O presente trabalho faz parte
de um estudo completo sobre o que propõe o autor, em seu título Alimentação
tradicional em Alagoas. A autoria é do folclorista José Maria Tenório Rocha.
Trata-se de uma pesquisa de fôlego e uma das mais completas que existem sobre a matéria,
fruto de estudos e viagens realizados pelo autor, hoje considerado um dos grandes nomes da
antropologia e do folclore nas terras de Alagoas.
Muito jovem ainda, José Maria Tenório Rocha enveredou pelos campos da pesquisa,
objetivando eternizar, em seus estudos e ensaios, o elemento folk. São inúmeras
as suas incursões nesse setor.
O estudo ou mais exatamente, a monografia de onde extraímos esta parte, é
bastante completa. Após uma nota introdutória, ele o autor avança por
todo o texto que aqui apresentamos e mostra mais seis itens importantes, a saber:
Alimentação tradicional dos índios de Alagoas, Comidas de "santo",
(considerando as religiões afro-brasileiras em nosso estado e particularizando as usadas
na Nação Nagô), Cardápio quase completo, Bebidas, Frutas (tudo ligado às citadas
religiões afro-brasileiras), após cedendo, aos interessados, uma extensa bibliografia
onde apresenta as suas fontes consultadas.
Escolhemos, apenas, a primeira e segunda parte do trabalho, uma vez que em meio ao seu
texto, insere-se a Culinária junina, objeto de perpetuação desta Revista.
(Nota do editor da Revista Joanina)
* * *
A importância da alimentação ou da culinária tradicional para todos nós, nunca é
demonstrada com evidências no dia-a-dia do mundo moderno, sobretudo, porque o homem atual
está mais preocupado com os valores estrangeiros e sente o imenso prazer em se deliciar
com os cardápios da comida italiana, francesa ou americana e abominar as coisas simples,
rotineiras, boas e, essencialmente brasileiras.
A falta de tempo ou o excesso dele faz com que, ao invés do almoço trivial
feijão, farinha, arroz e carne seja substituído pelo hot-dog americano,
temperado com ketchup, mostarda, ou, quando se tem mais tempo, almoça-se com lasanha,
pizza, strogonoff. E, como entrada vinhos rose, Chateau Duvalier,
além de outros tantos.
Sabem por que? Porque nos envergonhamos de pedir rabada de porco, cozido e tripa assada.
Como refrigerante, caldo de cana-de-açúcar e como aperitivo, licor de jenipapo ou de
pitanga. Para sobremesa, pedimos pêssegos com creme de leite, ao invés de doce de
carambola, doce de caju, doce de banana em corte, em calda ou mesmo a "banana
pessoalmente", como diz a piada contada pelo célebre trocadilista José Otávio
da Rocha.
Mas, quando o homem moderno sai do Brasil, sente, nas estranjas, a falta
terrível da comidinha caseira ou as comedorias triviais de sua região.
O célebre e imortal Vinícius de Moraes, na Carta a Tom, datada de "Porto do
Havre, sete de setembro de 1964", afirma:
"... Estou aqui num quarto de hotel que dá para uma praça, que dá pra toda
solidão do mundo. São dez horas da noite e não se vê vivalma. Meu navio só sai
amanhã à tarde e, é impossível alguém estar mais triste do que eu (...)
Vou agora escrever para casa pedindo dois menus diferentes para minha chegada: para
o almoço, um "tutuzinho" com torresmo, um lombinho de porco bem tostadinho, uma
couvinha mineira e doce de coco. Para o jantar, uma galinha ao molho pardo, um arroz bem
soltinho e papos de anjo, mas, daqueles como só a mãe da gente sabe fazer, daqueles que,
se a pessoa fosse honrada mesmo, só devia comer metido num banho morno e em trevas
totais, pensando, no máximo, na mulher amada. Por aí você vê como eu estou me
sentindo: nem cá nem lá"(...)
No Manifesto regionalista de 1926, Gilberto Freyre defende com unhas e dentes essa
culinária tradicional taxando os cosmopolitas, de maus brasileiros: "Não é só o
arroz doce; todos os pratos tradicionais e regionais do Nordeste estão sob ameaça de
desaparecer, vencidos pelos estrangeiros e pelos do Rio de Janeiro. (...) O próprio coco
verde, aqui, é considerado (muito) vergonhoso (...).
E o sentido tradicional do Brasil (que) vem desaparecendo sob uma onda de mau
cosmopolitismo e de falso modernismo. É todo o conjunto da cultura regional que precisa
ser defendido e desenvolvido".
Certa pessoa de alta expressão no mundo da cultura em Alagoas foi severamente criticada
por sua filha, no centro do comércio de Maceió, porque teve a coragem de comprar um copo
de mungunzá, daqueles que são vendidos em carrinhos próprios, atualmente.
Mas, não só esse estudioso, outros foram duramente criticados como o então governador
de Alagoas, Major Luiz Cavalcante, quando tinha a "ousadia" de comer milho
assado e chupar rolete nas praças de Maceió. Por esse desplante, recebeu o apelido de
"Lula Roleteiro".
Não estamos querendo dizer que os restaurantes chic de Maceió passem a servir
comidas exóticas como "farinha de pimba" ou "farinha fogosa" (de
Penedo), "cabeça de galo" ou "mingau da caridade" (de Rio Largo);
mas, que tentem, na medida do possível, deixar a vergonha de lado e ofereçam aos
turistas o que realmente eles querem: a comida da terra. Sururu de capote, casquinha de
siri, aperitivos e sobremesas com "cheiro" da terra. Da nossa terra. E deixem os
"churrascos" que são dos gaúchos mesmo e lá no Rio Grande é comida
tradicional, como é tradicional o "barreado" do Paraná, o "tutu", de
Minas Gerais e o "pato no tucupi", da área amazônica.
A Culinária tradicional folclórica de Alagoas é formada por inúmeros pratos e
iguarias outras, consumidas em quase todo o Nordeste do Brasil.
Damos, a seguir, uma relação dos alimentos comuns ao estado, enquadrando-os no período
em que são mais encontrados.
Culinária natalina
Por ocasião do Natal, o alagoano consome pratos tradicionais encontrados em todo o Brasil
e alguns alimentos importados mais recentemente, da Europa ou da América, como é o caso
de nozes e vinhos finos.
O peru assado tradicional é apenas consumido nas ceias de Natal das classes mais
privilegiadas.
As classes menos favorecidas consomem as iguarias encontradas nos tabuleiros das festas,
como farinha dágua, peixe assado, castanha assada, rolete de cana, tapioca, cocada
e um sem número de artigos alimentícios tradicionais que faz a alegria da criançada e
dos adultos também.
Nos natais das cidades do interior, gostoso mesmo é chupar abacaxi ou melancia "no
meio da festa", ou comer os inúmeros bolos e doces das quituteiras.
Na época carnavalesca existem os filhoses, iguaria feita com farinha de trigo,
ovos e óleo; serve-se com a calda do açúcar.
Culinária da Semana Santa
Feijão de coco e Papa de feijão, ambos preparados com leite de
coco-da-Bahia, adicionando-se os seguintes ingredientes tomate, cebola, pimenta-do-reino,
alho e cheiro verde.
Arroz no coco: cozinha-se o arroz e quando estiver quase enxuto, coloca-se o leite
de coco.
Bredo no coco, o bredo (planta da família dos amarantáceos) é ferventado,
triturado e ensopado com leite de coco e temperos comuns. Da mesma maneira prepara-se a maniçoba
(planta da família dos euforbiáceos), sendo que as folhas devem ser lavadas com
sete águas.
Bacalhau ensopado depois de ferventado e limpo, tempera-se com cheiro verde
e ensopa-se com leite de coco.
Peixe e sururu ensopado segue o mesmo processo do prato anterior.
Sururu de capote sururu (molusco da família dos mitilídeos).
Limpa-se e ensopa-se com a casca, usando os mesmos temperos já descritos, o coco-da-Bahia
e limão. Serve-se com pirão feito do mesmo caldo no qual foi preparado. Usa-se, também,
o sururu frio.
Caranguejos consumidos com pirão. Pata de uca, siri de coral, fritada de
siri ensopado e casquinha de siri.
Maçunim prepara-se de maneira como se prepara caranguejo, usando-se
coentro, sal, vinagre, leite de coco. Junta-se tudo e cozinha-se. Depois de pronto,
serve-se com arroz. Para evitar a "areia" encontrada no maçunim, ferve-se por
algum tempo, antes de colocar na panela com os temperos.
Umbuzada - iguaria feita com o fruto (Umbu), adicionando-se leite e açúcar.
Culinária junina
Milho (zea mays) assado em fogo de brasa (geralmente em fogueira).
"Cozinhado" escolhe-se as espigas de milho mais verdosas, rala-se um
pouco, cozinha-se nágua e sal, abafando com as palhas do mesmo.
Canjica espécie de mingau grosso, ou angu, feito com milho verde ralado,
leite de coco, açúcar e canela em pau; depois de pronto, polvilha-se com canela.
Pamonha guisado feito com milho verde, coco-da-Bahia e açúcar; é cozido
em saquinho feito com a própria palha de milho.
Mungunzá também chamado "chá de burro"; prepara-se com milho
desfolhado cozido e leite de coco-da-Bahia, temperado com açúcar, sal, cravo e canela.
Angu engrossado com fubá de milho, é variante do mungunzá.
Bolo de milho prepara-se com milho ralado, coco e açúcar. Mexe-se no fogo,
depois de grosso, despeja-se em assadeira e leva-se ao forno para assar. Geralmente é
cortado em pequenos pedaços, para ser servido. Existem também um bolo variante,
denominado Manuê, feito com fubá de milho e mel ou açúcar.
Bolo de mandioca mais conhecido como bolo de massa-puba: prepara-se
com mandioca, sumo de coco, açúcar e ovos. Assa-se em forno. Variante do pé-de-Moleque,
ao qual é misturado coco ralado. Assa-se em folhas de bananeira, na brasa ou forno de
casa de farinha.
Culinária tradicional das feiras
Nas feiras alagoanas, vendidos em tendas e toldas, encontra-se uma variedade incrível de
bolos e doces que chegam a seduzir qualquer pessoa que se encontre fazendo dieta. A grande
variedade inclui:
Doces
Cocada doce feito com coco-da-Bahia, seco e açúcar, vendido em tabletes.
Em alguns municípios adicionam-se leite, goiaba ou limão.
Quebra-queixo doce feito com coco raspado (e aos pequenos pedaços) e açúcar. Em
certos municípios, adicionam-se goiaba e amendoim.
Alfenim doce feito com açúcar e limão. Em alguns municípios, o alfenim
é feito com rapadura-batida e "puxada", e recebe, inclusive, o nome de
"puxa-puxa".
Doces de frutas regionais: doces feitos com mamão, goiaba ou coco, vendidos em
pequenas porções.
Broas e suspiros, também chamados de sequilhos são feitos com amido de
mandioca coco e açúcar.
Rapadura doce feito com açúcar mascavo, em forma de pequenos ladrilhos ou
"tijolos".
Iguarias feitas com mandioca
Tapioca iguaria feita com goma seca, coco ralado e sal. Assa-se em formas de
barro, frigideiras e chapas de ferro.
Beiju semelhante à tapioca, porém feito com massa puba; põe-se para assar
em folhas de bananeira.
Má-casada espécie de bolo, de cor esbranquiçada, feita com goma, sal e
coco ralado.
Grude de gema iguaria feita com leite de coco e goma, assado em folhas de
bananeira.
Outros tipos
Arroz-doce: cozinha-se o arroz, acrescenta-se leite de coco, açúcar, cravo e
canela em pau; depois de pronto, polvilha-se com canela em pó.
Cuscuz: feito com milho ralado ou fubá de milho; pode ainda ser feito com arroz,
coco ralado e sal. Cozinha-se em cuscuzeiro de barro, estando a água que fica na parte
inferior do recipiente em estado de vapor.
Caldo de cana: suco extraído em moendas. Geralmente é bebido acompanhado de pão
doce. Aprecia-se também o caldo azedo, que é resultante do caldo que fica
depositado em recipiente, de um dia para o outro.
Arribação ou Ribação arroz misturado no feijão e cozido juntos. Pode
ser servido acrescentando-se coco e tempero de peixe. (Penedo).
Farinha de Pimba ou Farinha fogosa: junta-se a farinha de mandioca um pouco de sal,
pimenta malagueta, cebola, coentro, carne de charque torrada e ovos. Pisa-se no pilão
para depois servir (Penedo).
Mingau da caridade: indicado para doentes e moribundos (Rio Largo). Mingau feito
com farinha de mandioca, pimenta-do-reino, sal e água. É também conhecido como Mingau
das almas e Cabeça de galo.
Nas festas natalinas e em festas de santo, como também nas praças e ruas aparecem
iguarias que são vendidas em pequenos tabuleiros de madeira, tais como: Amendoim (torrado,
cozinhado), castanha de caju (assada e cristalizada), rolete de
cana-de-açúcar, pipoca, sarapatel (preparado com as vísceras e miúdos-de-porco,
sem as tripas). Peixe frito, farinha de milho, farinha dágua, farinha de
castanha. A farinha dágua é feita com farinha de mandioca, coco ralado e sal.
Na zona de pecuária, é comum, em épocas de vaquejadas o Pega-de-boi ou, ainda, em
comemorações festivas, a Buchada, guisado preparado com as vísceras do carneiro
ou do bode, servido com pirão feito com o caldo no qual foram fervidas as vísceras.
Sobremesas
Ao invés de servir doces em compotas industrializados, deveríamos oferecer doces feitos
com produtos da região.
Caju seco, ameixa e em calda e castanha confeitada.
Doces: carambola, mangaba, jenipapo e de araçá.
Refrescos: de pitanga, caju, cajá, tamarindo e, mesmo, o caldo de cana.
Frutas: pinha, pitomba, ingá e outras.
Aperitivos: licores de jenipapo, pitanga ou azuladinha (aguardente de cana de
Coruripe) em sua composição, entra folhas de laranjeira.
(ROCHA, José Maria Tenório. Revista Joanina, junho de 1981)