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Junho 2002
Ano IV - nº 46

Literatura Brasileira e  Folclore
O São João Batista do Modernismo

Márcia Angélica M. dos Santos

As mais antigas tradições do Brasil estão presentes nas obras de muitos de nossos poetas e de nossos escritores. Poemas, romances, contos e crônicas foram enriquecidos com momentos de nosso folclore, tornando-se verdadeiros registros de nossa cultura mais genuína. As festas do mês de junho, por exemplo,  fazem lembrar um dos belos poemas escritos por Manuel Bandeira, poeta simbolista em seus primeiros versos e depois chamado de "o São João Batista do Modernismo" por Mário de Andrade.

                 Profundamente

         Quando ontem adormeci
          Na noite de São João
          Havia alegria e rumor
          Estrondos de bombas luzes de Bengala
          Vozes cantigas e risos
          Ao pé das fogueiras acesas
           No meio da noite despertei
           Não ouvi mais vozes nem risos
           Apenas balões
           passavam errantes

            Silenciosamente
             Apenas de vez em quando
             o ruído  de um bonde
              cortava o silêncio
            como um túnel
 
             Onde estavam os que há pouco
             dançavam
             cantavam
              e riam
              ao pé das fogueiras acesas?
              - Estavam todos dormindo
              Estavam todos deitados
              Dormindo profundamente

               Quando eu tinha seis anos
                Não pude ver o fim da festa de São João
                 porque adormeci

                Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
                Minha avó
                Meu avô
                Totônio Rodrigues
                Tomasia
                Rosa
                Onde estão todos eles?
                  - Estão todos dormindo
                  Estão todos deitados
                  Dormindo
                  Profundamente.

Manuel  Carneiro de Souza Bandeira nasceu no Recife, em 1886, lugar e época privilegiados para o contato constante com nossos elementos genuínos. Eles se fazem presentes em sua obra, voltada sobretudo para o cotidiano e o biográfico. Com versos de extrema sensibilidade e de um lirismo agudo, focaliza cenas tradicionais do Nordeste, comuns em sua infância, a partir de que constrói uma espécie de relato íntimo. Os instantes  marcados pelo conteúdo folclórico caracterizam o poema acima, quando, para falar da saudade dos seus, relembra com carinho e com emoção contida a noite de São João, uma das comemorações mais importantes de todo o Nordeste. Estão presentes elementos essenciais da festa: a fogueira, em torno da qual as pessoas se reuniam para cantar, dançar, conversar e rir; os balões que cruzavam o céu; os fogos de artifício como as luzes de bengala, uma bomba com efeitos especiais, e os estrondos característicos desses artefatos. Suas palavras rememoram os costumes, as cantigas e a fé. Com esses itens, revela o lúdico e a crença como elementos de integração e desenvolvimento na pedagogia das  famílias. E, contrapondo o ruído de uma festa de São João com  o silêncio, transmite  a profundidade de seu pesar pela ausência dos seus. Desse modo, aproxima-se mais de seu leitor, ao mesmo tempo em que o instala nas raízes nacionais e o faz refletir sobre a grandeza do cotidiano.


(Colaboração da autora para a Jangada Brasil.)

 

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