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Junho 2002
Ano IV - nº 46

A CULTURA DO CHÁ – A COLÔNIA CHINESA NO BRASIL

De volta do Jaraguá paramos nas margens do Tietê a fim de visitar uma plantação de chá do coronel Anastácio, soldado veterano que, quando moço serviu no exército português, e, na época em que o conhecemos, já com a provecta idade de oitenta e seis anos, gozava do otium cum dignitate em seu retiro agrícola. Um dos principais objetivos da visita do doutor Guillemin ao Brasil consistia em estudar a cultura do chá e obter mudas.

Tais mudas destinavam-se à introdução dessa planta asiática no sul da França onde o cultivo do chá está sendo atualmente incentivado com vigor, sob o patrocínio do governo. Assim é que a cultura do chá no Brasil tornou-se objeto do interesse de um governo europeu. Os primeiros espécimes dessa planta exótica, foram introduzidos no Rio de Janeiro por volta de 1810, e cultivados principalmente no Jardim Botânico, sob as vistas do governo e na fazenda imperial de Santa Cruz, a cerca de 50 milhas a sudoeste da capital. A fim de assegurar o melhor tratamento possivel à nova cultura, que, ao que esperavam os governantes haveria de se desenvolver rapidamente, a ponto de poder. suprir a Europa, o conde de Linhares, então primeiro ministro de Portugal, providenciou a imigração de algumas centenas de colonos, não da população misturada do litoral chinês, mas do interior do Celeste Império; pessoas experimentadas não só no cultivo da planta como no preparo das folhas.

Esta foi provavelmente a primeira e a última colônia de asiáticos que jamais se fixou no Novo Mundo; pelo menos desde o seu descobrimento por europeus. Os colonos, porém, não se deram bem com a mudança. Não prosperaram, e, atualmente, quase que desapareceram de todo. Devido, sem dúvida, às diferenças entre a terra brasileira e a da China, é, talvez também devido aos métodos imperfeitos de preparar as folhas, quando colhidas, nem mesmo os chineses conseguiram chá de boa qualidade. Não tendo sido correspondido pela realidade, o entusiasmo inicial logo arrefeceu e, no Rio de Janeiro, a plantação de chá, mesmo no Jardim Botânico, declinou rapidamente, não passando hoje de mera curiosidade.

O chá é um bonito arbusto e, com a idéia de incentivar sua cultura, o Jardim Botânico fornece gratuitamente, aos interessados, mudas e sementes.

Diversos paulistas iniciaram espontaneamente a cultura do chá, tendo sido muito bem sucedidos. A produção entretanto, ainda não é considerada de qualidade igual a dos melhores tipos de origem chinesa, nem a quantidade ainda é suficiente para suprir o consumo interno além de ser o seu custo superior ao importado de Cantão. Contudo os capitalistas interessados no seu plantio têm ainda esperanças de reduzir o custo de produção e aperfeiçoar a qualidade do chá, de maneira a poder concorrer com o chinês até mesmo nos mercados externos. A plantação do velho coronel foi uma das mais interessantes que visitamos. A ordem era perfeita e lá havia pés de chá de todas as idades, de um a dez anos. As alas formadas pelos arbustos são intervaladas de cinco pés (1,52 m). São duas as colheitas anuais. A altura média dos arbustos vai de 2 a 2,5 pés (60 a 75 cm). É grande a diferença de qualidade entre as folhas produzidas em terreno alto e seco e as provenientes de solo baixo e úmido. No último caso, o desenvolvimento da planta é mais rápido e exuberante, mas a folha é mais suculenta e de aroma menos agradável que quando o chá cresce em terreno seco e alto. O coronel e seu filho — sendo que o último é o principal administrador da fazenda — só tinham vendido as quantidades procuradas lá na plantação, e, portanto, retinham ainda a maior parte do que haviam produzido desde o início. A principal razão para terem assim procedido provém do fato que o chá melhora com a idade. As folhas eram guardadas em latas com rótulos indicativos das safras. Os implementos usados nessa fazenda para o preparo da folha eram muito simples e consistiam em: 1. cestos onde as folhas eram depositadas quando colhidas; 2. armações de madeira aparelhada onde eram enroladas, uma a uma; 3. fornos, ou enormes panelas de metal, para secá-las, ao fogo.

Depois de percorrermos as proximidades da sede, onde vimos belas plantações de mandioca, cana-de-açúcar, banana, café e algodão, sentamo-nos um pouco na sala de visitas do coronel enquanto ele desenvolvia novamente algumas de suas velhas batalhas. Foi-nos então servido vinho paulistano, puro suco de uvas cultivadas na fazenda, e que, segundo a opinião dos entendidos, era de fina qualidade.

[1840]


(Kidder, Daniel Parish. Reminiscências de viagens e permanências nas províncias do sul do Brasil, p.225-227)

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