Junho
2001
Ano III - nº 34 |
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As comemorações juninas tradicionais no
Brasil são um entrelaçamento de paganismo e cristianismo. Dificilmente serão
modificadas, pois a força da tradição já contando séculos, é influente e as
aculturações nem sempre se processam no sentido místico.
A fogueira de São João possui simbolismo profundo. É uma reminiscência do culto do
fogo.
Segundo os judeus, o fogo teve origem celeste.
Conta o Antigo Testamento que, estando no monte Sinai à espera que Deus lhe aparecesse,
Moisés viu arder em chamas, espontaneamente, a sarsa que cobria a terra. Esse fato é
conhecido como "a sarsa ardente".
Como holocausto, foi o fogo usado por Abraão quando, por ordem de Jeová, preparou seu
filho Isaac para o supremo sacrifício.
Considerado pelos antigos como o mais nobre elementos da natureza, (eram eles em número
de quatro: terra, água, fogo e ar) o fogo representava a imagem viva do sol e, como este,
possuía culto próprio. Teve altares, sacerdotes e sacrifícios.
Para os persas, o fogo era "um ser celeste, chefe do mundo puro e filho do grandes
deus Ormozd e o seu culto é ainda encontrado entre os quebros e parsis. Zoroastro
exigia que se lhe conservasse a pureza proibindo até a incineração dos mortos".
Os gregos distinguiam nele duas personalidades distintas, às quais chamavam Hefaistos
o fogo industrial Héstia a deusa do fogo. Na Trácia, os sacerdotes
do Caucaion só praticavam o sacrifício do fogo. Enquanto Orfeu diz as palavras de
iniciação a um discípulo, filho de Delfos, "os sacerdotes giram em volta do altar
cantando o hino do fogo".
Segundo Orfeu, "sóis, estrelas, terras e luas, cada astro tem a sua alma e todas
brotaram do fogo celeste de Zeus e da luz primitiva (...) a beleza celeste
encarnar-se-a na carne das mulheres, o fogo de Zeus no sangue dos heróis..."
Ram, moço possuidor de sabedoria e bondade, chamado pelos druidas "o que
sabe" e pelo povo "o inspirado da paz" instituiu o
culto do fogo sagrado, abolindo para sempre os sacrifícios humanos. Os antepassados
seriam invocados "em cada lar pelo esposo e pela esposa unidos em uma só prece, em
um mesmo hino de adoração, junto ao fogo que purifica"
Entre os druidas formaram-se dois partidos: os que aceitavam o sacrifício humano (como
único meio de reinarem) e os que se opunham a tal barbaridade e eram dirigidos por Ram.
Possuía cada tribo seu sinal de reunião, que, "sob a forma de um animal, simbolizava
as suas qualidades preferidas". Esses sinais eram apostos à entrada de seus castelos
de madeira, dando origem aos brasões. Os citas, como divisa escolheram o Touro (Thor),
que "simbolizava a força brutal e a violência". Ram e seus partidários
escolheram o Carneiro, símbolo da humildade e obediência.
Para evitar uma guerra que iria destruir a raça branca, após um sonho, em que recebe o
"fogo sagrado do Espírito Divino" e a "taça da vida e do Amor" que
passaria, também em sonho, à druidisa que iniciava um sacrifício humano, Ram obedece a
ordem que recebe de seguir para o Oriente. "O povo moço e ávido de aventuras"
seguiu-o com entusiasmo. Durante vários meses foram acesas fogueiras sobre as montanhas:
era o sinal da emigração em massa para todos os que quissessem seguir o Carneiro.
Ram ou Rama, segundo os orientais, tornou-se "pela sua força, pela sua bondade, pelo
seu gênio o senhor da Índia, e o rei espiritual da terra". Fora-lhe oferecido pelos
reis e enviados dos povos o poder supremo. Rama, após novo sonho, recusa, pedindo apenas
que observassem suas leis, pois sua tarefa era finda. Comunicando que se iria com os
irmão iniciados para uma montanha do Airiana-Vaeja, apostrofou: - "De lá velarei
por vós. Vigiai o fogo divino. Se o deixardes extinguir eu reaparecerei entre vós, mas
como juiz e vingador".
No culto da Agni, deus do fogo, há um hino do Rig-veda (Coleção de mais de mil hinos. O
Rif-Veda pertence ao grupo dos quatro livros canônicos dos Vedas) para o ato de
oferecimento de lenho:
"Aceita, ó Agni, o lenho que venho te oferecer; - aceita meu serviço e escuta minha
oração".
"Com este pobre lenho, ó Agni, eu te adoro, tu, filho da força, domador de
potros..." etc.
Entre os sacerdotes egípcios havia a prova de fogo para os noviços. Consistia em
atravesar uma fornalha ardente. O aspirante reconhecia ser um verdadeiro suicídio,
porém, depois de atravessá-la com rapidez, passando por uma vereda através das chamas,
verificava que tudo não passava de uma ilusão de ótica, "criada por madeiras
resinosas entrelaçadas em quincôncio sobre grelhas. Era o fogo também usado nas
cerimônias religiosas.
Na Caldéia os magos evocavam o fogo vivo, em que os deuses e os demônios se
moviam".
Os romanos imitaram os gregos cultuando o fogo sob dois aspectos: Vesta (a Héstia
grega), simbolizando a alma dos antepassados, personificava o lar doméstico ou público,
e Vulcano, o Hefaistos dos gregos.
Em Roma foi célebre o colégio das vestais, fundado por Numa, com o fim de preparar
jovens sacerdotisas de Vesta. O culto romano a esta deusa foi um dos principais. Nos
templos a ela dedicados e nas casas particulares era conservado o fogo à porta da
entrada. Chamava-se o local estabulum Veste (morada de Vesta), donde a designação
vestíbulo até hoje usada.
Na umbanda, "a queima da pólvora e do fumo são rituais que se relacionam
intimamente com o fogo, que o homem erigiu em culto, desde o momento em que descobriu suas
propriedades, iluminando as noites, aquecendo as cavernas e afugentando as feras. O fogo
permitiu cozer os alimentos e fundiu os metais de suas primeiras armas; por essas razões
foi considerado como um presente divino, tanto mais por relacionarem-no com o sol, que
iluminava e aquecia o dia e fazia nascer e frutificar os vegetais. O culto do fogo ainda
subsiste.... nas culturações africanistas e indianistas do Brasil".
"Pela queima de pólvora procuram-se conjurar forças contrárias afastando-as, quer
pela luz, quer pela explosão, agindo como meio de limpeza, junto a pessoas sob efeito de
forças negativas, numa potencialização para desagregá-las".
O Novo Testamento cita as "línguas de fogo", que descendo do céu, se colocaram
sobre as cabeças dos apóstolos antes da pregação do "Evangelho".
Encontra-se na igreja católica romana e na igreja grega ortodoxa não o culto do fogo,
mas o seu emprego nas velas que acendem durante as cerimônias, nas lâmpadas votivas e no
turíbulo destinado a incensar a divindade, os santos e as autoridades eclesiásticas. Há
também a bênção do fogo novo realizada solenemente no Sábado Santo.
Crepitando em fogueiras, produzindo fumaça, o fogo favorece o envio de sinais a grande
distância.
As fogueiras preparadas em homenagem aos santos de junho têm origem naquela que Isabel,
esposa de Zacarias acendeu para avisar a Maria, esposa de São José, a chegada de João
Batista.
Outra versão é que as fogueiras juninas são "reminiscência inconsciente do fogo
sagrado das religiões pagãs" (Ver Migalhas folclóricas, Mariza
Lira).
Pela história sabemos que nos países de inverno rigoroso a entrada do verão, que se
realiza no mês de junho, era comemorada festivamente. Um dos números das festas
consistia em grandes fogueiras, nas quais se lançavam produtos da terra e também animais
vivos. Hoje, felizmente, jogam-se às fogueiras apenas produtos da terra, mas há quem,
imprudentemente, pise os carvões em brasa, na crença de que não se queimará.
Na Índia isto é prerrogativa dos faquires. O interessante é que, no Brasil, essa
crença persiste até o dia em que o devoto de São João é recolhido, com queimaduras
graves, ao hospital mais próximo (o que aconteceu, há anos, em Macaé).
Estará essa superstição ligada aquela existente na França segundo a qual o carvão,
resultante da queima da árvore do fogo de São João, dava sorte a quem
possuísse e era
por esse motivo disputado pelo povo?
(Silva, Bê da. Em Boletim Comissão Fluminense de Folclore,
agosto de 1972) |
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