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Junho 2001
Ano III - nº 34

O REGATÃO E O CANOEIRO AMAZÔNICOS ALIADOS AO CAMINHÃO
E AO CHOFER SERTANEJO DESBRAVAM O BRASIL

Não se poderia deixar à margem, focalizando-se o artesanato existente nas diversas regiões do Brasil, a Amazônia.

A Amazônia é um caleidoscópio fabuloso, em tudo: a flora, a fauna, a geologia e a potamografía.

Na Amazônia, tudo é grandioso: desgraçadarnente, ali, só é pequeno o homem; porque é faminto e minado por endemias naturais diversas. Paradoxalmente, porém, esse molambo humano, que é o amazônico, é um forte, um corajoso e um indomável, porque enfrenta a morte todos os dias...

Nas atividades do homem da Amazônia destaca-se a figura pitoresca do regatão.

O regatão é um mascate, um negociante ambulante, exercido geralmente pelo turco, sírio ou libanês. Atualmente o nordestino tem-no, também, exercido.

O regatão estabelece-se na foz dos grandes rios; ali, ele endhe os batelões de cachaça, querosene, sal, charque, fósforos, fumo, munição para armas de fogo, quinquilharias, fazendas ou tecidos ordinários, roupa-feita para homens e mulheres, agasalhos, cobertores e mil bugigangas outras.

Lotados, os batelões, eles se assemelham a verdadeiros bazares, flutuantes. E o regatão sobe os rios à procura da freguesia, composta de seringueiros, essa população infeliz que tenta a sorte nos socavãos dos iguarapés, furos e à margem dos afluentes do rio Amazonas.

O comércio do regatão é à base de troca: (troca as suas mercadorias por bolas-de-borracha, peixe-salgado, rede de tecum, chapéu feito de fibra de palmeira, peneiras, abanos, e outros utensílios produzidos pelo artesanato, do inferno verde, que é a Amazônia... Em verdade, o dinheiro não circula naquelas paragens edêmicas...

Quando o regatão desce o rio, regressando à sede, os batelões vêm cheios de produtos feitos por aquelas mãos calosas e doentias dos párias infelizes, habitantes da Amazônia.

O regatão é o único representante da civilização do século XX, que esses infelizes brasileiros vêem durante a sua desgraçada existência...

O regatão é um elemento civilizador: depois de negociar com os seus fregueses simplórios passa a contar as "novidades da cidade", dando notícias de tudo. Leva jornais e lê as notícias principais. Quase sempre o regatão toca violão, sanfona e pandeiro; e canta música de carnaval, distraindo esse povo semi-bárbaro..., para depois despedir-se.

O regatão é acoimado de esperto e de mantenedor da sua ignorante freguesia. Pode ser que a denúncia proceda em parte; mas ele é o professor de civilização para aquela população semi-bárbara. Quanto valem esta lições de civilização? Tome lá e tome pra cá... Estão pagos...

Durante muitos anos ainda, o regatão será o elemento civilizador da Amazônia. Até que a civilização chegue por lá...

Para o regatão todo mundo é gumbrate ou batricio, corruptela de compadre e patrício.

O regatão tem um competidor odioso: o "barracão", que é o armazém onde os seringueiros se suprem; e em cujas gavetas eles estão permanentemente presos. De modo que esses infelizes párias são mal vistos pelos gerentes do "barracão", quando sabem que eles negociaram com um regatão, desviando bolas-de-borracha. O dono do "barracão" e o coronel Fulano, povprietário dos seringais, residente em Manaus ou em Belém do Pará, ricaço que vive da desgraça e da saúde dos seringueiros, que se suicidam nos ínvios seringais, para fazerem a felicidade dos coronéis, que moram em palácios suntuosos, rodam sobre automóveis de luxo e educam os seus filhos em Paris e Londres...

Diga-se de passagem que o coronelismo é um dos doze flagelos que atrofiam o progresso do Brasil: - fome, doenças, mortalidade, analfabetismo, politicalha, impatriotismo, proletarização da classe média, pauperismo da classe inferior, êxodo rural, mobilidade populacional excessiva ditada pela miséria, sobretudo do Norte e do Nordeste para o Sul, e ufanismo exagerado.

Na Amazônia, o sistema de transporte do homem amazônico difere do resto do Brasil, porque a comunicação e a integração social se fazem, grosso modo, por meio fluvial. As estradas da Amazônia são líquidas e o meio de transporte mais usado é a canoa, que se faz de um tronco de uma árvore abatida, previamente, de madeira leve, sendo cavada no cerne do tronco e modelada. Quem dirige a canoa é o canoeiro, que movimenta a rude embarcação fluvial por meio do remo, instrumento de madeira leve que consta de uma parte roliça e de outra espalmada, e que funciona como alavanca interfixa. Graças ao remo e ao músculo do canoeiro, as canoas são transportes velozes e algo seguros. Desde as ubás, canoas dos indígenas, até as gaiolas, verifica-se uma evolução gradativa deste sistema de transporte na Amazônia. Em regra, a canoa é conhecida pelo nome de montaria ou igarité, nas zonas amazônicas. Somente a montaria ou o igarité é que se embarafusta pelos labirintos dos furos, igarapés, igapós e igarapás, sem se perderem naquele inferno verde.

O canoeiro da Amazônia e o regatão são dois profissionais que se irmanam em prol da prosperidade da Amazônia, descobrindo-a dia-a-dia...

Esses dois profissionais do progresso da Amazônia, sem o querer, estão escrevendo no folclore brasileiro páginas imarcescíveis, que nunca se apagarão da nossa mente afetiva.

Guardadas as devidas proporções, a canoa e o canoeiro realizam na Amazônia aquilo que, no Centro-Oeste do Brasil, realizam o caminhão e o seu chofer: - descobrem para o Brasil um Brasil novo não previsto pelos brasileiros que caranguejam pelo litoral, porque a bacia do rio Amazonas é a mais vasta do mundo com os seus 6.500.000 de quilômetros quadrados de área, dos quais 4.750.000 pertencem ao Brasil! É nesse mundo hidrográfico e vegetal que se localiza a fabulosa Hiléia Brasiliense, tão cobiçada pela inveja internacional...

O Brasil precisa de menos políticos e mais de patriotas; para completar-se o descobrimento do Brasil, tarefa já iniciada pelos canoeiros da Amazônia e pelos caminhões e seus choferes, no Brasil central.

Nos atravessadouros largos e profundos dos rios e seus afluentes, à falta de pontes, intervém o gênio invertido dos canoeiros: conjugam duas ou três montarias, forram-nas com paus roliços à semelhança de assoalho, cercam-nas com varas e atravessam a gadaria incólume. A essa conjugação de montarias ou canoas chama-se ajoujos, balsas, barcas, etc., move-se empurrada por varas de pau flexíveis, ou por vela de pano ordinário, ou por roda d’água, quando sobe os rios.

O remo do canoeiro representa no seu símbolo rústico dois papéis: substitui a hélice acionadora da montaria e presta-se de leme para orientar a direção da canoagem. O canoeiro assenta-se na proa da montaria ou canoa de onde rema e de onde o remo funciona, também, de leme. No sistema de transporte fluvial pela canoagem, o gênio inventivo do canoeiro chega a impressionar ao observador sociólogo e ao folclorista.

* * *


Os caminhões que rodam pelos ínvios caminhos do Centro-Oeste do Brasil o fazem ao som de cantorias chistosas, alegres, improvisadas, alegóricas, destacando-se alusões à mulher sertaneja, com a sua beleza nativa. A rigor, no pára-choques lêem-se frases escritas à tinta branca enaltecendo as mulatas e as morenas do sertão ou criticando as estradas infames do interior, sendo algumas veladamente pornográficas.

Vejamos algumas frases que ornamentam o pára-brisas ou o pára-choques dos caminhões sertanejos, onde se revela a verve irresistível dos profissionais do volante:

A escola da vida não tem férias.
Mulher viúva é resto de defunto.
Mulher é bicho muito caro: barata só mesmo barata.
A mulher é como o diabo, porque tenta o homem.
A mulher é a maior riqueza que Deus deu aos homens.
Mulher e cachaça encontram-se em qualquer lugar.
Pelas estradas, conhece-se um bom governador.
Só a muilher é capaz de dominar o bicho homem.
Cura-se porre, cheirando o sovaco de mulher.
O beijo de mulher dá coragem ao homem.
Não se bate em mulher nem com uma flor.
Homem que apanha de mulher é "feminino".
Por que não se pode casar com mais de uma mulher, no Brasil?
Mais de uma mulher é bão?
A mulher mesmo feia é sempre mulher...
A mulher sertaneja é o "suco"!
A mulher pega em homem amado como só visgo...
Homem que se apaixona por mulher ruim é o mesmo que se viciar por cachaça.
A mulher conquista-se com presentes e carinhos...
Presentes de jóias caras fazem as mulheres entregarem-se aos homens.
Ciúme de mulher é como o micuim...
Mulher ciumenta é como a sombra: acompanha sempre o homem.
Quando dois homens disputam uma mulher, vence o caradura.
Quando duas mulheres disputam um homem, vence a que mais finge amar mesmo.
A mulher enrabichada torna-se "chata"...
O homem enrabichado parece um cachorrinho sempre atrás da dona.
Um homem apaixonado por uma mulher torna-se "chato"...
Uma mulher feia que não é amada, é uma espécie de assombração!...
Sem namorado, a mulher é automóvel sem buzina...
Mula-sem-cabeça, é o homem amar sem ser amado...
Aonde mora o amor do chofer? Nas estradas povoadas de morenas bonitas.
Por que as sertanejas adoram amar os choferes? Pela variedade de namorados.
O amor dos choferes é como a bola-de-sabão, porque acaba logo...
Qual é o melhor beijo de mulher? É o beijo roubado...
Cheiro de sovaco de mulher atrai os sexos...
Quem vive de recordação é museu.
Bofe só de boi, porque mulher feia é bofe intragável...
O homem que gosta de mulher feia e velha é bucheiro de mau gosto...
Pobre só tem a barriga cheia quando morre afogado...

* * *


A canoagem é fértil de aspectos pitorescos. Então, onde as estradas são líquidas e onde o transporte é fluvial, a canoagem entre as montarias e as gaiolas apresenta um painel imaginoso e pictórico, visto que algumas montarias, nas viagens mais longas, improvisam casebres de palha de palmeiras pondo os viajantes ao abrigo das intempéries: hospedarias flutuantes.

As barcaças fluviais têm uma tripulação reduzida, mas alegre, folclórica e operosa: o mestre, que é o comandante; os vareiros, que nas subidas dos rios e nas correntezas empurram as barcaças com as varas (já descritas) e que o fazem cantando ou improvisando cantigas folclóricas; e o cozinheiro, que prepara a gororoba (comida mal feita). Nas noites enluaradas e frescas os vareiros, e mesmo os viajantes, transformam aqueles ambientes bucólicos em recantos oníricos, ao som de música e de cantigas folclóricas.

Um aspecto pitoresco na canoagem fluvial é a existência da carranca, que é um amuleto colocado em ponto alto do mastro, na proa, destinado para espantar o azar. A carranca é uma caveira de um boi, geralmente; outras vezes, esculpe-se o rosto de uma mulher, como amuleto mulherengo... Barçaça sem carranca é azar na certa. Conta a lenda da canoagem que viajava numa barcaça, sem carranca, o padre Paulo Afonso em companhia de uma moça (seria amor?...) e, em dado momento, a barcaça foi tragada por uma abismal cachoeira; e todos morreram. Eis a origem do nome da fabulosa Cachoeira de Paulo Afonso. Daí por diante ninguém viajou mais sem o amuleto da carranca...

* * *


Observa-se, também, entre as canoas, barcaças e similares nomes pintados usualmente de branco, na proa, à direita das embarcações fluviais.

Geralmente, nessas embarcações fluviais predomina o nome onomático do santo hagiológico católico e da devoção do canoeiro: São Pedro, São João, Santo Antônio, Santo Antão, São Jorge, Nossa Senhora da Guia, Nossa Senhora dos Navegantes, Nossa Senhora da Agonia, Nossa Senhora dos Aflitos, Nossa Senhora Aparecida, Nossa Senhora da Paz, Nossa Senhora do Amor Divino, Nosso Senhor Jesus Cristo, Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, Nossa Senhora do Bonfim, Nossa Senhora dos Afogados, Nossa Senhora da Esperança, Nossa Senhora da Consolação, Nossa Senhora das Graças etc.

Entre os canoeiros observa-se, também, o espírito brincalhão, pelo nome jocoso das suas embarcações: Tira-teima, Não-tem-medo, Valentona, Mentirosa, Fura-água, Corta-água, Não-afoga, Gosta-de-moça, Gira-mundo, Tagarela, Linguaruda, Faladeira, Mestidiça, Pororoca, Galinha-choca, Galo-de.briga, Namoradeira, Pata-choca, Cascavel, Traíra, Piranha, Tubarão etc.

Nota-se que, principalmente na Amazônia, a maioria dos igarités tem o seu nome inscrito na proa, também, em idioma familial à região, reminiscências de tribos mansas, que se integraram à civilização.

um exemplo de nome indígena em canoas ou igarités é comum ver-se nos portos fluviais: curupira, termo tupi e que, em português, quer dizer caipira ou matuto.

Há apelidos pitorescos: as grandes gaiolas modernas e algo luxuosas que navegam na Amazônia apelidam-se de vaticano. Por que, se não há analogia entre duas coisas dispares?

Talvez seja uma crítica ferina entre o luxo do Vaticano, residência papal, que devia ser moderno e frugal, e o conforto humano das gaiolas...

Em se falando da Amazônia sob aspectos tão multifários, impõe-se sublinhar-se que por lá além de outras carências incuráveis há outra de ordem social: falta de mulheres. Este fenômeno não se verifica entre os silvícolas: observa-se entre os paroaras nordestinos que imigram para a Amazônia em busca de fortuna duvidosa e deixam as suas famílias para trás. Disputa-se lá uma mulher a altos preços, inclusive há o problema do amor ser resolvido a bala... Quando se enviúva uma mulher, verifica-se verdadeira disputa pela posse da viúva com o aceno de mil promessas falazes: é o sexo que fala alto...

Verifica-se comumente, que meninas impúberes casam-se: imposição bio-sociológica. Nesse casos, porém, o Código Civil põe-se de lado e o casamento se faz na "igreja-verde"...

* * *


Usança habitual na Amazônia, tipicamnente eivada de sincretismo, é a cerimônia popular denominada Meia-Lua, que é uma procisão fluvial composta de numerosas canoas, todas enfeitadas com bandeirolas de papel de seda, que percorrem os rios, conduzindo um santo, na canoa da frente, pedindo espórtulas para a próxima festa do santo padroeiro. É uma cerimônia mista de cantorias religiosas, foguetório e gritaria contagiante.

* * *


No meu sertão, memorizei três quadrinhas escritas no pára-brisas de caminhões, provocando chistes:

Lá vem a lua saindo
Redonda que nem tigela,
Não há dinheiro que pague
O beijo de uma donzela

Sai, dai, seu fede-fede
Seu catinga de mucura!
Enquanto vivo tu fede,
Qui dirá na sepurtura!...

Quando se sente um medo horrível,
Ouve-se logo um to... ró... to... ró... barulhento...
É um aviso à cueca desrespeitada,
Enlameada e fedendo a titica...

* * *


Chofer que nunca descabaçou uma cabaçuda chama-se "defunto".

O chofer que é pai de muitas crianças e de muitas mães chama-se "fabricante de bonecas...

* * *


Focalizou-se neste capítulo o papel que a canoa e o caminhão exercem na Amazônia e no Brasil-Central, respectivametnte, descobrindo um Brasil Novo para os brasileiros do litoral, é justo que se renda uma homenagem ao Correio Nacional, instituição governamental patriótica, que com recursos maiores e rápidos, onde há campo de pouso, leva um pouco de civilização e socorros diversos aos infelizes brasileiros perdidos nas florestas do Brasil indescoberto ainda...

Hosanas, pois, ao Correio Aéreo Nacional!

[1966]


(CARVALHO, Hernani de. No mundo maravilhoso do folclore)

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