
pelos pais do namorado ("é melhor flagrá-los". diz o marquês) e
escorraçada por estes, se revolta contra a nobreza da "laia" dos Bamar e
amaldiçoa toda a família, exceto Vítor, revelando-se uma feiticeira sem par: o marquês
matará o filho, a marquesa apaixonar-se-á pelo filho, a marquesinha, Vera namorará o
irmão... Diante disto, Vítor exclama: "Será possível que tenham desaparecido os
últimos resquícios de pudor na descendente de Eva?" À despeito dos esforços da
boa fada, a profecia se cumpre. Guaraci (Miguel) namora a irmã, Vera, desprezando a
índia Irecê, que lhe fora prometida pelo morubixaba. A marquesa, Semíramis, surpreende
Guaraci e Vera e se toma de paixão pelo rapaz, mas Guaraci repele todas as suas
instâncias e lhe exprobra o procedimento, lembrando-lhe os deveres de mulher casada. O
irmão, Vítor, tenta fazer galanteios a Irecê, mas Guaraci aparece e o expulsa do
bosque. Desprezada, Semíramis prepara uma cilada para Guaraci. O marquês o alveja e,
quando vai liquidá-lo à faca, nota a medalha que o jovem traz ao pescoço e reconhece em
Guaraci o filho que perdera durante a expedição à procura do tesouro do pirata. Vera,
que chega nesse momento, acusa a mãe, inocentando Guaraci. O marquês se mata, Semíramis
enlouquece. E Vítor, desvairado, sai de cena atrás da feiticeira, que veio, triunfante,
contemplar a sua obra, a suplicar: "Odinaíra! Odinaíra!"
A platéia às vezes aplaude, às vezes escuta com indiferença, outras vezes ri às
gargalhadas, fazendo pilhérias com os atores.
* * *
Infinitamente mais apreciadas do que o drama são as cenas de matutos que servem de
entreato no desenrolar do enredo dos pássaros, com que guardam certa relação
remota. Os comediantes são bem conhecidos do público, pois são artistas profissionais
em todo tipo de diversão popular no Pará, como Biriba, que encarnava o papel de
Chuvisco, um endiabrado garoto de cueiros e chupeta do Coati; Pulico e Pechinchim, do
Tentém, e Casquinho, do Rouxinol. Este pássaro anunciava, como apoteose, "O
casamento de Sansão com Dalila", mas não foi possível apresentar o ato, porque a
noiva de Sansão fugiu". O episódio foi substituído por um seketch de
autoria do cômico Casquinho, que podia perfeitamente fazer rir a uma platéia carioca.
Os matutos do Coati Chuvisco (Biriba), Plagiano com a sua filha Doquinha, namorada
de Cornélio, e o Cabo Véio ou Cabo Zé Lapada, faziam comicidade fácil em torno
de uma caneta (de Cornélio) e um tinteiro (de Doquinha). Era mais ou menos o mesmo o
assunto que provocava hilaridade na representação do Tentém. E. quanto ao Rouxinol,
que acrescentava aos matutos um negro comprido e magricela, o Picolé de Açaí,
recebido em cena sob gostosas gargalhadas, explorava uma cena de namoro entre
adolescentes do interior, de que basta citar o seguinte exemplo cantado:
O beijo só dá sapinho
É uma coisa sem paladar
O que eu pedi pra ela
ela correu e não quis me dar.
Os matutos adulteram a língua portuguesa à maneira das representações teatrais do
gênero, mas acrescentam-lhe cor local, pronunciando a letra o como o fazem os
caboclos paraenses escula, desafuro, puço.
A apresentação dos cômicos encerra-se com cançonetas típicas de teatro de revista
maliciosas, apimentadas, com gestos bem eloqüentes para os mais tardos de
compreensão, em que todos os figurantes cantam e dançam.
* * *
Não há ambientes interiores. Todas as cenas ocorrem ao ar livre, e muito freqüentemente
na floresta. E, embora a floresta seja apenas o pano de fundo, está povoada de índios
uma maloca em movimento.
Os índios são caricatos, do tipo convencional, com uma peculiaridade apenas
longos, imensos cocares, que se elevam por mais de meio metro, como uma coroa de penas.
Vêm sempre em formação, a dois ou a quatro de fundo, saltitando, sem jamais descansar
ambos os pés no chão, e a todo momento põem o ouvido em terra. Alguns trazem machados
de pedra, a maioria distende arcos. São geralmente moças, o rosto, os braços e as
pernas pintados com manchas brancas, mas no Rouxinol havia um índio, o do centro do
grupo, que estadeava um avantajado cavanhaque preto.
Os índios cantam em língua especial e, nas poucas vezes que palestram com os brancos, a
quem chamam caríua, falam um português a que faltam artigos, preposições e
flexões.
A atuação desses índios nos pássaros é fugaz, quase sempre a fim de impedir a
penetração dos brancos nas matas. A riqueza das vestimentas, entretanto, constitui
motivo de orgulho para os organizadores da representação. Como pode prescindir da maloca
de índios um pássaro que se preze?
* * *
Nem será possível prescindir do ballet.
As mocinhas que o integram são a atração do pássaro. Há qualquer coisa de
cabaré da Lapa, de teatro de revista da praça Tiradentes e das Folies Bergère de
Paris nas meias de malha preta, nos chapéus de abas largas, nos biquinis e nas
luvas de canhão alto com que estas bonitas jovens chegam ao palco e, ao som de música
excitante, requebram o corpo, de frente e de costas para a platéia, sob aplausos,
assobios lascivos, gestos e ditos obscenos, pedidos de bis. Uma delas faz de estrela
Solange no Coati, Mirtes no Rouxinol, e, naturalmente, está obrigada a
remexer ancas e seios mais compenetradamente do que as outras. São todas moças que não
têm mais do que a malícia própria da sua adolescência em flor e muitas vezes
são parentas bem próximas dos donos da representação, como acontece no
Rouxinol.
Como as cenas cômicas, o ballet é um entreato, mas não tem qualquer relação
com o enredo do pássaro. Para dar lugar ao ballet, um dos figurantes do
drama do Rouxinol, Vítor, levanta os olhos para o céu, abre os braços e exclama:
"Meu Deus! Permiteis que venha o nosso Corpo de Bailé..."
Um pássaro custa 30 a 40 contos aos seus organizadores ou donos, como
se diz em Belém. E, enquanto dura a estacão, todos os dias há uma despesa fixa de dois
contos 1500 cruzeiros para a orquestra (sete figuras no mínimo) e 500 cruzeiros
para o ônibus que transporta a companhia, por exigência da polícia, a fim de evitar
choques com os desafetos. Em média, o cachê oscila entre 30 e 40 cruzeiros, mas os
artistas de mais público, disputados pelos pássaros, chegam a perceber 150
cruzeiros por dia; há outros brincantes remunerados com a diária de 80, 100 ou 120
cruzeiros; os índios recebem apenas 20 cruzeiros... Ora, o elenco do Coati, por exemplo,
somava 36 pessoas,o que permite um cálculo aproximado da folha de cada dia.
O pássaro representa cada dia num local e as entradas variam entre 8 e 12
cruzeiros para adultos. A assistência, das mais heterogêneas, tanto em idade como em
condição social, sente-se poderosamente atraída pelo espetáculo. Chovera pouco antes
da representação do Coati e o circo da Rua Humaitá estava inundado, cheio de poças
dágua, mas lotado. Ao terminar a função, um dos atores chegou ao palco e anunciou
que o Coati ia repetir a peça, em homenagem à certas pessoas que haviam chegado tarde.
Os espectadores, que já se movimentavam para a saída, voltaram imediatamente aos seus
lugares.
À última representação do ano uma carinhosa festa de despedida dá-se o
nome de a fugida do pássaro.
(Carneiro, Edison. A sabedoria popular, p.94-105)