Junho
2001
Ano III - nº 34 |
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CORRESPONDÊNCIA
AMOROSA NO INTERIOR |
Não deixa de merecer um
particular interesse aos estudiosos das tradições do nosso povo o interessante estilo
tradicional com o qual são escritas as cartas amorosas. E as etiquetas observadas.
O papel usado é o papel "China", (de cores, em geral, rosa ou azul), geralmente
denominado papel de "raminhos", por ser geralmente encimado por ramos ou
bouquês de flores. É considerada inobservância de etiqueta e desconsideração ao
namorado ou namorada, escrever cartas em papel comum. A carta propriamente dita, escrita
em prosa, sempre é curta, são poucos os que possuem a capacidade de alongarem-se num
assunto qualquer ou desenvolverem um tema poético ou romântico. Vemos então esta falta
de capacidade intelectual habilmente preenchida pelas quadrinhas populares. Valendo-se das
quadrinhas que nenhum jovem adulto ignora, os amantes dizem o que desejam ao bem amado ou
lançam o desprezo e contam seus sentimentos e desejos, conforme a oportunidade
determinar.
Muitas quadrinhas, são muitas vezes as mesmas cantadas nas ratoeiras, outras são
especiais para correspondência. Numa carta pode-se escrever três, cinco, seis ou mais
quadrinhas, conforme for o desejo e o repertório do autor e autora.
No cabeçalho das cartas usa-se ainda as seguintes aberturas: "Afetuosas
Saudações", "Saudosa, saudação sem fim", "Cordiais saudações
para o jovem", "Meu querido (ou saudoso) amante". É muitíssimo usada a
palavra "saudade" e suas derivadas. A palavra "amante" que hoje os
mais cultos já deixam quase expressivamente para determinar aquele com quem outro mantém
relações ilícitas, é ainda muito usada, tanto no cabeçalho como no encerramento, onde
vê-se "Da tua eterna amante", "Do teu fiel amante", ou ainda no
encerramento que ora tenha em minha frente: "Sem mais, envio-te mil recordações e
um saudoso adeusinho da tua eterna amante".
Muitos dão preferência (além da carta) da parte interna da tampa do envelope, para
enviar um "abraço", um "beijo" ou ainda uma quadrinha que careça de
mais segredo como seja, "pedir um beijo".
Existe ainda a preferência pelo laço de tira de papel que geralmente vem prendendo
maços de envelopes ou as folhas de papel. Enviar este laço de papel representa um forte
abraço ou o desejo de um dia enlaçar-se para sempre a esta pessoa.
As moças usam pó de arroz para perfumarem as cartas. Muitas enviam beijos impressos com
os próprios lábios pintados a batom. Os jovens geralmente não usam perfume nas cartas,
pois consideram fraqueza e falta de masculinidade homens perfumarem cartas. Mas adoram as
cartas perfumadas que recebem.
É ainda muito em voga enviarem a "dobra" de papel, chamada: Chave do coração.
Olhando esta dobra vemos na primeira parte (a de cima) uma chave desenhada e a frase:
"Pegue esta chave com a tua mão". Abrimos as duas primeiras pontas e vemos
desenhado um coração e a frase: "Abra com ela o meu coração". Mais uma vez
abrindo as duas segundas pontas, vemos um segundo coração desenhado, no centro da
terceira dobra, de maneira que fica em quatro partes. Este agora é atravessado por um
punhal. Lemos a frase: "Veja como está todo ferido, por tua causa todo
partido". Abrindo todo o papel, que toma a forma retangular, lemos no centro a
quadrinha:
"Aqui vai o meu coração
partido em quatro pedaços
vai terminar de morrer
em teus delicados braços"
Vemos então algumas quadrinhas para exemplo. Geralmente um procura respondê-las conforme
o primeiro escreveu, exceto nos casos que um quer pôr fim ao romance e o outro não
concorda. Ou quando um pretende iniciar e o outro não deseja.
Exemplo de quadras que podem ser trocadas entre dois namorados que se compreendem:
Vai te carta venturosa,
visitar quem eu quero bem,
vai contar que fiquei chorando
Por não poder ir também.
Na folha da sempre vida
teu nome quero escrever,
Não sendo feliz contigo,
com outra não quero ser.
Menina dos olhos pretos,
Corda de meu coração.
Nem que teu pai ponhe guarda,
sentinela no portão.
Hei-de romper a guarda,
E consolar teu coração.
Não mando-te meu coração
Porque terei que arrancar
Arrancando eu sei que morro,
Morto não posso te amar.
Com pena peguei na pena
com a pena pra te escrever
Com pena larguei da pena,
com pena de não te ver.
Eu amo a letra A
E por ela tenho paixão
quem fala da letra A
Fala do meu coração.
Desde a hora em que te vi
Meu coração te adorou
na corrente de teus olhos
minha alma presa ficou.
A carta pede licença
a letra pede perdão.
Espero que aceites:
Lembranças dum coração.
Joguei a pena pra cima
Caiu no chão fez um F
Quero bem esta letra F
A rica letra da flor
Por sem a primeira letra,
Do nome do meu amor.
A flor do lírio cresce
Mas no céu não pode chegar,
Se casamento for sorte
Contigo hei-de me casar.
De dois namorados distantes:
Triste dia foi aquele
que o destino nos separou
as pedras choraram sangue,
o sol tremeu e parou.
Lá do céu caiu um cravo
pelo ar se desfolhou.
Meu amor é tão ingrato,
Foi embora e me deixou.
Queixas e pedidos:
Tenho sede tenho fome
tenho sede não de vinho
Tenho sede tenho fome
tenho sede dum beijinho.
Eu a amar-te, tu a amar-me
não sei qual será mais firme
Eu como o sol a procurar-te.
Tu como a sombra a fugir-me
Cedro verde encopado
natural duma cidade.
Tenho visto tantos olhos.
Mas só do teu tenho saudade.
Sonhar contigo meu bem
muitas vezes tenho sonhado
Sonhando contigo e vendo
quanto dói uma saudade.
Quando vejo a tarde triste,
com ares para chover
Faz lembrar que são meus olhos
que choram por não te ver.
Nas folhas do mato virgem
em todas elas bate o vento
É triste se querer bem
quem não tem conhecimento.
Benzinho meu benzinho,
benzinho de meus querê
É uma infelicidade benzinho
Namora tudo o que vê.
Coração que ama dois
pode amar até três
ou me use uma firmeza,
ou me deixe duma vez.
Lá do céu caiu um cravo
no ar se desfolhou
quem quiser casar comigo,
fale com quem me criou.
Benzinho meu benzinho
Deixe de ser desconfiado
Que eu por outro não te deixo.
Podes viver descansado.
Eu não me queixo, tu te queixas
Não sei qual tem a razão
Tu te queixas de meus erros
Eu da tua ingratidão.
Moça dos olhos pretos
Dentes de marfim dourados
Quero teus pais para meus sogros
teus irmão para meus cunhados.
Terminando o namoro ou brigando:
Lá do céu veio um anjinho.
Só por Deus veio mandado
Veio só para dizer:
Que nosso amor está acabado.
O anel que tu me destes
Era vidro e se quebrou
O amor que nos unia
Era pouco e se acabou.
Não quero mais ver tua cara.
Já te dei bom desengano
Não me importo que tu morras
Atolado num pântano.
Quando eu te queria bem,
Pulava cerca de vara
para ver a tua cara
Hoje pula a cerca de espinho
Pra não ver os teus focinhos.
É assim cantando como os passarinhos que os namorados sertanejos trocam juras de amor. E
nem mesmo quando vêem o romance desfeito não deixam de cantarem. Continuam cantando como
pássaros solitários e ainda dizem: "Quem canta, seu mal espanta".
Campos Novos, 30/04/1954
(MEDEIROS, Constantino. Boletim da Comissão Catarinense
de Folclore, setembro/dezembro de 1954) |
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