Junho
2001
Ano III - nº 34 |
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O BUMBA-MEU-BOI
PELO SÃO JOÃO |
Comunicação à Comissão Nacional de
Folclore, por Luís R. de Almeida da Sub-Comissão Baiana de Folclore
Como sabem os caros confrades, o bumba-meu-boi é um bailado popular dramático organizado
em cortejo e no qual as principais personagens variam de estado para estado. É um auto
brasileiro, único em sua espécie, sem igualdade e semelhança em Portugal e África.
Representação satírica onde conversam influências européias e negras, fundindo cantos
de pastoris, toadas populares, louvações, loas dos presépios, aparece no ciclo do Natal
até o dia de Reis.
Com essas considerações, o meu intento é registar um desses autos colhido por Eurico de
Macedo, no seu livro O Maranhão e suas riquezas, talvez escapado à Comissão
Nacional de Folclore.
Conta o mesmo autor que em Rosário, um hábil marceneiro modelador, em cada ano esculpia
em cedro um animal da fauna do Maranhão, que era levado nos primeiros meses do ano, em
animado festejo pelas ruas da cidade e pelas redondezas, ao som de cantos escritos e
musicados por outros artistas da pequena cidade ribeirinha do rio Itapecuru-Mirim e muito
agradavam aos assistentes. As músicas e os versos, assim como o animal variavam em cada
ano. Tratava-se de uma paródia da brincadeira de bumba-meu-boi, e talvez mesmo estimulada
para responder ao que fazia um outro rosariense, que também em cada ano com bastante
antecedência, preparava um boi de belbotine ou de veludo negro, ornamentado em
ouro e prata, organizando um festejo ruidoso e movimentado, com que trazia a cabeça
virada às crianças, aos moços e até aos próprios velhos por onde era levada a
caravana dos pândegos rapazes. Pois bem, esse inocente festejo culminava na noite de São
João.
O autor da brincadeira gastava bom dinheiro do seu e dos entusiastas do bumba-meu-boi,
porém, mais do que dinheiro, gastava ele o seu precioso tempo, em geral durante as
noites, organizando os modelos do vestuário dos comparsas, sempre novo em cada caso, e
bem representativo do que deviam exprimir na animada comédia.
Construindo em segredo, fora das vistas de todo o mundo para surpreender no primeiro dia
da festa, o boi, as vestes, a célebre burrinha, as roupas especiais da mãe Catarina e do
pai Francisco, passava o autor a recitar para um "escriba" os versos que
deveriam ser cantados em cada cena e por ele mesmo imaginados e metrificados. Seguia-se a
música, que deveria presidir, ensaiada sempre com a presença do mestre da banda local e,
depois de organizada a opereta, até à perfeição desejada, sairia para visitar os
maiores da cidade, entre os quais o negociante Heráclito Nina, o boníssimo Bostoque,
como o chamavam comumente, que recebia o boi e a caravana festiva sob o fogo de centenas
de buscapés, que levavam tempo invadindo os ares em todas as direções até espoucar
estrondosamente.
Ninguém recuava diante daquele fogo infernal e o boi teria que ser defendido custasse
mesmo, às vezes, e não raras, queimaduras aos acompanhantes de folguedo.
Atravessando o beco estreito, onde culminava a ofensiva do Bostoque sobre os corajosos
rapazes, então passava o boi a dançar em frente à casa desse importante homem durante
mais de uma hora, reproduzindo-se anualmente a mesma comédia.
Começados em maio, iam os folguedos até os fins das festas de São João, quando eram
repartidos os benefícios recolhidos dos assistentes, toda vez que a língua do boi era
extraída por pai Francisco.
Essa comédia tinha a seguinte explicação: Havia nos sertões da Bahia um fazendeiro
chamado João, que festejava esse santo ruidosamente, concedendo nesse dia aos seus
vaqueiros e agregados da fazenda todos os regalos e benefícios, em meio a fogueiras
numerosas, nas quais as guloseimas eram distrubuídas sem medida.
Entre os regalos oferecidos aos seus agregados e vaqueiros, contava-se uma matalotagem
especial, à custa de um erado, escolhido em cada ano para ser morto no ano seguinte, já
bastante gordo. Ora, os vaqueiros tinham para esse animal cuidados especiais, a fim de
poupá-lo às pestes e até ao mínimo carrapato ou berne, e daí resultava que ao ser
laçado nas vésperas de São João, estava roliço de gordo e a sua carne seria com
certeza a melhor.
De uma feita, foi procurado o nédio animal, e por mais que o vaqueiro batesse os campos,
não o encontrou, embora estivesse certo de o ter visto poucos dias antes. Os demais
vaqueiros da fazenda e, bem assim todos os vizinhos puseram-se à batida, interessados em
descobrir tão desejado boi, porém em vão o fizeram durante dois dias e voltaram à casa
grande para, com a maior mágoa, confessarem ao fazendeiro o fracasso de sua missão.
Estavam nas vésperas dos festejos de São João e, ao mesmo tempo, do aniversário do
patrão e não se teve outro jeito que o de lançar mão de qualquer outra rês para a
matalotagem desejada.
Um caboclo, porém, que havia visto o preto Francisco às voltas com o boi poucos dias
antes, relatou esse fato aos companheiros, de que resultou um inquérito, a prisão de
Francisco, sua confissão de autor da morte do precioso boi, apenas atenuando a sua grave
falta com a alegação de o ter feito para satisfazer o desejo da companheira a qual
achando-se grávida, quisera comer a língua do animal... Ele, pois, cometera tão feio
crime porque tinha muito amor à companheira e, não menos ao filho que deveria vir ao
mundo dentro em pouco.
O castigo foi severo, não faltando a pai Francisco boas surras de relho, segundo o
costume daqueles tempos.
No ano seguinte lembraram-se os vaqueiros do ocorrido e organizaram uma brincadeira, tendo
por fim ridicularizar pai Francisco.
Fabricando um boi de pano comum, em forma de carapaça e cágado, com uma cabeça de boi
reconstruída sobre uma caveira real, reproduziram todas as cenas, desde a caçada ao
animal nos campos em auxílio dos caboclos até a prisão de pai Francisco, representado
na comédia por um preto com um cavanhaque feito de pêlos de rabo de boi, e de mãe
Catarina com uma enorme barriga em vésperas de dar à luz.
Tão bem representaram a farsa que o patrão achou muita graça e recompensou aos
criadores do inocente divertimento e crítica.
Quem não gostou foi o pai Francisco...
Nessa fazenda, todos os anos, sob os auspícios do fazendeiro, a brincadeira era renovada
cada vez com maior entusiasmo e daí se foi propagando a todo o sertão do Brasil com o
bumba-meu-boi de hoje, tão conhecido de todos.
[1950]
(ALMEIDA, Luís R. de. O bumba-meu-boi pelo São João) |
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