Junho
2001
Ano III - nº 34 |
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Todas as pessoas que possuem umas tintas de botânica, por mais
leves que sejam, sabem de sobejo que um dos caracteres principais das chamadas plantas
criptogâmicas, tais como as algas, os musgos, os liquens, os fetos, é não terem
órgãos perceptíveis de fecundação, isto é, não florescerem; no entanto existe na
roça uma crença, aliás, muito vulgarizada, de que a samambaia ou feto macho furta-se a
essa lei geral que rege os acólitos, e floresce na véspera de São João à meia-noite.
Dizem mais os nossos caipiras que essa flor fantástica tem duração muito efêmera;
desabrocha e morre dentro de alguns segundos, e quem lhe aspira o perfume entontecedor,
nesse breve instante, alcança desde logo a mais ampla felicidade, em matéria de amores.
Isto dá lugar, às vezes, a episódios interessantes e brejeiros, e é de um deles que
passamos a contar.
Estamos em serra abaixo, quase nas fraldas da alterosa cordilheira dos Órgãos, boa terra
das suculentas caldeiradas de caranguejos, puxadas a pimenta e cachaça dos restilo,
terra dos beijus de tapioca, das malapanzas, das boas pândegas em dias de farinhada e
moagem, terra das pitorescas tiranas cantadas ao som da viola e do adulfo, isto
quando o italiano não tinha ainda substituído tão agradáveis instrumentos pela harmônica,
a enjoativa gaita.
Estamos em serra abaixo, fria véspera de São João, e em casa do velho Eugênio, homem
que já arrasta pelos seus setenta anos, muito alegre, muito pagodeiro, já bem
afazendado, e pai de um grande número de filhos, uns já casados, outros estando para
isso, e outros meninotes ou miudinhos, porque dona Eulália, sua digna consorte, apesar de
quase tão velha como ele, ainda não esmoreceu, e, de vez em quando, dota a humanidade
com mais um bípede.
No dia em que nos achamos, vai-se festejar em casa do velho Eugênio, o São João. Assim
se faz desde que o nosso homem tomou estado, isso em atenção a seu falecido pai, que se
chamava João.
Só o velho Eugênio e sua numerosa prole, filhos e netos, eram mais que suficientes para
encher a casa. Todavia fizeram-se convites, e por isso lá se acham nesse dia muitas
outras pessoas gradas.
Em primeiro lugar convém mencionarmos a família do Chico Barafunda, ele, a mulher, dois
rapazes e duas moças, tudo gente muito divertida e descoronhada para um batuque ou uma
quadrilha; em seguida surgem o Pedro Espalha, um fiel muito magro, asmático e sua digna
esposa, dona Carolina, mulherzinha baixa, toda socada, de cintura de pipa, cara
empapuçada e muito amiga de propor adivinhações; quando a gente menos espera, lá está
dona Carolina ao nosso lado a dizer-nos:
- Seu Fulano, o que é, o que é: casa caiada bonina amarela, sem porta nenhuma, ninguém
mora nela? Ou isso, ou coisa que o valha.
Também fazia parte dos convidados o Manoelzinho da Pedra Branca, com a mulher, pequenina,
mirrada como uma vagem de feijão chocha, muito silenciosa, e uns três pirralhos
endiabrados. Manoelzinho da Pedra Branca tinha uns sestros no falar: era a abundância de lh
que ele metia nas palavras: para o Manoelzinho não havia o ditongo ai, este era
fatalmente transformado na consonância lh. Dizia, por exemplo: - O cavalo
balho, o estelho da casa, pelhos, malhor, etc.
Continuando na enumeração dos convidados, temos agora que conceder um lugar à
viúva Gabriel, com as três filhas: a Nenê, a Chandoca e a Lulu, que era a mais moça.
São três raparigas bonitas e engraçadas, principalmente a mais velha, a Nenê, que
andava de namoro com o Lourenço, um dos filhos solteiros do velho Eugênio.
Havia mais uns três ou quatro rapazes, umas duas ou três pretas velhas, comadres da dona
da casa, e lá se achavam desde a véspera, ajudando-a no preparo dos doces, e finalmente
dois personagens, que merecem especial menção.
Um deles era o Sebastião Pataca, velho de sessenta e tantos anos e professor régio na
freguesia, embora quase analfabeto. Sebastião Pataca era magro, alto, calvo e de nariz
comprido; tinha cor amarelada, um de seus dentes caninos, por demasiado alongado,
estendia-se sobre o beiço inferior. Num pagode, no entanto, Sebastião Pataca era
impensável, pois não havia outro como ele para dizer pilhérias e anedotas. O seu
vestuário, nesses dias, compunha-se invariavelmente de uma casaca de pano azul e botões
amarelos, que lhe dava pelos tornozelos, colete de belbutina roxa, colarinhos altos,
gravata de sete voltas e cartola antiquada, de abas largas e abrindo muito para o lado de
cima. Era um excelente conviva; tinha, porém, o mau hábito de ser um tanto derretido
para com as moças e implicante com as velhas, às quais não poupava gracejos.
O outro personagem era uma senhora viúva, de seus 55 anos, nem alta, nem baixa, com falta
de dentes na frente, e de pele avermelhada. Chamava-se dona Quitéria, e, apesar do seu
físico pouco convidativo, queria ainda casar-se, e com homem moço. Por isso quebrava
muito os olhos, quando algum rapaz chegava perto dela, espremia os beiços para falar, e,
no momento das danças, era a primeira que saía para o meio da sala, às vezes tendo por
par uma outra mulher, a fim de provocar os homens, que quase sempre nem se lembravam dela.
Com uma coisa somente dona Quitéria embirrava, quando ia a algum pagode: era a presença
do Sebastião Pataca, pois este não lhe poupava remoques e alusões ferinas à sua idade
e escassez de beleza.
São essas as pessoas que o velho Eugênio e sua veneranda esposa lembraram-se de convidar
para a patuscada da noite de São João. Casa e terreiro estavam literalmente cheios.
Esse poviléu acha-se na casa do velho, desde as 4 horas da tarde; os homens vêm chegando
metidos em cavours e cachê-nez, as mulheres embrulhadas em xales, porque o
frio, naquela aba da serra, começa a fazer sentir o seu rigor mesmo antes do sol entrar,
e à medida que os farranchos vão aparecendo, logo os rapazes e raparigas dão com os
olhos num ramalhudo pé de samambaia-assu, muito cabeludo e de grelo torto, tendo a
aparência de um enorme ponto de interrogação, que há um pouco para o lado da casa do
paiol velho metido na orla da capoeira.
- Chi! Dizia uma, requebrando-se, tem samambaia aqui perto? Quem lhe irá cheirar a flor
à meia noite?
- Eu não perciso,- dizia outra, com fingido desdém.
- Nem eu, acrescentava uma terceira, arrebitando o nariz.
- Não se incomodem, intervinha gaiatamente uma velha qualquer, quem vai cheirar a flor de
samambaia sou eu.
- Havemos de ir juntos, acrescentava o velho Eugênio, vindo receber o farrancho, ando
muito precisando de tomar uma pitada da flor dos amores.
- Ai! Ai! - Suspirava dona Quitéria requebrando-se, e a olhar para os moços.
Todos riam-se, e começavam a dizer pilhérias sobre as singulares virtudes da flor da
samambaia, que lá, na orla da capoeira, ostentava a renda das suas grandes folhas, de
nervação complicada, coriáceas e muito verdes, que aos olhos de todos aqueles rapazes e
raparigas parecia prometer, na fragrância dos seus misteriosos nectários, um mundo de
venturas, beijos, abraços muitos langues, e umas ternuras quentes para dissipar o frescor
intenso da noite de São João.
Mas... prossigamos.
Às 7:30 horas da noite foram todos para a mesa, sobrecarregada de boas coisas: muita
carne, leitoas, aves e peixes, arroz de forno, quitutes preparados pela mão de dona
Eulália e suas filhas, que tinham dedos para aquilo, doces, vinhos; e começou-se a comer
seriamente, como quem compreende que aquilo é uma função muito importante da vida
humana.
Durante o primeiro quarto de hora ninguém falou: os queixos andavam muito ocupados na
trituração dos alimentos, para poderem distrair-se em outra coisa. Logo, porém, que os
estômagos receberam o primeiro lastro, começou a palestra com grande animação.
Sebastião Pataca contava anedotas, e assim que se calava, dona Carolina, a mulher de
Pedro Espalha, saía imediatamente com uma adivinhação.
- O que é, o que é: garça branca em campo verde, com o bico nágua, morrendo à
sede?
Um qualquer metia na boca um pedaço de pele de leitoa e respondia:
- É gaivota.
Sebastião Pataca tornava a impingir outra anedota, que fazia rir a mesa inteira, e logo
em seguida dona Carolina empurrava segunda adivinhação.
- O que é, o que é: as ondas do mar, dizendo mar, as ovelhas no campo, dizendo me,
os músicos no coro, dizendo la, um negro com um pau nas costas dizendo da?
- Deve ser golhabada - respondeu o Manoelzinho da Pedra Branca.
Todos soltaram grandes gargalhadas pelo destempero, e o Pedro Espanha, fazendo o mesmo,
despertou a sua asma e foi obrigado a retirar-se da mesa até acalmar um acesso de tosse.
Manoelzinho, enfiado um pouco com a hilaridade geral, lá consigo achou que em uma mesa
aquilo era um tanto felho.
No entanto o jantar ia correndo no meio da mais expansiva alegria. Lourenço achou meio de
sentar-se ao lado de Nenê Gabriel, porém tinha à esquerda a pitoresca dona Quitéria,
que, às vezes, se deixava cair toda para o seu lado, coisa que o rapaz implicava, e, para
evitá-la, chegava-se muito à Nenê; esta, pelo seu lado, tinha à sua esquerda o
Sebastião Pataca, que, muito satisfeito com tal vizinhança, procurava torná-la mais
íntima; e, então, a moça realizava o mesmo movimento que o rapaz fazia para evitar a
Quitéria. Quando os dois velhos pendiam ao mesmo tempo, as cabeças dos dois moços
chegavam a juntar-se, e, então, os quatro figuravam um M de pernas para cima:
Quitéria e Pataca eram as hastes dos lados, os dois namorados constituíam a ponta do
meio.
Das carnes passou-se aos doces, e, logo que começou a circular o vinho do Porto,
Sebastião Pataca, na sua qualidade de homem de letras, entendeu que lhe competia ser o
primeiro a saudar os donos da casa.
Assim, consertou as sete voltas da sua gravata, contemporânea das de José Bonifácio e
Diogo Feijó, limpou os beiços sujos de calda de doce num grande lenço de seda de
ramagens, e, levantando-se com toda a gravidade, passeou primeiro os olhos por toda a
mesa, como pedindo silêncio, o qual se estabeleceu imediatamente, e depois disse:
- Neste momento de alegria, eu bebo à saúde de uma letra do alfabeto, e, com essa letra
só, eu bebo à saúde do dono e da dona da casa. Meus senhores e minhas senhoras, eu bebo
à saúde do O, porque com O se escreve Ogênio e com O se
escreve Olália, e assim bebendo só à saúde de uma letra, eu bebo ao mesmo tempo
pelo O de seu Ogênio e pelo O de Dona Olália.
Este brinde foi considerado eloqüentíssimo, inspirado, e ninguém se atrevendo, a fazer
outro, todos se levantaram da mesa, e se dirigiram para a sala do baile.
A orquestra que o velho Eugênio tinha arranjado para a função não era das de primo
cartelo. Fazia barulho, no entanto, e compunha-se unicamente de dois trombones, um
tanto encatarrados, uma rabeca guinchadeira e duas requintas tocadas por dois crioulos
altos, que nesse mister empregavam a força de quem está soprando tripas de porco para
fazer lingüiça.
As danças começaram logo, e os pares revoluteavam pela sala, iluminados vivamente pelo
intenso clarão de uma grande fogueira de madeira grossa que crepitava no terreiro, e em
torno da qual pagodeava a criançada, assando batatas, aipins e canas na cinza quente, e,
soltando bichas e busca-pés.
Na sala pinoteou-se primeiro uma valsa, a Varsoviana, a que eles davam o nome de Varsa
Viana, e depois dançou-se uma quadrilha.
Lourenço escolheu para par a Nenê Gabriel, e os dois foram dançar de vis-à-vis
com o Sebastião Pataca, que, em falta de outra dama, se agarrara à ostra da dona
Quitéria.
Ao mesmo tempo o Sebastião Pataca tinha assumido as funções de mestre-sala, e a sua voz
troava no burburinho da dança a estropiar no francês da marcação, ou a introduzir
coisas dele: Alvantu!... balance!....damas ao centro, homens na beirada... caminho
da roça!... Chem de dama!...
Mas, assim mesmo, dançava-se a valer. Após a primeira quadrilha, seguiu-se uma mazurca;
em seguida as filhas da viúva Gabriel e três rapazes dançaram uma valsa pulada, e logo
enfiaram uma segunda quadrilha.
Ora, tinha-se terminado exatamente a segunda quadrilha, quando os dançantes perceberam
uma cantoria no terreiro; eram dois rapazes: um filho do Xico Barafunda, e outro, o
Carlinhos, filho do dono da casa, que, pouco habituado a dançar baile, como se diz
na roça, se divertiam tangendo as violas plangentes e cantando ao desafio a velha moda
tirana, tão simples, tão rústica, mas assim mesmo tão cheia de encantos e graça.
Assim que se espalharam os primeiros sons daquela toada e instrumentos, mais que populares
em serra abaixo, logo a sala se despovoou: velhos e moços, todos foram parar ao pé dos
dois violeiros; os próprios músicos seguiram o bando, quando o crioulo da requinta deu
um último sopro de encher tripa no seu instrumento.
Aquilo que se tocava lá fora parece que tinha mais poesia para aquelas almas simples, do
que as quadrilhas marcadas por Sebastião Pataca; chegava mais depressa a alma ao
coração; dizia melhor com a índole de todos eles, e com a natureza tradicional daquela
festa.
E logo que chegaram junto aos violeiros, formaram roda, homens e mulheres, tanto velhos
como moços, e o filho do Xico Barafunda, um tanto vaidoso com isso, abriu o peito, e
cantou, afinando a voz o mais que podia:
Senhor cantante,
Que por cantante se tem,
Um pau de setenta palmos
Quantas polegadas tem?
Toma tirana,
Tirana que eu vi, eu vi,
Meu amor em braços doutro,
Não sei como eu não morri.
Ao findar o estribilho do verso, rompeu o sapateado; as mulheres saíram primeiro para o
meio do círculo, a se requebrarem, em passos miudinhos, com meneios langues de cabeça, e
saracotear lascivo de quadris; depois saíram os homens; fervia o intervalo do batuque em
febre doida, e chocavam-se os ventres no estalar das umbigadas.
Isto durou até que o Carlinhos, o outro cantador, deu uma viravolta, e, tomando posição
para organização de novo círculo, respondeu ao verso do companheiro com este:
Senhor cantante,
Cantante de admira
Deixe o pau pra ser medido
Ao depois que ele murcha.
Toma tirana,
Tirana de serra abaixo.
Tirana corta a banana,
Que eu vou carregando o caixo.
Tornou a recomeçar o bailado; os mesmos meneios, miudeza de passos, requebros langues por
parte das mulheres; depois dos homens saindo, o roncar do sapateado, e o estalar das
umbigadas.
O segundo verso que o filho do Xico Barafunda cantou, foi o seguinte:
Senhor cantante
Que comigo quer cantar,
Quero que o senhor me diga
Quantos peixes tem no mar.
Toma tirana
Tirana que eu vou, eu vou,
Vou me queixar à justiça
Que meu amor me deixou.
O Carlinhos, quando chegou a sua vez, respondeu com este:
Quantos peixes tem no mar,
Eu não lhe posso dize,
Tem os vivos, tem os mortos
E os que estão para nascê.
Toma tirana,
Tirana me dá, me dá.
Meu amor me deve um beijo,
Eu vou lhe mandar cita.
Depois foi afrouxando o batuque e afinal extinguiu-se; todos estavam cansados, porém,
muito agitados por aquela dança vivíssima, e tendo o seu quê de lúbrica, doce,
ingenuamente lúbrica, aliás.
Precisavam descanso e refrescos.
No entanto, antes que se apartassem dos violeiros, o Sebastião Pataca, que, apesar da sua
idade, nunca perdia as forças para a troça, entendeu que era chegado o momento de fazer
uma pequena maldade à velha Quitéria.
Assim, bateu palmas, requerendo a atenção dos mais, e disse:
- Esperem um pouco; eu vou cantar um verso e é para a senhora Quitéria, nós somos
velhos, nos entendemos.
Dona Quitéria não gostou muito dessa entrada. Todavia não disse nada.
- Ande lá, seu violeiro, faça um acompanhamento macio, bem repenicado na prima e com uns
gemidozinhos no bordão grosso.
Em seguida cantou:
Quando vejo casa velha
Se eu fosse o fogo queimava.
Quando vejo mulher feia,
Se eu fosse a morte matava.
Se eu fosse a morte matava.
Que corre, que corre,
Que não me atrapaia,
Cintura bem feita
Não precisa saia.
Todos caíram em gostosas gargalhadas; dona Quitéria ficou fula de raiva, e o Sebastião
Pataca, que tinha tomado um certo calor, exclamou:
- Agora isso é para Dona Nenê Gabriel. Mais macio ainda, seu violeiro brinque só no
gostoso do seu pinho.
Então cantou isto:
A rosa nasceu do gaio,
O gaio nasceu do chão,
A vista nasceu dos oios
Bem querer do coração.
Subi pela rama
Desci pelo gaio
Segura mulata
Sinão eu caio.
Foi muito aplaudido este verso, e o Sebastião Pataca tornou a exclamar:
- Agora é para acabar, e esta é outra vez na intenção de dona Quitéria, que, segundo
me dizia minha mãe, me deu de mamar, quando eu era pequeno. Não me deixe mal, seu homem
da viola: macio, macio e gostoso.
E tornou a cantar:
Eu plantei o ariticum
No alto daquele morro.
Toda velha que namora
Tem morrinha de cachorro.
Que corre, corre, corre,
Que não me embaraça
Negócio cu Lope
Não deve ter graça.
Então dona Quitéria não pode, conter-se mais.
- Atrevido, - exclamou ela, furiosa; - quando quiser ser tão desbocado, olhe primeiro
para quem está na sua presença; nem parece um purfessor; si a sua sabedoria deu
somente para escandalizar os mais, era melhor que fosse um ingnorante como os
outros.
E com uns ademanes de cobra que levou uma pancada na espinha, retirou-se raivosa e
arrebatadamente, para o interior da casa, a sacudir-se toda.
- A velha danou-se, deu três... e acuou-se, - disse o Sebastião Pataca, a rir-se
gostosamente.
- E vai se arregaçando tanto, - acrescentou a Manoelzinho da Pedra Branca, - que até se
vêm as melhas.
Era quase meia noite; na sala haviam outra vez recomeçado as danças, e grande animação
havia em derredor da fogueira que alguns marmanjos tentavam pular. No interior da casa
algumas moças deitavam sortes, principalmente a do ovo e a do copo dágua.
O frio nesse momento era rigoroso, mas quem se metesse nessa hora por traz do paiol velho
veria uma mulher, envolvida em um grande xale, que, enfiando-se pelo vassoural, se dirigia
para o sítio em que se achava o samambaia-assu, nesse momento invisível por causa da
escuridão da noite.
Essa mulher era a Nenê Gabriel; ouvira tanto falar nas miríficas virtudes da flor da
samambaia, que não pudera resistir ao desejo de aspirar o seu inebriante perfume. A
pobrezinha estava tão enamorada do Lourenço, que valia bem a pena aquele sacrifício
para se assegurar do seu afeto, para o que, aliás, bastavam os seus grandes olhos
pestanudos de uma doçura angélica, sua pele fresca, de uma alvura de leite, seu cabelo
negro e sedoso.
No entanto a Nenê entendeu que aquela feitiçariazinha a maior concorreria muito para
agrilhoar o coração de Lourenço. E, por isso, sem dizer nada a ninguém, nem mesmo às
irmãs, foi disfarçadamente afastando-se das outras moças, e a tiritar por causa do frio
que lhe chegava ao rosto pelas malhas do xale, ganhou o vassoural, e na treva, pelo tino,
foi demandando a samambaia.
No fim de algum tempo de marcha, seu rosto esbarrou nas largas folhas do feto: tinha
afinal chegado, e já procurava orientar-se, a fim de saber em que lugar iria desabrochar
a fantástica flor, quando dois braços fortes de homem a apertaram.
Nenê Gabriel, espantando-se, quis gritar, porém, sentiu uns lábios quentes que se
colavam à sua boca e logo em seguida esta frase: - Não te assustes, sou eu, Lourenço, -
a tranqüilizaram de súbito.
Apenas, no entanto, esta rápida cena tinha-se desenrolado na treva junto da samambaia,
quando os dois amantes sentiram que alguém se aproximava, pelo barulho produzido nas
vassouras.
Logo o amoroso par compreendeu que era alguém que também vinha atrás do maravilhoso
perfume da flor da samambaia, e, a fim de evitar esse alguém, Lourenço foi levando a
namorada para o cerrado das moitas, e uma nova criatura aproximou-se da samambaia;
instantes depois chegou um homem; reproduziu-se quase a mesma cena que já descrevemos, e
depois... como a treva era muita, nada mais podemos saber do que se passou, tanto junto ao
rizoma do gigantesco acotilócomo, como no cerrado das moitas.
É provável que a flor fantástica da samambaia desabrochasse nesse momento, e o seu
perfume inebriante, evolando-se da sua corola singular, produzisse uma tontura naqueles
dois pares de namorados e afundasse em letargo, sem que eles próprios o percebessem.
Nada sabemos... O que não nos é permitido ignorar, no entanto, era quem podiam ser os
dois últimos namorados, e é o que vamos passar aos ouvidos do leitor.
Como já sabemos, Sebastião Pataca, o velho e pagodeiro mestre-escola, andou toda a noite
a derreter-se com a Nenê Gabriel, e tendo esta lhe concedido um gracioso sorriso, quando
ele cantou aquele verso A rosa nasceu do gaio, Sebastião Pataca ficou muito
convencido de que a moça não era insensível à corte que ele lhe fazia.
Assim, nunca mais a perdeu de vista. E quando Nenê Gabriel partiu para a samambaia ele
ficou crente de que ela procurava um lugar afastado de vistas indiscretas, a fim de lhe
dizer algumas ternuras.
Seguiu-a, pois, à distância.
O mesmo aconteceu com dona Quitéria, depois do verso do Pataca, em que se falava de
morrinha de cachorro. O Lourenço, como filho da casa, entendeu que devia dizer algumas
palavras amáveis à velha, e pedir-lhe desculpa pelo que havia feito o mestre escola.
Isso foi o suficiente para que a pobre e feia criatura entendesse lá para si que os seus
morrimentos de olhos, tinham feito brecha no coração do rapaz, e, assim, quando este
partiu para a samambaia, a fim de se encontrar com Nenê, que ele tinha visto dirigir-se
para lá, a velha Quitéria teve a ilusão de que aquilo era um convite para uma
entrevista em lugar ermo, e foi acompanhando-o.
Acontecera, porém, o que já sabemos. Lourenço reunira-se a Nenê, e Sebastião Pataca a
dona Quitéria, ambos iludidos, e julgando-se cada um a mais feliz das criaturas humanas,
por ter entre os braços uma beleza, uma juventude, deixaram-se ganhar de uma embriaguez,
uma fascinação, uma loucura amorosa, naturalmente produzida pelos eflúvios suavíssimos
e entonteceres da mágica flor da samambaia.
No entanto continuava o movimento festivo na sala e em torno da fogueira; danças, sortes.
Dona Carolina com as suas adivinhações, o Manoelzinho da Pedra Branca a dizer que aquela
fogueira era a malhor que ele tinha visto em toda a sua vida, o Espalha com os seus
acessos asmáticos e, no fim de uma meia hora, surgiu junto à parede do paiol velho um
par.
Eram os dois velhos que vinham... de cheirar a flor da samambaia.
Esse lugar já era iluminado pelo clarão da fogueira; e, então, os dois se reconheceram.
- Pois então era a senhora? - disse o Pataca, descambimbando o queixo inferior em sinal
de grande desapontamento.
- Pois, então, era o senhor? - exclamou dona Quitéria, arregalando os olhos.
- Pois, na sua idade, a senhora ainda se lembra de cheirar flor de samambaia?! Ora sebo!
- E o senhor, um homem tão idoso, o que foi lá fazer? Que aborrecimento!
E cada um voltou a cara para um lado, a pensar no que lhes sucedia.
- Agora, - disse afinal o Pataca, - eu bem devia ter compreendido que o que a senhora
queria era seduzir-me.
- Isso mais devagar, - exclamou dona Quitéria; - o senhor foi que me armou esta cilada;
abusou da minha inocência.
- Fresca inocência! Mas onde diabo tinha eu a cabeça? Só se foi a flor da samambaia! Eu
estou ainda bem novo, é verdade, mas no entanto já não furo paredes!
- Eu é que não sei como me deixei levar. Umas molezas, umas coisas tão banzeiras? Como
pude me enganar!
E tornaram a vira a cara para um lado, aborrecidos, até que afinal o Pataca exclamou:
- Mas, enfim, o que está feito não está por fazer.
- Ah! de certo, - confirmou D. Quitéria, - o que está feito não está por fazer. Pelo
menos o senhor não terá mais o atrevimento de dizer que mulher velha tem morrinha de
não sei quê.
- Ah! creia que não digo mais; agora só direi que o coco velho é que dá azeite!
E os dois, achando graça na própria situação, puseram-se a rir.
- Foi o diabo da flor da samambaia, - disse o Pataca.
- A gente sempre arranja umas coisas tão estúrdias! - acrescentou dona Quitéria.
Nisso assomou no oitão da casa um outro par, amorosamente enlaçado: eram Lourenço e
Nenê.
- Olhem com quem estava ela?! - murmurou o Pataca.
- Vejam só com quem ele estava metido?! - suspirou D. Quitéria.
Os dois jovens passaram sem ver os velhos, e o mestre-escola, depois de cismar durante
mais alguns instantes, exclamou:
- Olhe, o que está feito, está feito.
- Sim, o que está feito não está por fazer.
- Pois antão é isso mesmo. Eu... eu... caso-me com a senhora.
- Não é muito do meu gosto, - respondeu dona Quitéria. - No entanto aceito, só pelo
prazer de lhe dizer umas liberdades, depois que for sua mulher.
- Isso é o que havemos de ver, disse o Pataca:
Eu não sou desta terra,
Sou do fundo do sertão,
Eu bonito fico feio,
Eu feio não sou bom não.
- Ora, ora, - respondeu dona Quitéria, dando um muxoxo:
Não tenho medo do homem,
Nem do ronco que ele tem,
O besouro também ronca,
Vai se ver não é ninguém.
Efetivamente, Sebastião Pataca daí a um mês casou-se com dona Quitéria, isto
exatamente uma semana depois que o Lourenço se unia com a Nenê Gabriel, pelos
indissolúveis laços do matrimônio.
Dois casamentos, e bem aparelhados, eis o que rendeu aquela noite.
E depois digam que a flor da samambaia, não tem virtudes, miríficas virtudes, em
matéria de amores. Oh! si as tem! E nem é preciso cheira-la, basta que, à vizinhança
das folhas largas e rendadas, se cheguem os sexos, pelo frescor de uma longa e escura
noite de São João.
(PADILHA, Viriato (org.). Os roceiros; histórias e lendas do sertão) |
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