As mais
antigas tradições do Brasil estão presentes nas obras de muitos de
nossos poetas e de nossos escritores. Poemas, romances, contos e
crônicas foram enriquecidos com momentos de nosso folclore, tornando-se
verdadeiros registros de nossa cultura mais genuína. As festas do mês de
junho, por exemplo, fazem lembrar um dos belos poemas escritos por
Manuel Bandeira, poeta simbolista em seus primeiros versos e depois
chamado de "o São João Batista do Modernismo" por Mário de Andrade.
Profundamente
Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Estrondos de bombas luzes de Bengala
Vozes cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas
No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
passavam errantes
Silenciosamente
Apenas de vez em quando
o ruído de um bonde
cortava o silêncio
como um túnel
Onde estavam os que há pouco
dançavam
cantavam
e riam
ao pé das fogueiras acesas?
- Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo profundamente
Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
porque adormeci
Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomasia
Rosa
Onde estão todos eles?
- Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.
Manuel Carneiro de Souza Bandeira nasceu no Recife, em 1886, lugar e
época privilegiados para o contato constante com nossos elementos
genuínos. Eles se fazem presentes em sua obra, voltada sobretudo para o
cotidiano e o biográfico. Com versos de extrema sensibilidade e de um
lirismo agudo, focaliza cenas tradicionais do Nordeste, comuns em sua
infância, a partir de que constrói uma espécie de relato íntimo. Os
instantes marcados pelo conteúdo folclórico caracterizam o poema acima,
quando, para falar da saudade dos seus, relembra com carinho e com
emoção contida a noite de São João, uma das comemorações mais
importantes de todo o Nordeste. Estão presentes elementos essenciais da
festa: a fogueira, em torno da qual as pessoas se reuniam para cantar,
dançar, conversar e rir; os balões que cruzavam o céu; os fogos de
artifício como as luzes de bengala, uma bomba com efeitos especiais, e
os estrondos característicos desses artefatos. Suas palavras rememoram
os costumes, as cantigas e a fé. Com esses itens, revela o lúdico e a
crença como elementos de integração e desenvolvimento na pedagogia das
famílias. E, contrapondo o ruído de uma festa de São João com o
silêncio, transmite a profundidade de seu pesar pela ausência dos seus.
Desse modo, aproxima-se mais de seu leitor, ao mesmo tempo em que o
instala nas raízes nacionais e o faz refletir sobre a grandeza do
cotidiano.
(Colaboração da autora para a Jangada Brasil.) |