Ir para a página principalRetornar para Colher de Pau

Junho 2001
Ano III - nº 34

A CULINÁRIA BAIANA E O FOLCLORE

Quem nasceu na Bahia e foi criado pela "mãe preta" não pode deixar de observar, saboreando as nossas iguarias desde tenra idade, que os três elementos que dão personalidade própria à nossa cozinha são: o azeite de dendê, a pimenta e o leite de coco.

Esse azeite amarelo de coco de dendê, essencial para grande parte dos pratos ba
ianos, a pimenta malagueta ou de cheiro que se mistura à totalidade das receitas e é servida em molho separado, e o leite de coco que, além de entrar em certas comidas, é condimento obrigatório em quase todas as sobremesas, constituem o requintado sabor da culinária baiana. É característica esta quadrinha sobre o azeite:

As crioulas da Bahia
Todas tem um certo quê...
Temperam a vida da gente
Como a moqueca, o dendê...

Escreve Afrânio Peixoto: "Não há digestões laboriosas com a cozinha baiana". Não há necessidade de beber vinho, nem álcool, nem mesmo de água (porque não há necessidade de tapar o mau gosto, com o sal excessivo). A malagueta e o dendê não admitem indigestões; se não vejamos o que dizem eles a respeito:

Quando se fala em pimenta, na terra do Salvador, malagueta se apresenta com seu estranho sabor:

Eu sou pimenta africana, da costa da Malagueta, do meu bom molho se ufana toda gente: branca ou preta.

Minha mãe sempre foi verde, eu, porém, sou vermelhinha; minha mãe sempre foi mansa, sempre fui malcriadinha!...

Têm-me dado vários nomes, antes de chegar aqui: desde "Granum paradisi" até o de "Grumari".

Na cozinha da Bahia, com meu amigo o dendê, tenho tido a primazia, e... é isto o que se vê.

Caruru ou vatapá, abará ou acarajé, sem mim ou sem meu "bambá", apetitoso não é...

Que vale o peixe, o marisco, sem mim ou sem meu camarada?... E a galinha de chinquin ou a boa bacalhoada?

O dendê dá apetite, mas eu sou a excitante; conosco não há gastrite, nem é preciso purgante...

Somos bons instigadores duma boa digestão, concedemos bons sabores, tornando os baianos sãos.

Não há precisão de vinha, nem de cerveja ou da "cana", para enganar o salsinho que aos outros povo engana...

Um pouco d’água, somente, ou um bom refrigerante, satisfaz inteiramente em refeição abundante.

As morenas da Bahia, sem nós não teriam fama; e... há de chegar o dia em que a velha mucama terá certa a primazia, não só aqui na Bahia, onde todo o mundo a ama, como na terra mais fria.

Quanto ao coco da Bahia, um dos maiores colaboradores da comida e da bebida baianas, fruto que nos dá, além de sua água saborosa, uma polpa que é condição sine qua non da maioria dos saborosos doces da nossa terra, é cantado em prosa e verso por toda parte do nosso território:

Quando negro enjeita coco
E a moça casamento
Ou pimenta tem o coco,
Ou a moça impedimento.

O coco para ser coco
Deve ser coco valado.
A moça para ser moça
Deve ter seu namorado.

Mas, como já me referi, além de algumas comidas que não dispensam o leite de coco como sejam: o feijão de leite, as frigideiras e moquecas de peixe, de mariscos, etc., o coco invade a maior parte dos doces baianos, como: a cocada puxa, a cocada com ovos, a queijadinha, o bom-bocado, etc., etc., cujo sabor delicioso não encontra similares em parte alguma do mundo.

O mais interessante, porém, e que os cronistas nunca registraram, é o seguinte: Na Bahia é onde se fazem os melhores doces, porque as melhores receitas, vindas de Portugal e adaptadas pelas nossas doceiras, até hoje, não passaram.

O mesmo acontece com as comidas africanas. O vatapá, por exemplo, é a mais popular das comidas baianas. Pois bem: ai daquele que pretender conhecer o precioso sabor desse prato feito por alguém que não esteja ao par dos segredos que ele encerra!...

O nosso açúcar de cana, com que se fazem os saborosos doces, adiado à gula dos monarcas e prelados do Brasil império, foram os principais fatores da prioridade da Bahia neste particular. E, para agradar ao paladar de uns e de outros, numa época em que o catolicismo era um fato, as doceiras batizavam os seus doces e bolos com os nomes mais sensíveis e estimados de toda gente.

Foi assim que apareceram as fatias e os toucinhos do céu, os quindins-de-freiras, as mães-bentas, os Pios-nonos, os bolos da glória, os excelsiors, os de Santa Teresa, da Trindade, os beijos-de-freiras, os pudins de Eva, os suspiros de freira, os cremes à abadessa, o creme da Virgem, as pastilhas de bispo, etc. etc.

Os vigários e abades daquela época, quando eram convidados para um almoço ou um jantar de batizado ou casamento, na ocasião de serem servidos os doces, mal podiam disfarçar a sua gula...

As donas de casa, que já sabiam do seu fraco, iam servindo as iguarias com delicadeza, apelando para o fundo religioso dos convivas:

- Reverendo, vou lhe servir mais um docinho...

– Não obrigado, já estou plenamente satisfeito, - diz o padre.

– Ó! Não recuse, monsenhor, olhe que são fatias-do-céu!

- Bom se são do céu, não posso recusar...

– Agora, um pouco de pio-nono, por favor...

– Ah! Em se tratando do nosso santo papa, vou fazer este sacrifício...

– Não diga isso, vossa reverendíssima, tem servido em tão pequena quantidade que, com certeza, ainda tem lugar para uns papinhos de anjo...

- Sinto-me verdadeiramente acanhado de estar recusando sempre, - responde o padre manhosamente, - mas os seus doces são tão bem feitos que estou quase fazendo-lhe a vontade...

– Sem cerimônia, reverendo, aqui é como se estivesse em sua casa...

E, assim, saíam eles fartos de boas guloseimas e cheios de bons vinhos, entre os quais predominava o saboroso Lágrima de Cristo (escrito em latim na respectiva garrafa) e que era o único usado no santo sacrifício da missa...


(ALMEIDA, Luís R. de. A culinária baiana e o folclore)

Topo

Jangada Brasil © 2000