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Junho 2001
Ano III - nº 34

TÉCNICAS DE MEDIR MILHO

Como se sabe, a unidade segundo a qual se mede a colheita e a venda de milho é o carro, tradicional medida portuguesa. O carro se divide em cargueiros, o cargueiro em mãos, que são compostas de espigas. Na área estudada, 1 carro = 12 cargueiros; 1 cargueiro = 8 mãos ou 2 cestos; 1 mão = número variável de espigas, conforme o tamanho.

Vejamos as diversas maneiras de medir-se um carro de milho na área estudada.

1) Em Bofete, usa-se da seguinte técnica tradicional: no monte de milho à venda, escolhem-se à vontade 60 das melhores espigas, que passam a constituir o milho de conta e vão servir para determinar a medida do resto. O comprador enche então com elas um cesto de cargueiro, marcando o nível que atingirem com um pedaço de palha passada no trançado. Daí por diante, vai enchendo com o resto, sem contar nem escolher as espigas, pautando-se sempre pelo referido nível, determinado segundo as 60 mais graúdas, escolhidas inicialmente. Hoje, um cargueiro de milho de conta varia entre 75 e 80 l, equivalentes a 60 ou 62 kg. Dizem os velhos que 1 cargueiro de milho de terra virgem chegava a dar 100 l por cargueiro - isto é, um carro de 12 cargueiros dava até 1.200 l. Hoje, 1 carro varia de 950 a 1.000 l.

2) Em Porangaba e Tatuí prevalece a seguinte, também muito antiga: em vez de pegar no monte o milho de conta, o comprador toma um cesto de tamanho qualquer, enche-o de milho não-escolhido, descasca-o e em seguida o debulha. Isto feito, mede-o em litros, vendo quanto resulta. Fica então sabendo que o cesto equivale a x litros debulhados; basta então enchê-lo nas vezes subseqüentes, para saber que está comprando, em espigas com palha, o equivalente a esta quantia. Com ela avaliam-se 10 cargueiros de 100 l, que também constituem 1 carro.

Em municípios limítrofes, usam-se outras medidas mais comerciais, que ainda não foram introduzidas em Bofete, ou nele ocorrem esporadicamente. A título comparativo, vejamos:

1) No alto da Serra, município de Botucatu, usa-se a seguinte: enchem-se 40 sacas, de 100 l cada uma, até à boca, de milho com palha, considerando-se o total como equivalente a 1 carro. Ao se encher, pode-se bater no chão com a saca tantas vezes quantas forem combinadas, a fim de fazer assentar o conteúdo e ampliar a capacidade. Combinam-se não apenas o número de batidas (1, 2, 3 ou 4), mas ainda, o momento em que devem ser dadas: quando a saca estiver cheia pela quarta parte, pela metade, pelos dois terços, etc. Esta técnica liberta o comprador do arbítrio do milho de conta, que faz variar o conteúdo dos cestos conforme as espigas sejam maiores ou menores, permitindo medida mais exata e equivalente à realidade.

2) É comum em Tietê a seguinte, já adotada no vizinho município de Conchas: tomam-se as espigas com palha e enche-se com elas um cesto. Pesa-se. Despeja-se. Debulha-se. Pesa-se o milho debulhado e estabelece-se a relação: x quilogramas de milho com palha = x quilogramas de milho debulhado (geralmente, cerca de metade). Daí por diante, basta ir enchendo o cesto, ou cestos iguais, com o milho do monte, para saber a quanto equivale de milho debulhado.

É o processo mais comercial e vantajoso para o comprador, dando-lhe com segurança o peso certo.

[1964]


(CÂNDIDO, Antônio. Os parceiros do Rio Bonito; Estudo sobre o caipira paulista e a transformação dos seus meios de vida)

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