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Sumário | Festança | Cancioneiro | Imaginário | Oficina | Palhoça | Colher de Pau | Panacéia | Catavento

O vigário se divertia, a contar estórias, verdadeiras ou inventadas, mas que bem refletiam o caráter daquele povo.
Assim foi, a do trabuqueiro Né Marinho.
Quando um daqueles "coronéis" queriam eliminar um desafeto, procurava um pistoleiro e, na surdina, por qualquer importância, tirava do espírito a preocupação de ter um indivíduo perigoso nos seus calcanhares.
– Um desses fazendeiros, que não quero dizer o nome, - contou o padre – se viu doido com uma conversa que atacava sua honra. Bolia na mulher dele e isso sertanejo não tolera. Procurou, à socapa, saber donde vinha essa estória, pra tomar vingança que o caso merecia. Ninguém pode com difamação, mas, se indagando bem, chega-se ao insolente espalhador da prosa. É certo que, semeado o assunto, não há quem apague a impressão. Esse fazendeiro não podia suportar que todo mundo se calasse, mudasse de conversa, quando ele passava diante de qualquer ajuntamento. Até que pensou ter descoberto o detratante. Era um sujeito lá dos lados de Emas. Pensou em enfrentá-lo. Se o matasse, seria criminoso, mesmo que não fosse para a cadeia. Ficaria no entanto conhecido como assassino e poderia haver revanche. Depois de meditar, resolveu procurar alguém para vingá-lo. Havia algo no ar, de que Né Marinho era trabuqueiro, apesar de seu ar de homem bom, de absoluta correção e dignidade. Como gato, que ele era trabuqueiro perigoso, mesmo com seu grande apego ao venerável São Sebastião.

O fazendeiro, como quem não quer e querendo, foi ao curral onde Né Marinho bem cedo tirava leite de três vaquinhas.
– Bom dia, seu Né!
- Bom dia! Madrugou hoje "coroné"?
- Vim beber leite no pé da vaca...
– Faz bem à saúde. – Nesse ponto, astuto como era, Né Marinho pressentiu um acerto...
– Como vão as coisas... seu "coroné"?
- Mal...
– O que? Tem tempo ruim pra o senhô? Oxente!
O fazendeiro baixou a voz, olhou em torno demoradamente e disse:
- Vamos conversar!
- Sô todo ouvido...
– Tenho um servicinho... Sei que o senhor é capaz...
Né Marinho pôs o balde no chão e respondeu:
- Vimincê pode falá... sem arriceio...
– Quanto está cobrando?
- Depende do que fô. Pulítico? Cabra ruim? Tudo isso tem seu preço...
– É um cabra enxerido, enxovalhador da honra alheia.
– São Sebastião foi vítima deles...
– Quanto cobra?
- É pra beneficiá... ou prá dá cabo?
- Beneficiar faz testemunha! É pra mandar pro inferno mesmo...
– Quinhento minréis!
- É caro!!!

O trabuqueiro se coçou, tirou o chápeu, olhou em torno e disse:
- Cuma é pra pegá o freguês, tiro cinqüenta!... O sinhô veja aqui: a vida tá pula hora da morte. O feijão...
– Está feito! É fulano (deu o nome).
O pistoleiro recebeu logo a metade (pra poder se afastar e vir depois receber o resto).
Passaram-se alguns dia, quando o fazendeiro descobriu que a futura vítima era inteiramente inocente e que o verdadeiro culpado campiava impune, bem falante da honra alheia.
Imediatamente correu à casa de Né Marinho, fazia alguns dias que se ausentara, segundo lhe disse a mulher. Certamente já estava emboscado e iria morrer um inocente. Em canto nenhum encontrava o coronel o trabuqueiro e isso o afligia, quando, andando pelos arredores, viu uma capela. E era orago São Sebastião. Entrou e viu ajoelhado Né Marinho, muito contrito, terminando um rosário.
– Faz três dias que lhe procuro!
- Procurou onde não devia... – Respondeu o pistoleiro.
Depois, num gesto de muita unção, com olhar brando, disse:
- Amenhã vou começá...
– Não! Descobri que aquele cabra está inocente. O culpado é fulano...
– Amincê discubriu isso agora? Vai morrê cuma São Sebastião: inocente. Mataro o santo a faca e a seta, sem devê. A alma já tá encomendada, prontinha prá subi, e eu não vou dá moçada, fazeno o santo isperá nem se iludi. Isso nunca fiz! Vai é aquele mermo.
O fazendeiro ficou desapontado, sem saber o que dizer.
Foi Né Marinho quem falou:
- Pulo qui vejo tô diante de um bom freguês. Esse outro, a gente pode acertá. Faço pela metade do preço... pra num disapontá o sinhô!
E assim se faz justiça nesse sertão. – Concluiu o padre. – Fanatismo e justiça. Tudo misturado.

(TORRES, Luiz Wanderley, Nordeste Pitoresco e Engraçado. p. 87-89)

FORMIGA

Espécie de ferrão para amansar boi de carro.
Econômico.
Quem gosta muito de sobremesa com açúcar.

Formiga branca: maçom.

Formiga de doce: moça leviana, namoradeira.

Gente que só formiga:
aglomeração, multidão.

Formiga na cama:
qualquer coisa que faz a gente acordar mais cedo.

Trabalhar que nem formiga:
trabalhar muito.

Por inimigo não quero nem uma formiga:
quero viver em paz com Deus e o mundo.

Formiga sabe que roça come:
o homem que atua em função do meio e das contingências.

Formiga nao come manipeba:
sabido não se deixa enganar.

Por seu mal nasceram asas à formiga:
dos elementos da perdição.

Formigueiro em véspera de chuva:
multidão em movimento.

Formigão:
coroinha de igreja, seminarista, pessoa alta.

Frouxo que só areia de formigueiro:
da falta de consistência.

Formigueiro no corpo:
dormência, manifestação de desejo sexual ou de vergonha.

Formigueiro:
multidão; dormência na pele; inquietação; zona muito habitada; doença venérea.

Formigar:
encher de gente, superlotar, movimentar.

Pau com formiga:
complicação, encrenca.

Não sente em cima de formigueiro:
não se aproxime de ameaças.

Macho com fêmea, nem cavalo com formiga:
da atração sexual


Adagiário

Formiga quando quer se perder cria asa.
Segue a formiga se queres viver sem fadiga.
Cada formiga tem a sua ira.


(Mota, Mauro. Os bichos na fala da gente)

O monge e o escorpião


O monge e discípulos iam por uma estrada e, quando passavam por uma ponte, viram um escorpião sendo arrastado pelas águas.

O monge correu pela margem do rio, meteu-se na água e tomou o bichinho na mão. Quando o trazia para fora, o bichinho o picou e, devido a dor, o homem deixou-o cair novamente no rio.

Foi então à margem tomou um ramo de árvore, adiantou-se outra vez a correr pela margem, entrou no rio, colheu o escorpião e o salvou. Voltou o monge e juntou-se aos dicípulos na estrada.

Eles haviam assistido a cena e o receberam perplexos e penalizados. "Mestre, deve estar doendo muito! Por que foi salvar esse bicho ruim e venenoso? Que se afogasse! Seria um a menos! Veja como ele respondeu a sua ajuda! Picou a mão que o salvara! Não merecia sua compaixão!"

O monge ouviu tranqüilamente os comentários e respondeu: "Ele agiu conforme sua natureza, e eu de acordo com a minha."

Esta parábola nos faz refletir a forma de melhor compreender e aceitar as pessoas com que nos relacionamos. Não podemos e nem temos o direito de mudar o outro, mas podemos melhorar nossas próprias reações e atitudes, sabendo que cada um dá o que tem e o que pode. Devemos fazer a nossa parte com muito amor e respeito ao próximo. Cada qual conforme sua natureza, e não conforme a do outro.

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