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MEDICINA

Se a arte bélica estava bastante desenvolvida, já a nossa medicina - digna dos mais longínquos coêvos - era rude, atrasadíssima, capaz de fazer corar a Hipócrates...

Algumas receitas, outros meros preceitos higiênicos e algumas práticas nos ministradas sob a forma mítica, pela curiosidade e interesse que possam despertar, merecem figurar neste florilégio.

Para estancar, ou melhor, usando de nossa terminologia - talhar o sangue, colocávamos açucar sobre o corte. Melhor resultado obtinhamos com teia de aranha, de efeito imediato e eficácia comprovada. Apesar do pó e da sujeira aderida a essa baba colhida nos porões de casa, nunca apanhamos infecção alguma.

Ninguém queria ficar anão, e, por sustar o crescimento, não pulávamos por cima de outra pessoa que estivesse sentada no chão, ou de cócoras, nem permitiamos que nos saltassem.

Seguro indício de que crescemos, é sonhar que se está caindo de cima de uma casa sobre as tábuas da cerca cerradas em ponta, numa queda angustiosa, que nunca tem fim, e em que sentimos aflição pelo esforço dispendido em sustar a queda, como se fosse possível parar, suspenso no ar.

Fio de cabelo com raiz guardado em uma garrafa com água, hermeticamente fechada, não sei por que miraculosas revoluções químicas e biológicas se transforma em cobra. No dia em que essa cobra conseguisse escapar - afirmávamos convictos - morderia a pessoa que colocara o cabelo na garrafa, causando-lhe a morte.

Quando uma bomba, dessas que faziam o encanto das noites joaninas, rebentava antes que a pudéssemos lançar fora, mijávamos sobre a mão para minorar a dor e evitar o inchaço.

No entretanto, cuidávamos não pisar, com pés descalços, em urina de cavalo, de medo de contrair "mijacão". Até hoje, confesso, não vi ninguém acometido de tal, nem sei que estranha doença é essa...

Não desconhecíamos as virtudes curativas do sal, nem faziamos ouvido mouco à voz da experiência:

- O que arde, cura;
O que aperta, segura...

Para acabar com a tosse, fingida as mais das vezes, pedíamos à mamãe um pires com açúcar e canela... e parecíamos formigas sobre tão deliciosa guloseima!

Sabíamos, também, para atalhar os soluços uma simpatia infalível: tomar nove goles de água, com a respiração presa e o pensamento fixo num morto querido. Na falta do copo d’água, na ocasião, pregávamos um susto à pessoa acometida de soluços, e o efeito era o mesmo, apesar de violento.

Aos que se engasgavam, acudíamos pressurosos e prazeirosamente com murros nas costas...

Para derrubar bichas - como abominávamos os lombrigueiros! - nada melhor do que sementes de abóbora secas ao sol ou sobre a chapa do fogão, e "pele" de coco, ou "casquinha", como vulgarmente denominávamos o tegumento do coco.

Para fazer baixar o "galo" proveniente de contusão na cabeça, aperta-se de prancha com a lâmina da faca.

O pó das asas de borboleta, que adere aos dedos, é venenoso; levado aos olhos causa a cegueira.

Tomar água, leite ou vinho - especialmente estes últimos - logo após ter comido certas frutas, como pêssego, manga, melancia, é perigoso e mesmo fatal, causando em geral a morte.

Curiosa receita é esta: sabão preto, açúcar preto e azeite. Fazer destes ingredientes uma pasta e aplicá-la sôbre o licenço. Esta pomada "puxa" toda a matéria e faz rebentar o tumor.

Para sarar "viúvas", que tantos incômodos causam aos olhos, há uma simpatia muito boa: olhar para o nascente pelo gargalo de uma garrafa, fitando o sol através do fundo, com o olho doente.

As ínguas, porém, só vovó as sabia curar. Ela esparramava um punhado de cinza no chão e nos fazia colocar o pé em cima. Tomava da faca e riscava, contornando-o. Arredávamos, então, o pé e vovó à proporção que ia traçando cruzes na cinza, sobre o desenho impresso, dizia:

- Corto...

- Íngua - respondíamos nós.

- Corto...

- Íngua.

- Corto...

- Íngua.


(RAITANI NETO, Felício. Lendas e crendices da minha infância)