Junho
2001
Ano III - nº 34 |
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Fora da família nenhum liame
era mais forte e poderosamente decisivo quando o compadrio. Se os padrinhos tinham
canonicamente, todos os deveres e direitos para seus afilhados, canônica e juridicamente
nenhum vínculo reunia compadres e comadres na indissolubidade sagrada de uma comunhão
espiritual que durou séculos.
Foi uma criação católica e seu alcance era aproximar humanamente os ricos e poderosos
dos pobres e fracos. Estabelecia uma comunicação obrigatória de serviços mútuos
explicadora de muita "paz social" em regiões ásperas de desequilíbrio
econômico. O senhor Manuel Rodrigues de Melo foi o primeiro a expôr as linhas
essenciais do
complexo sociológico que encheu de força cooperante e de confiança
tranqüila as terras
do interior brasileiro. Empurrou muito nome para o Senado do Império e ainda, desfalecida
e teimosa potência, resite fiel aos seus compadres deputados federais.
Recebemos de Portugal a instituição em sua grandeza serena. Lá, outrora, os fidalgos se
tratavam por "primos" e os aldeões por "compadres". O nome, por si
mesmo, valia evocação emocional, com padre, cum pater, com madre, cum mater.
Com igual e menor valor viveu pela Europa cristã. Na França o compére, le bom
compère, como gostava de chamar o rei Henrique IV aos seus capitães, era nome
aliciador de intimidade alegre, de convívio folgazão. O mesmo na Itália e na Espanha.
Mas entre si os compadres não tiveram a profundeza mística de um pacto como se verificou
em Portugal e floresceu, frondosa e longamente, no Brasil quase até nossos tristes
dias...
O instituto se derrama por toda a América espanhola, ombreando valentes e humildes e
dando a todos um direito imprevisto de participação direta e soberba nos momentos
supremos. Era realmente um cognatio espiritualis jamais previsto pela
casuística.
Punha o compadre-pobre na eterna e jubilosa vassalagem senhorial, trabalhador dedicado com
o soldo do pague-se-quiser. Situava o compadre-rico na obrigação de arrolamento místico
do seu "homem", obrigando-se a defendê-lo ante tudo e ante todos, arriscando
vida e bens porque nele se refletia, integral e completa, a figura oniponente da parte
rica, influente e sensível. Qualquer ofensa ao compadre-pobre caía sobre a personalidade
do compadre-rico. Quem tivera empurrão do delegado, chanfrada de facão, opróbrio de
cadeia, fora o coronel, o fazendeiro, o senhor de engenho, o chefe enfim. Por causa de um
compadre-pobre famílias abastadas empobreceram, armaram bandos para arrancá-lo da
prisão, fizeram eleições espaventosas, idas de advogados ilustres, júris ruidosos,
absolvição saudade com mil dúzias de foguetões trovejantes.
No outro lado da balança o compadre-pobre estava voando na ponta da faca do primeiro
agressor ao seu compadre-rico, custóda, égide, bandeira, paradigma. Fazendeiros e
senhores de engenho tinham milhares de compadres. Francisco Cascudo, coronel da Guarda
Nacional, meu pai, deixou, vivos, 1.005 afilhados, mais de dois mil compadres espalhados
pelo Rio Grande do Norte, Ceará e Paraíba. Uma vez o vigário-geral monsenhor Alfredo
Pegado batizou, em roda, trinta crianças. Meu pai foi padrinho de vinte e cinco. Era esta
a média por nordeste. Não fixava apoio financeiro mas essencialmente o fundamento moral,
a proteção para os casos difíceis, imprevistos, angustiados. O pedido ao padrinho
surgia na convocação do serviço militar, no rapto da filha, na invasão do roçado, na
obstinação do credor, na violência do sargento comandante do destacamento policial ou
do cabo delegado de polícia, poderoso como Ramsés II. Era tempo incrível em que o ciclo
das secas permitia as lavouras de nossa produção. Os rapazes terminado o ano de quartel,
regressavam, em maior percentagem, ao cabo da enxada. Incrível e verídico.
Desde que o compadrio passou à função financeira e a intuito político,
ter emprego e
acima de tudo vir morar na cidade, o instituto foi desaparecendo, diluído, desmoralizado
pela malícia das partes contratantes, os compadres que traficam com o velho título
sagrado de outrora. Agora é tão inútil quanto outra qualquer inutilidade histórica que
fora valiosa e boa.
No tempo da escravidão a técnica das negras era conseguir que sinhá-moça ou
sinhá-velha levasse o negrinho ao batismo. Havia sempre a idéia de "libertar na
pia", tão usual e comum e que estudei na História do Rio Grande do
Norte em face de escrituras de manumissão. O compadre escravo possuía da parte do
senhor a indispensável tolerância para a infalível crise de preguiça e cachaça. Meu
avô materno, o capitão Manuel Fernandes Pimenta, quando um escravo lhe pedia para ser
compadre, dava, quando podia, uma desculpa: - "Não posso não. Tome dois mil réis e
continue a ser sério e trabalhador. Todo escravo meu compadre dá para beber e
dançar!..." E dava mesmo.
O padre Cícero do Juazeiro, Cícero Romão Batista, deixou possivelmente uns dez mil
afilhados pelo nordeste e norte do Brasil. Um dia farão justiça ao velho sacerdote,
dizendo-o poder moderador de sua atribulada e calcinada zona. Seus afilhados, nalguma
porção mais tendenciosa ao sabor local e temporal, podiam ter sido ainda piores sem a
benção do padim que era para eles uma pessoa da Santíssima Trindade.
Toda vez que um direito consuetudinário, firmado logicamente na tradição que o tornou
costume aceito e natural, é transformado em obrigação jurídica, regulado em decreto e
funcionado em audiência legal, perde sua força espontânea que é a liberdade de
execução como hábito. Muitas das nossas leis de assistência rural eram regras
seculares do compadrio. Seriam de menor eficácia e de efeito em área mais reduzida. Mas
existiam e se não existissem não havia explicação para o equilíbrio entre população
e produção (equilíbrio relativo). Tornadas leis, o compadrio abandonou, como o touro
reprodutor que se nomeou funcionário público, o campo de ação tradicional que a
jurisdição coerciva.
O compadre. Leude du Chef, antrustion du Roi, sob o mundiun do compadre
rico, daria péssimo soldado vulgar na mesnada, rebaixado de fidel a mercenário.
Somente em situações que se tornam psicologicamente raras é que o compadrio, real e
velho, mantém sua soberba fisionomia na servidão jubilosa de que falava Ruskin.
O elemento influenciador era o liame sagrado, instituindo uma espécie de adoção do
pobre pelo rico. O compadre figurava na família sem lugar certo mas com a legitimidade
funcional que o título lhe dava. Era bem um cognato que participasse de ambos os lados,
masculino e feminino, sem que lhes possuísse o sangue e o estado social.
Esse compadrio, compadrazgo, foi realmente instituto social por todo continente
americano. Juan B. Ambrosetti, falando sobre Brasil, Argentina e Uruguai, informa: - El
compadrazgo, entre aquella gente, tiene una gran importancia: es uno de los vinculos más
sagrados que pueden unir a dos personas, y en mucho casos de la vida, alli en medio del
desierto, este lazo moral es lo único que puede oponerse al egoísmo innato tan
desarrolado en las sociedade semiprimitivas.
Chegavam a requintes de evitar palavra feia. Entre compadres no es permitido, y se
reputa grave falta, el pronunciar palabras obscenas, y si alguno lo hace inconscientemente
debe pedir desculpa al outro, so pena de un disgusto serio a causa de hacer poco caso del
sacramento sagrado que los une.
Muitas vezes assisti no sertão o valimento deste título sagrado de compadre posto à
prova na intervenção pacificadora entre animos exaltados pelo álcool ou política. A
fórmula era quase sempre a mesma: - Compadre! Meu compadre! Me atenda! Não me falte,
compadre! Podia desarmar o compadre turbulento e levá-lo para fora do local da
discussão.
Ambrosetti semelhantemente registra: - Un compadre puede exigir del outro lo que no se
puede conseguir por otros medios, como, por ejemplo, el hacerle abandonar una pulperia
entando borracho, o que cese una riña que puede concluir en puñaladas, etc., sin mengua
de su honor, puesto que el sacramento está sobre todo.
Era o intermediário clássico em questões sérias, avisos delicados, envolvendo
pontos de honra. Os próprios irmãos podiam excusar-se da missão mas recorria-se ao
compadre. Você, como é compadre dele... Estava credenciado o embaixador e
plenipotenciário.
A distância não enfraquecia a reciprocidade obrigacional do vínculo. Com dezenas ou
centenas de léguas separando-os, os compadres estavam no mesmo ambiente de mútua defesa,
de solidariedade, no mínimo, no dever irrecorrível de defender o ausente acusado em sua
presença. Não me fale de um compadre meu na minha frente! Tem defeitos mas é meu
compadre e tenho que punir por ele. Punir, no sertão, é pungar e não castigar. Puna
por mim, tenho que me puna, são frases usuais.
A ligação do casal com o filho na pia batismal sagra para sempre o solidarismo popular.
A criança estende sobre todos seu prestígio dívino. Henry Koster anotou nos sertões do
Rio Grande do Norte e Ceará em 1810 que o sertanejo chamava comadre à cabra que
dava leite para o filho. Quanto mais que o fizera cristão. Outrora, voltando-se do
batizado, a madrinha entregava o afilhado à mãe, que não devia assistir à cerimônia
dizendo, num cerimonial: -Comadre, aqui lhe entrego esta criança que levei pagão e
lhe trago cristão! E, já reposto no colo maternal, a criança recebia a primeira
benção dos padrinhos.
A minha madrinha-de-vela, dona Alexandrina Barreto Ferreira Chaves, naquele longínquo
maio de 1899, disse a fórmula tradicional ao passar-me para os braços da minha mãe.
Nenhuma outra religião pensara em criar o compadre e a comadre em ação desta afinidade
prodigiosa. Não havia, em Grécia e Roma, batismo e sim a mera imposição do nome diante
dos deuses lares pela voz do pai-de-família. Seguia-se a integração do párvulo na
família pela cerimônia da Anfidrômia, fazendo-o rodear o fogo do lar. Os padrinhos são
católicos e o compadrio uma natural projeção sagrada e lógica embora sem fundamento
canônico. Criou-se o vínculo porque era impossível não haver parentescos entre os dois
casais ligados pela criança, centro de interesse comum.
Gregos e romanos tinha o paranymphus (pará, junto, nymphe, noiva) em
cousa alguma lembrando o padrinho, mesmo nos casamentos. Eram três rapazes que tivessem
pais vivos, encarregados de acompanhar a noiva até à casa do esposo. Na Grécia tinham a
administração da economia do banquete e guardavam o leito da nova desposada. Nenhum
título, nenhum direito, nenhuma conseqüência posterior. Era mais uma homenagem da
família aos amigos. Correspondia o paraninfo ao garçon dhonneur
contemporâneo. Na imposição do nome oficiava apenas o pai. Nada mais.
O compadre pode independer economicamente um do outro e subexistir o direito moral. Não
é o cliens romano. Pode residir em terras próprias e ser igual financeiramente ao
seu compadre. Há sempre, em razão ideal, a igualdade de condições psicológicas para
pô-los à vontade no momento da intervenção ou do pedido de auxílio.
Todos os descendentes das velhas famílias do interior do Brasil, em qualquer ponto do
território, sabem da velha importância capital para um fazendeiro, senhor de engenho,
chefe político, representada pela massa dos compadres. Era a amplificação da família e
muito do poderio eleitoral repousou na base do compadrio feliz em servir o chefe.
Não é de menor curiosidade o fator econômico ser ou não presente. Mesmo para os
pobres, vivendo nas terras ou fora das propriedades, o típico era ter o compadre como uma
garantia, uma custódia, um reforço decisivo e não um elemento presente de auxílio
financeiro. Naturalmente milhares de compadres eram ajudados pelos seus compadres ricos
mas esta condição não caracterizava tipicamente o instituto do compadrio.
Para os maus-compadres, egoístas, injustos, invejosos, a literatura oral possui contos e
anedotas abundantes no castigo fatal inevitável.
As relações entre o compadre rico e a comadre pobre mereceram a precaução de um tabu
proibitivo. As relações sexuais eram danadas e constituíam crime horrível.
Há o fogo do compadre e da comadre, espécie de boitatá, dois fachos luminosos e
azulados que correm, dividindo-se e juntando-se consecutivamente, até o alvorecer. Juan
B. Ambrosetti informa na região misionera do Brasil e Uruguai: - Si los
compadres, olvidando el sacramento sagrado que los une, no hicieran caso de el, faltando
la comadre a sus deberes conyugales com su compadre, de noche se transformarán los dos
culpados en Boi-tatá, es decir, en grandes serpientes o pájaros que tienen en vez de
cabeza una llama de fuego. Estos se pelearán toda la noche, echándose chispa y
quemándose mutuamente hasta lá madrugada, para volver a comenzar la noche siguiente, y
asi Per Secula Seculorum, aun después de muerto (Supersticiones y
leyendas, Buenos
Aires, s.d.).
Um conto moral adianta o assombroso castigo. Um compadre namorava a comadre e sonhou que o
diabo o levara ao inferno e ia mostrando as instalações destinadas aos diversos tipos de
pecados. Para os assassinos, para os incestuosos, para os padres de má-vida, para os
ricos sem coração, e o compadre ia ouvindo. Súbito o demônio indicou-lhe um
instrumento de tortura tão repugnante e horrível que o nosso homem estremeceu,
apavorado. Para quem é esta punição tremenda? Para o compadre que namora a
comadre! O herói acordou suando gelado e deixou a pretensão comadresca.
Há, com maior ou menor importância social, decorrente do ciclo de São João, um
compadrio criado durante estas festas. Não sei de sua existência em Portugal ou Espanha.
Até prova em contrário será copyright by Brazil. Pertence ao quadro das Joking
relationships.
Os candidatos, rapaz e moça ou ambos do mesmo sexo, ficam cada um de um lado da fogueira
acesa de São João. E declamam, alterna e por três vezes, a fórmula:
a) São João disse...
b) São Pedro confirmou...
a) Que nós fossemos compadres...
b) Que Jesus Cristo mandou!...
Cada vez que falam trocam os lugares. Na terceira vez abraçam-se gritando: - "Viva
São João e vivamos nós, compadres!". A fórmula compreende igualmente a
constituição de primos, noivos, padrinhos, madrinhas, etc. É uma legítima e
tradicional criação de parentés à plaisanterie, como classificava Marcel Mauss.
Nesta classe existe em Portugal uma série de compadrio que não teve repercussão no
Brasil.
Jaime Lopes Dias, Etnografia da Beira, VII, informa que no Dia dos Santos,
(Todos-os-Santos, 1º de Novembro) consagrado aos "magustos" que é a refeição
campestre de castanhas assadas e vinho, "Rapaz ou rapariga que encontre uma castanha
afilhada (pegada a outra mais pequena), oferece-a com um copo com vinho, se é rapaz,
a uma rapariga, e, se é rapariga, a um rapaz e pergunta-lhe: - Como te chamas?: - Raminho
de bem querer. Abraçam-se em seguida e dizem: - "Seremos compadres firmes, até
morrer". E depois dividem a castanha e bebem o vinho pelo mesmo copo".
Em carta, 03/08/1953, Jaime Lopes Dias falava-me ainda das "Quinta-feira de
compadre" e "Quinta-feira de comadres" nas duas semana anteriores ao
Carnaval. Explica-me, em carta de 10/08/1953, que o processo deste compadrio é o
seguinte: - "Escrevem num pequeno papel o nome de cada um do grupo. Os dos homens
são metidos num chapéu, num cesto, em qualquer recipiente, e das mulheres noutro.
Extraem um bilhete com o nome de um homem e em seguida outro com o nome de uma mulher. As
pessoas, que os bilhetes dizem respeito, ficam compadres. O compadre fica obrigado a dar
as amêndoas pela Páscoa da Ressurreição à comadre, e esta a retribuir com um pão de
ló no Domingo de Páscoa!"
Gastão de Bettencourt, por sua vez consultado, diz-me em carta de 19/08/1953: -
"Sobre compadres. Temos os compadres de "mão posta", aqueles a quem se
pede a benção ("sua benção padrinho" "Deus te faça um
santinho" ou "Deus te abençoe meu afilhado"), que são os de batismo ou da
crisma. Os compadres do vime (no Alentejo e não sei se noutras partes mais), que
são um João e uma Maria, que na noite de São João passam por uma vara de vime aberta,
uma criança herniada dizendo: - Maria, em louvor de Santa Maria e do Senhor São João,
tome este menino quebrado e dê-me para cá um são". E ela: - "João, em
louvor, etc...(os mesmos dizeres). Há também no Alentejo, os compadres do Carnaval,
escolhidos nas duas quintas-feiras que antecedem Domingo de Carnaval. No 1º, dos
compadres, no 2º das comadres. Nesses dias que são chamados de compadres e de comadres,
reunem-se os moços de 23 anos para a escolha dos futuros compadres os quais saltarão as
fogueiras de São João juntos". São os dois depoimentos portugueses.
Na Argentina (Orestes di Lullo, El folklore de Santiago del Estero, 60) há El
encuentro de las comadres na quinta-feira antes do Carnaval, festa exclusivamente
feminina. Dois grupos, com acompanhantes, encontram-se sob arcos floridos. Bebem, comem,
cantam, bailam e jogam a "pandorga" (jogo de baralho) tudo entre mujeres
nomás.
No Chile do compadre de ahijado há o compadre de mamo o de boca. Diz um
para outro camponês:
- Quiere usted ser compadre conmigo?
- Si.
Pues compadres seremos en esta vida y en la otra, y en el valle de Josafat nos
encontraremos y saludaremos.
Podem arrepender-se dentro das primeiras vinte e quatro horas. Decorrido este tempo o
vínculo está formado e tão sólido quanto el compadrazgo de ahijado. Há as
mesma proibições sexuais e a mesma crítica feroz popular contra os insubmissos à regra
consuetudinária.
A curiosidade maior é o casamento do compadre com a comadre (morto o afilhado). Só se
pode realizar com os nubentes em trajes menores, com freno y mascando pasto e ambos
de quatro pés no solo. Assim um casal em Salamanca sujeitou-se ao matrimônio, com freios
na boca, o homem de ceroulas e a mulher de anágua e de gatinhas na hora do cerimonial.
Dirá do conceito de animalidade que é tido o casamento, mesmo permitido, de comadre e
compadre.
Só o simples fato de constituir-se alguém compadre é bastante para afastar a
possibilidade do pecado. No Chile, escreve Vicuña Cifuentes, ocorre identicamente.
"Este compadrazgo "de mano" sirve muchas veces para alejar sospechas de
malas relaciones entre personas de distinto sexo. Al autor le tocó presenciar uno de
estos casos".
Esta tradição, de fiel e exigente cuidado em Espanha e Portugal, trouxe para a terra
americana a repulsa formal ao ajuntamento carnal dos compadres. Numa denunciação de 17
de agosto de 1591, Pauloa dAlmeida acusa o senhor de engenho Fernão Cabral de haver
tentado amorosamente a uma irmã da denunciante e duas vezes comadre do denunciado. Mais
claro é o texto daquele final do século XVI:
"e denunciando disse que averá três anos pouco mais ou menos que sua irmã Luisa
dAlmeida molher de Joam dAlmeida disse a ela denunciante que Fernão Cabral de
Taíde dentro na sua igreja de Jaguaripe a cometera para ter com ela ajuntamento carnal
desonesto e que ela lhe respondera que atentasse que era ele seu compadre duas vezes
e que lhe levara a pia um seu filho a batizar dela e o dito Fernão Cabral lhe respondeu
que tanto montava ser comadre como não no ser, e que dizerem ter cópula com comadre é
maior pecado que com quem não é comadre isto erão carantonhas que Qua de fora lhe
queriam por, e que isto lhe contou a dita sua irmã mostrando se muito queixosa
dele..." Primeira visitação do Santo Ofício às Partes do Brasil,
Denunciações da
Bahia, 1591-1593, (São Paulo, 1925, p. 352).
Esse "horror ao incesto" explica a sugestiva figura do canereno no
"Batuque de São Paulo", Alceu Maynard Araújo (Documentário
folclórico paulista, 11) registra: - Há mesmo uma figuração coreográfica chamada pelos
batuqueiros "granchê", "grancheno" ou "canereno", na qual o
pai não dança com filha, porque é falta de respeito dar umbigada, então
executam movimentos que nos fazem lembrar a coreografia da "grande chaine" (grande corrente) do bailado clássico. (Granchê é mesmo deturpação dos vocábulos
franceses, muito usados na dança da Quadrilha). Evitam o "incesto"
executando o "cumprimento" ou "granché", "pois é pecado (sic)
dançar, (e a dança só consiste em umbigadas), nos seguintes casos: pai com filha,
padrinho com afilhada, compadre com comadre, madrinha com afilhado, avó com neto
ou batuqueiro jovem". Se porventura, por um descuido, um batuqueiro bate uma umbigada
na afilhada, esta lhe diz: "a benção padrinho". O padrinho mais que depressa
vem-lhe dando as mãos alternadamente até perto da fileira onde estão os batuqueiros,
sem batucar. Esta atitude tomada na dança do batuque, para os "folcloristas"
sem preparação sociológica é traduzida apenas como "dança de respeito". Mas
o "cumprimento" examinado à luz da antropologia cultural mostrará que os
batuqueiros fazem o "granché" porque este evitará o incesto, o que temem
praticar".
O que se verificou entre padrinho e afilhada ocorre com as demais pessoas ligadas pelo cognatio
espiritualis.
Pesavam na memória popular as tradições da proibição do amor entre compadre e
comadre. Ainda no século XV escrevia Fernão Lopes, Crônica de D. João I,
reproduzindo o discurso do jurisconsulto João das Regras nas Cortes de Coimbra (3 de
março de 1385) lembrando o direito consuetudinário vivo no século XIV. Sobre os
impedimentos do infante dom Pedro de Portugal de desposar Inês de Castro havia o compadrio
inarredável. "Mas há outro impedimento, além dos outros, que o papa não dispensa
em nenhuma circusntâcia e por virtude do qual Da. Inês nunca podeira ser mulher de
dom
Pedro. E a razão é esta: Sendo el-rei dom Pedro infante casado com
dona. Constança,
houveram ambos um filho que chamaram dom Luís, e quando ordenaram de o batizar foi
dona
Inês madrinha deste moço, e comadre de el-rei dom Pedro, salvando-a depois
dona
Constança por comadre, e humilhando-se a ela, como é de costume. Ora vede como podia
el-rei ser lídimo marido de sua comadre, madrinha de seu filho? Certamente não podia
ser".
Cidade do Natal, RN, Brasil.
(CASCUDO, Luís da Câmara. Em Estudos e
ensaios folclóricos em homenagem a Renato de Almeida) |
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