Ir para a página principalRetornar para Festança

Junho 2001
Ano III - nº 34

SANTO ANTÔNIO

A religião cristã tem sido alvo de muitas acusações, e uma das mais repetidas consiste em afirmar-se que é uma religião melancólica. Nietzsche, entre outros, comparando-a ao politeísmo greco-romano que lhe parecia todo vida, força e esplendor, achava-a lúgubre e descobria nela uma inimiga da alegria humana a semear a terra de cruzes.

Imaginações. Essa visão alucinatória e megalomórfica do mundo antigo, sobretudo do mundo helênico, é uma das carepas da mentalidade moderna, que assim criou uma Grécia mais mística do que trinta Olimpos juntos e lá colocou a "idade de ouro" da humanidade, renovando uma espécie de utopia retrospectiva muito cara a todos os povos passados e presentes.

Por outro lado, se é possível que o cristianismo seja seu tanto quanto sombrio em certas nações protestantes, é preciso desconhecer inteiramente a alma e os costumes dos povos católicos para pretender que a religião mata nos crentes a alegria da vida, ou o sentimento da liberdade, da força e da comunhão cósmica.

Tristes, os italianos expansivos e ruidosos! Tristes, os espanhóis na sua variegada e ensolada terra, quase último refúgio europeu da individualidade saliente, vivaz e pitoresca! Triste, a sonora e clara Provença. Tristes, os portugueses, os fortes, pacientes e doces portugueses da aldeia, do campo e da serra!

Triste, a Irlanda povoada da tradições poéticas e toda faiscante de energias indomáveis! Ora...

Os santos populares dos países latinos são espelhos da alma vivente das coletividades, e nenhum talvez, dentre os santos canonizados, mais completo do que Antônio de Lisboa ou de Pádua.

É este um santo que não se parece nada com certas personificações mitológicas descoradas e intangíveis; apresenta-se à imaginação popular como homem de carne e osso, apenas aumentado de um resplendor de sobrenaturalidade.

Mas essa própria sobrenaturalidade, em vez de arrastar para o lado abstrato e vertiginoso da crença, aponta espontaneamente para a vida e é o meio das coisas concretas e multicolores deste mundo que ela se manifesta e se impõe, misturada às forças da natureza.

Santo Antônio (na mente popular) é essencialmente um bom homem do povo, singelo, serviçal e brincalhão. Curiosíssima a constância deste caráter através das extensões territoriais e temporais.

Sem dúvida que a tendência universal dos povos lhes dá sempre para conformarem os seus santos queridos à medida pouco variável do seu modesto ideal; mas, se todos os santos populares são em regra bonachões e complacentes, nenhum deles é assim profunda e familiarmente amável como Antônio e nenhum se apresenta assim, sempre igual, através dos séculos e das distâncias, aos olhos de tantos povos diversos.

Nenhum, digo mal: São João Batista é nesses pontos émulo do discípulo de São Francisco de Assis; mas nem por isso deixa de conservar certo matiz diferente, mais naturalista do que propriamente humano.

A simpatia popular cercou o nosso santo, de modo especial, desde os primeiros tempos.

Quando foi do seu trespasse, em Pádua, conta-se que as crianças clamavam nas ruas: Morreu o Santo! "O Santo" era como já lhe chamavam.

Era já o taumaturgo que havia operado uma fieira de milagres,, piedosos e pitorescos: restituíra a vida a um bando de meninos afogados, aplacara uma bátega importuna, certa vez que pregava ao ar livre; fizera uma mulher levantar-se limpinha de um lameiro onde caíra; vencera só com a sua palavra, frente a frente, humilde e audacioso, um tirano de péssimos bofes - Ezzelino; conseguira, em França, que um asno se curvasse respeitosamente diante do Santíssimo Sacramento; fizera emudecer numa noite todo o povo coaxante de uma lagoa, em Mompilher; pregara aos peixes e fora ouvido com atenção e gravidade.., De uma feita, falando na igreja do convento, lembrou-se de que à mesma hora tinha outra obrigação que cumprir no coro; curvou-se debaixo do capuz, emudeceu, e, sem sair do púlpito, foi visto no coro a desempenhar-se da tarefa momentaneamente esquecida...

Enfim, os seus milagres costumavam trazer um certo sainete de suave candor e de graça tocante, muito próprio a namorar os corações. E assim continuaram após a sua morte.

Um dia, o papa Bonifácio VIII manda que se retire a sua imagem do lugar onde se fixara, na igreja de São João de Latrão, ao lado das dos apóstolos a fim de ser substituída pela de outro santo mais avançado na hierarquia dos méritos da antigüidade. Vêm os pedreiros, trepam por um andaime até a efígie, e dão o primeiro golpe de picão; mas o santo, movendo o braço na larga manga do burel, atira tão valente punhada que os lança por terra com os andaimes e os instrumentos do ofício, em meio de grande fracasso... Os homens nada sofreram.

Diante de tão manifesta vontade de permanecer onde estava, lá o deixou ficar o papa e não se lhe tocou mais. Como, porém, devia Sua Santidade ficar surpreendido com essa inesperada mudança de humor no humílimo franciscano, que sempre se fizera notado por um infinito desprezo das honrarias e das glórias!

Esta saturação de sentimentos humanos havia de continuar até hoje, combinando-se graciosamente com a santidade e o maravilhoso.

Antônio de Pádua converteu-se numa espécie de "topa a tudo.", sempre muito pronto a servir aos seus fiéis, sempre solicito à menor invocação, sempre infinitamente tolerante.

Deparador de coisas extraviadas, presta-se a intervir em mínimos incidentes da vida, que nada têm que ver com a saúde dos corpos nem com a salvação das almas. Presta-se até, como vimos, a deparar escravos fugidos.

Coopera em mandingas de candomblés em tramoias escatológicas de amor
[1]. Torna-se belicoso, ele que era o mais inofensivo dos mortais, e - divino sargentão - leva exércitos ao saque e à matança, defende fortalezas e cidades. Castíssimo protetor das donzelas, passa logo a ser, mais restritamente, protetor das donzelas casadouras, e não já um protetor cândido e severo, mas uma espécie de padrinho muito condescendente e algo frascário. Cria mesmo a fama de gostar das moças como qualquer mortal: quebra-lhes os púcaros nas fontes, para as assustar, e misteriosamente os recompõe; chama-as maliciosamente:

Fui ao mato buscar lenha,
Santo Antônio me chamou

A sua festa anual se faz entre fogos e barulhos, danças e risos...

Por quê? Este capítulo das tradições atinentes à sub-religião popular não está bem estudado, sobretudo nos países latinos. Os próprios fatos ainda não foram colecionados com suficiente abundância e método satisfatório, abrangendo vastas áreas, de modo a permitir conclusões sobre o encadeamento histórico das crenças e observâncias que eles revelam. Afigura-se porém muito provável que esses traços de paganismo provenham, ao menos em parte, da vizinhança com a festa de São João, a qual, de seu lado, sabidamente absorveu velhas práticas derivadas de remoto culto solar. À mesma influência se deve talvez o prolongamento dos fogos e patuscadas até o dia de São Pedro.

O fato é que na véspera de Santo Antônio, em Portugal, notadamente em Lisboa e outros pontos, costumavam outrora e desde longínquos tempos celebrar-se com fogueiras e luminárias, danças e brincos e cantarolas. Em 1787 escrevia Lord Beckford numa de suas cartas portuguesas:

"Já era escuro quando saí da grande portada (do convento de Belém) e achei o terreiro em frente alumiado com a luz coruscante de um renque de fogueiras à beira do Tejo. A custo alcancei a minha carruagem sem ser chamuscado por buscapés e bombas, e desejei ver-me fora no momento em que entrara, por quanto estourou um foguete mesmo debaixo dos focinhos dos meus machos, que os espantou horrivelmente.

Se por milagre me não acalentasse Santo Antônio, esperava não pregar olho em toda a noite, tamanho era o estrondo do fogo artificial, das labaredas estridentes das fogueiras, das gaitadas das buzinas, em louvor da festa de amanhã, o aniversário do memorável dia em que o Santo querido de Lisboa passou em plácido trânsito aos gozos do paraíso: vi a sua imagem à porta de quase todas as casas e até das barracas desta populosa capital, colocada em altar e adereçada por profusão de velas de cera e de flores".

Na Espanha, a tradicional verbena aparece em vários lugares associada ao culto do santo português.

No Brasil, essas homenagens incandescentes e ruidosas estão radicadas a fundo nos costumes, por toda a parte e em todas as classes, excetuada apenas a "aristocracia" das cidades maiores.

Como era natural, formou-se em torno do santo, a par de forte vegetação de crenças e lendas, - umas comuns a todo um povo ou a diversos povos, outras locais e subordinadas a invocações particulares, - uma não menos basta vegetação de literatura oral.

Infelizmente, o que se conhece dessa literatura é apenas amostra do que existe, ou existiu e se vai decompondo. A não serem alguns raros contos, como o da Afilhada de Santo Antônio, que andam nas coletâneas, e algumas composições poéticas, em boa parte não populares, mas simplesmente popularizadas, essa literatura antonina ainda é matéria inédita que espera por uma monografia nem sequer planeada até hoje.

Seria isso trabalho deveras interessante, embora nada viesse a conter de aproveitável senão a simples transcrição fiel e metódica dos materiais recolhidos.

De tudo havia de ressaltar bem a figura do santo como a concebe o povo, com algo do tipo geral dos heróis populares simpáticos e algo dos gênios familiares benfazejos e brincalhões. Ressaltaria também a verdadeira índole e feição da crença vulgar, toda alimentada de coisas concretas, toda terra a terra, despida de misticismo, saborosamente empolpada de vida e de poesia.

A essa literatura antonina, considerada com largueza, podem dar-se como pertencentes as cantigas, orações e responsos que o povo repete em suas cerimônias extra-eclesiásticas, - coisa ainda freqüente nos pequenos centros interiores.

São pela maior parte de origem culta, vieram mesmo provavelmente dos templos, mas ainda assim podem conter algum elemento popular, quando mais não seja, nos retoques e nos suprimentos de partes caducas. Demais, embora não propriamente populares de origem, estão de fato ligados de modo tão estreito às práticas e gestos da sub-religião plebeia, que não devem ser postos de lado.

Tenho na minha coleção alguns trechos de cânticos ou de recitativos devotos, colhidos no interior de São Paulo. Pouca coisa, serve apenas de indício do muito que deve existir espalhado por tantas localidades, e sobretudo nas pequenas localidades das zonas mais antigas.

Umas quadrinhas apanhadas em Barueri pelo meu saudoso amigo Sílvio Maia, que tanto amava o povo de nossa terra:

Bendito lovado seja,
O vosso nome é Antônio;
Vós tendes de Deus valia,
Causais horror ao demônio.

Antônio, santo bendito,
Milagroso, singular,
Sois da nação portuguesa
Espelho de Portugar.

Antônio, santo bendito,
Pedimos com devoção,
Alcançai de Deus eterno
De nossas curpa o perdão.

Insignificantes como eles são, estes versos não são de composição roceira; devem ser restos deturpados de jaculatórias, ou de hinos, produtos da literatura escrita, semi-culta e devota, que vive à sombra das igrejas. Deve também ser de origem portuguesa, como leva a conjecturar a marca de patriotismo gravada na segunda estrofe.

Mais quadrinhas do mesmo gênero:

Meu glorioso Santo Antônio,
A sua capela cheira,
Cheira cravo, cheira rosa,
Cheira flor de laranjeira.
(Guaratinguetá)

O’ meu padre Santo Antônio,
Confessor de São Francisco,
Pregastes vosso sermão
No altar de Jesus Crísto.

O’ meu padre Santo Antônio.
Santo de Deus estimado,
No dia 13 de junho
Do povo sois venerado.
(São. Sebastião)

Estes louvores repassados de grave fervor pertencem por assim dizer à face exterior e oficial da religião popular. Ao lado deles florescem os versos joviais e maliciosos, que constituem uma outra forma de homenagem, menos direta e menos convencional, mas bem mais significativa na sua espontaneidade de floração selvagem:

Santo Antônio disse missa,
São João virô missá;
São Pedro saiu na porta:
Quem quisé venha beijá.
(Taubaté)

Santo Antônio da Cachoeira
Foi serrado com serrote;
Muié tem força na língua
Como boi tem no cangote.
(Amparo)

Valei-me, Nossa Senhora,
Santo Antônio de Nazaré:
A vaca mansa dá leite
E a braba dá quando qué.
(São José do Rio Pardo)

Fui no mato buscar lenha,
Santo Antônio me chamô:
Quando o santo chama a gente,
Que fará os pescadô!
[2]
(Casa Branca)

Notas análogas e mesmo iguais nos depara o cancioneiro português:

Santo Antônio me acenou
De cima do seu altar;
Olha o maroto do santo,
Que também quer namorar!

Minha avó tem lá em casa
Um Santo Antônio velhinho;
Em as moças não me querendo,
Dou pancada no santinho.

São Francisco é meu pai,
Santo Antônio meu irmão,
Os anjos são meus parentes,
- Oh que linda geração!
[3]

O’ moças, andem ligeiras,
Vão pedir a Santo Antônio
Que as ponha todas em linha
No livro do matrimônio.

No cancioneiro espanhol:

A San António le pido
Y no me le quiere dar
El niño que tíene encima,
Que me acompañe a llorar.

Tengo que mandar hacer
Un San António de plata,
E metérmele en el pecho,
Porque una Antónia me mata.


Notas:

[1]. Matéria delicada, que é preciso tratar com os cuidados devidos às crenças alheias e à moral, mas que merece uma exploração a fundo, tanto é o seu valor documental para estudos antropológicos. Pode-se fazer uma idéia do lastro intensamente humano dessas práticas, sabendo-se que, assim como existem no Brasil, existem em toda parte, e não só com outros santos, mas particularmente com o próprio Santo Antônio. Em Andaluzia, as moças do povo costumam executar uma sorte de agulhas com a imagem deste santo: consiste em arremessar-lhe uma quantidade delas, à guisa de pequeninas setas; conforme o lugar em que se espetam, calcula-se o tempo que falta à rapariga para se casar. É uma das muitas sortes de casamento que se executam, em certas épocas, entre o povo de numerosos países, e que tem habitualmente um acentuado caráter de "naturalismo" ingênuo.

[2]. Diz uma variante de São Bento do Sapucaí, no último verso: Que fará quem tem amor! Dizem outras: Que fará quem lá pecou! A quadra, nesta derradeira forma, encontra-se no cancioneiro português, de onde naturalmente nos veio.


[3]. Também popular no Brasil. Há uma quadra de São Paulo e de Rio Grande do Sul, que é paródia dessa outra: A cachaça é meu parente / O vinho é meu irmão, / E não há função nenhuma / Se meus parentes não vão.


(AMARAL, AMADEU. Tradições populares)

Topo

Jangada Brasil © 2000