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Junho 2001
Ano III - nº 34

PEQUENO RESUMO HISTÓRICO SOBRE A ORIGEM DA
IRMANDADE DO DIVINO ESPÍRITO SANTO NA BAHIA

A Irmandade do Divino Espírito Santo, foi fundada em 18 de fevereiro de 1770, por portugueses do arquipélago dos Açores, onde esta tradição medieval se preservou e foi trazida para o Brasil.

Em várias regiões do Brasil iremos encontrar manifestações de adoração ao Divino Espírito Santo, lugares como Florianópolis (SC), Itu (SP), Parati (RJ), Ouro Preto (MG) e na Bahia, que além de Salvador, na Igreja Matriz de Santo Antônio Além do Carmo, teremos o Recôncavo (Cachoeira, Maragogipe e São Gonçalo dos Campos), e ainda pelo interior como Andaraí, Rio de Contas, Ituaçu, Barra da Estive, Porto Seguro, Jacobina e Juazeiro.

Este modo de adoração à Terceira Pessoa da Santíssima Trindade nasce na Idade Média, com Santa Isabel, rainha de Portugal, que sendo influenciada por pregadores católicos (abade Joaquim de Fiori), que querendo justificar o poder real como dado por Deus, porque todo poder vem de Deus, e que em breve iríamos viver uma terceira fase da humanidade, a fase do Divino Espírito Santo, sendo a primeira a Fase do Pai e a segunda a do Filho, Jesus Cristo; com este pensamento rapidamente o culto à Terceira Pessoa da Santíssimo Trindade logo se propaga.

Em Salvador, os irmãos do Divino, como ficarão conhecidos, irão trabalhar pelas pessoas que perderam sua liberdade em decorrência de dívidas, e para isso irão tirar esmolas durante as seis semanas que antecedem à festa de Pentecostes - que é a descida do Divino Espírito Santo sobre os apóstolos e a Virgem Maria, cinqüenta dias após a Páscoa. Esta festa já existia antes de Cristo, no judaísmo, e ainda é comemorada pelos judeus, só que com outro significado totalmente diferente do Pentecostes Cristão.

A tradição da libertação dos presos foi mantida em Salvador, e até hoje o Governo do Estado, através da Secretaria de Justiça e Direitos Humanos garante à Irmandade a manutenção dessa tão salutar tradição.

Até meados do século XIX, o Imperador era um adulto, porém essa tradição foi desaparecendo para dar espaço à simplicidade e à pureza das crianças. Outras tradições também desaparecerem, como por exemplo os folguedos do Divino, que constituíam em uma espécie de carnaval depois da Páscoa, talvez um princípio da tão conhecida micareta, inclusive com o uso de máscaras e timbaus; a distribuição de comida e bebida, principalmente carne de boi, pão e vinho, nos dias da festa; um fato colaborou com o fim destas festa profana, a proibição oficial, imposta por ordem do Presidente da Província, no início do século XIX, por causarem diversas arruaças.

A Irmandade do Divino Espírito Santo terá sempre em seus quadros, pessoas de todas as qualidades, pobre e ricos. Durante muitos anos a presença de irmãos portugueses, principalmente os açorianos será muito grande. Muitos irmãos irão entrar para a história da Bahia, como por exemplo: Carneiro Ribeiro; monsenhor Elpídio Tapiranga; doutor Clímaco Damásio (primeiro governador republicano); professor Torquato Bahia; Eduardo Carigé, escritor; doutores Manuel Devoto e Lomanto Junior (ex-governadores); militares graduados; diversos advogados e médicos; diversos cônegos, entre eles: Clarindo de Souza Aranha, Hildário Florêncio de Araújo; Turíbio Tertuliano Fiusa, Joaquim Tito Galrão, João Gonçalves da Cruz, monsenhor Basílio Pereira, cardeal da Silva, cardeal Brandão Vilela.

Atualmente a Irmandade mantêm vivas as tradições recebidas, sendo uma luta muito grande para que não desapareçam da Bahia. Ver o enigmático menino Imperador desfilando pelas ruas do Santo Antônio Além do Carmo, no dia do bando Anunciador, tradição mantida para lembrar a todos que na semana seguinte é festa do Divino; ver a saída dos Irmãos do Divino da Igreja Matriz de Santo Antônio em direção à Igreja da Venerável Ordem Terceira de Nossa Senhora da Conceição do Boqueirão dos Homens Pardos, no dia da festa, acompanhada de banda de música, para conduzir o pequeno Imperador à Igreja Matriz de Santo Antônio, onde deverá assistir a Missa Solene e, logo após, diante dos poderes constituídos (Igreja e Estado), libertar os presos, na simbologia que somente Deus nos dá a liberdade de vida.

A Irmandade do Divino Espírito Santo foi fundada em 18 de fevereiro de 1770, por um grupo de açorianos, onde as tradições medievais portuguesas referentes ao culto do Divino Espírito Santo foram preservadas e trazidas para o Brasil, e já no ano de 1765 andavam pela cidade fazendo os festejos do Divino, comandados sempre por um adulto que era chamado de “Imperador do Divino”. Somente em 1772 teve o seu Compromisso aprovado pela Mesa da Consciência e Ordens de sua Majestade, conforme consta na introdução do Compromisso da Irmandade aprovado em 14 de abril de 1934, pelo Arcebispo Dom Augusto Álvaro Cardeal da Silva.

A Irmandade do Divino Espírito Santo será, no seu princípio, uma referência da cultura açoriana na Bahia, cuja sua manifestação mais forte serão os folguedos do Divino, caracterizada em princípio pelo Irmão adulto vestido de imperador usando coroa de prata, lavrada para essa finalidade, sendo recebido na porta das Igrejas pelo vigário vestido com capa (pluvial) e com o cerimonial próprio para as autoridades, inclusive com aspersão de água benta. Outras manifestações características da festas do Divino, como por exemplo “tirar esmola nas portas com a bandeira”; distribuição de carne de boi, pão e vinho em grandes quantidades, e soltura de preso na Casa de Detenção, após o pagamento de sua dívida, serão também introduzidas nestes festejos.

A Irmandade manteve o seus rituais quase que inalterados durante esses 231 anos de história oficial, porém algumas coisas desapareceram ou simplesmente foram substituídas por outras, como por exemplo a figura do Imperador adulto por uma criança. Os rituais de se pedir esmola são outros, não mais usando o pedir de porta em porta com a bandeira em punho, e sim o uso de carnês.

O seu primeiro compromisso desapareceu dos arquivos da Irmandade, contudo têm-se notícias da existência de cópia no Arquivo Ultramarino, em Lisboa, porém encontra-se no arquivo da Irmandade o seu primeiro livro de contas de 1770 a 1889, que é uma fonte preciosa para elucidação de diversas questões referentes à presença açoriana na Bahia, e ainda têm-se os livros de Registro de Irmãos (1859-1998), bem como o compromisso, já citado, de 1934, sendo impresso somente em 1937.


(BRITTO, Ionan Galo Toscano de. Pequeno resumo sobre a origem da Irmandade do Divino Espírito Santo na Bahia, enviado em colaboração à Jangada Brasil)

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