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Junho 2002
Ano IV - nº 46

OS SEGREDOS DO FUTURO

Versos extraídos do livro de sortes de Xico Braz, publicado em 1914.

 

Antes de tirar a sorte


Se da sorte quer certeza,
Ponha, num copo, dois dados;
Sacuda e ponha-os na mesa,
Somando os pontos marcados;

Com esse algarismo obtido,
Conforme a pergunta feita,
Abra o livro e terá lido,
Resposta em língua escorreita

Se acaso a sorte inconstante
Ao coração lhe agradou,
Agradeça ao hierofante
Que os mistérios desvendou

Porém se forem adversos
Os destinos. que encontrar,
Experimente até que os versos
Agradem seu paladar.

 

Se tem segredo
Senhoras e senhoritas


2
Senhorita, o teu segredo
É coisa muito evidente
Tu pensas que ninguem sabe
E o conhece toda a gente

3
Confesso que tenho receio
De divulgar seu segredo:
Uma carta recebida
Ontem de manhã cedo

4
Só não sabe quem não viu
Você toda delambida
Recebendo corda há pouco
E sendo comprometida

5
Todos estamos - de acordo
Segredos não tens um só;
Porém mais de quatro dúzias
Que chegam a fazer dó.

6
Felizmente tenho um dedo
Que sabe tudo o que há
Escusas guardar segredo
Sobre o que se passou lá

7
Tu bem sabes o ditado
"Quem porfia mata caça"
Por isso vais à janela
Para ver quando ele passa

8
O que guardas com cuidado
Já de amigas não se esconde...
Todos sabem das cartinhas
E dos azeites no bonde

9
Não direi a mais ninguém
E tranquila ficar podes,
Que a tua boquinha tem
Cheiro daqueles bigodes.

10
Para que essa pergunta
Se tu vais ficar corada?
Recorda-te bem do que houve
Nesta semana passada.

11
O que esconde é conhecido
Não precisa mais sigilo
Recebeu uma missiva
Escrita num belo estilo.

12
O que tu trazes no peito,
Secretamente guardado,
É a lembrança do beijo
Que ontem foi-te roubado.

 

Se tem segredo
Homens


2

O teu não é conhecido
Pois isto agora começa;
O pior é que um sujeito
Vai te pregar uma peça

3
Segredos tu não tens muitos
Pois tudo contas nas salas
Mas por causa de um segredo
Hás de te ver numas talas.

4
Segredinhos como este
Quase todos sempre têm:
Uns apertinhos de mão
E alguns suspiros também.

5
Não oculte esse mistério;
Há muita gente que veja.
Você ir sempre à novena
E namorar numa igreja.

6
Julgas tudo ignorado
E todos já sabem disso
Já está muito divulgado
Qual é o novo derriço.

7
Muito mal te pode vir
Se, do caso, alguém souber,
Pois dizem que no negócio
Andam roupas de mulher!

8
Para que foste bulir
Com meninas... Que diabo!
Agora vais tu saber
Onde a porca torce o rabo.

9
Daquele passeio agreste
Um dia em sítio soturno
Só sabem você e ela
Além de um guarda-noturno.

10
Procure ser cauteloso
Para outra vez, meu amigo,
Quem quer falar aos amores,
Procura um canto, um abrigo.

11
Teus segredos são palavras,
Que andaram soltas ao vento,
Não te admires portanto
Da quebra do juramento.

12
Teu segredo, me parece,
Que o ouvi, num telefone.
Logo à noite pode ser,
Que o escute em gramofone.

 

Se terá vida longa
Senhoras e senhoritas


2
Se não houver contratempo
Que te traga consumida,
Hás de viver tanto tempo
Que ficas aborrecida.

3
Põe à larga o coração;
Devido à moléstia lenta
Que te dará consunção
Não passarás dos oitenta.

4
Aproveita, vai gozando;
Na existência vai rindo,
Que os trinta e cinco chegando
Vais desta vida fugindo.

5
A existência fica leve
A quem amor cedo amarra,
A tua vida será breve
Como a vida da cigarra.

6
Como tudo se renova
Dos anos não tenhas dó,
Antes de abrirem a cova,
Serás mãe; serás vovó!

7
Tu hoje passas, formosa,
Disputada no salão,
E aos sessenta, ó sorte irosa,
Irás pra baixo do chão.

8
Muita cousa a gente agüenta
Que podia ser pior,
Por isso antes dos quarenta
Passas desta pra melhor.

9
Tua vida é de prazeres,
Mas os achaques chegando
Mais vale moça morreres
Que ficar velha e penando.

10
Não fiques muito zangada
Diz a sina em tua orelha;
— Você pra não dar massada
Morre muitíssimo velha.

11
Muita gente há de acabar
Muitos anos hás de ver
Se você não se matar
São Pedro vai te esquecer.

12
Isto é que é jogar na certa
Podes pular de contente,
Diz a sorte boquiaberta
Que ficarás pra semente.

 

Se terá vida longa
Homens


2
Nem por isso. Muito antes
Dos quarenta morrerás
Teus pecados importantes
São contas com Satanás.

3
O mundo dá muitas voltas
Mas bem poucas vós vereis
Entre guerras e revoltas
Vossa vida passareis.

4
O ancião vira criança
E afinal fica caduco
Porém conserve a esperança
De ficar velho e maluco.

5
Ficarás com poucos pêlos
Branquinhos mais do que prata.
Mas tingireis os cabelos
Por amor d’uma mulata.

6
Você de tanta velhice
Ficará na vida só;
Dizendo muita tolice
Sem dentes e com chinó.

7
Findarás teus afazeres
Com setenta (Quem diria?!)
E se à noite não morreres
Então morrerás de dia.

8
Estão longe felizmente
As horas do teu trespasse
Agradece a Deus clemente
Tão longínquo desenlace.

9
Não gozarás a vidinha
De enganador de mulheres;
A magra com sua mãozinha

Te leva aonde não queres.

10
Você verá não só netos
Mas muitos filhos casados,
E uma dúzia de bisnetos
Todos eles já barbados.

11
Quanto a ti na primavera
Branca mortalha te enrola,
Por causa de uma sincera
Paixão por uma hespanhola.

12
Tua sorte é um segredo
Muito comum nos mortais,
Morrendo já. morres cedo;
Se tarde, velho serás.


(Xico-Braz. Os segredos do futuro; livro de sortes, p.11-19)

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