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DANDÁ, DANDÁ, PRA GANHÁ TEN-TEN...
Entre as antigas e
tradicionais famílias cariocas, e, quiçá de algumas outras partes do Brasil, há um
velho e interessante costume de, quando as crianças, que ainda engatinham, põem-se em
pé, tentando, assim, darem os primeiros desequilibrados passos para a marcha ereta, serem
estimulados pelas pessoas presentes com a seguida e repetida frase, cantada e acompanhada
de palmas: "Dandá! Dandá pra ganhá ten-ten".
Muitas pessoas julgam que esse ten-ten refere-se ao já desaparecido vintém, ou,
ainda, à antiga moeda de dez réis, de cobre, que circulou no tempo do Império,
apelidada pelo povo de "xenxém"...
Nada disso.
A origem desse antiquado costume vem da época da conquista e colonização de nossa terra
pelos lusitanos invasores.
O ten-ten [1] em questão é uma pequena e linda ave
brasileira facilmente domesticável, de cor preta, com a cabeça e os encontros amarelos,
notável pela excelência do seu canto, espécie de rouxinol, cujo nome científico é Leistes
Militaris, pertencente à família zoológica dos Icterídeos [2].
É sabido que as crianças tamayas [3], ao contrário dos
filhos dos portugueses, não usavam bonecas como brinquedos e sim vários animais que eram
domesticados nas tabas, e os selvagens eram habilíssimos nesse mister.
Ora, antes da introdução dos negros africanos no Brasil [4],
eram as mulheres índias escravizadas utilizadas como mucamas [5].
Foram elas que introduziram no seio das primeiras famílias do branco português, em cujas
residências serviam, essa expressão familiar até hoje, empregada comumente para nossos
petizes que iniciam os primeiros passos vacilantes.
Naturalmente, para os curumins [6], seus filhos, elas dirigiam-se
em sua própria língua; mas, à medida que, por contato diário, iam aprendendo a
linguagem da metrópole [7] falada pelos "chegados da
terra", procuravam traduzir essa frase brasílica para os filhos dos senhores
brancos, por elas também criados. Havia, pois, uma miscigenação lingüística,
precursora da "língua brasileira" atual...
Acontece, porém, que habituados com a pronúncia de sua língua nativa, o tupy, que é
aglutinante e isento dos RR fortes dos lusos, a expressão aportuguesada saía
assim: Dandá (em lugar de "andar"); pra ("para"); ganhá
("ganhar"); ten-ten, a conhecida ave domesticada, brinquedo infantil.
É interessante notar que esses passarinhos eram criados, desde muito tenros, e
alimentados por elas com o leite dos seus próprios seios, tornando-se, asssim, muito
mansos e por isso muito estimados esses cherimbados [8]...
E, destarte, há mais de quatrocentos anos, essa e outras tradições nacionais de origem
ameríndia são conservadas integralmente pelo nosso povo, como a que acabamos de citar.
Nestas condições, a plebe e a classe média da sociedade brasileira, comportam-se como
um verdadeiro "cerne da nacionalidade", no dizer feliz do imortal Euclides da
Cunha. Resistem aos estrangeirismos desnacionalizadores e dissolventes da época atual.
Notas:
[1]. Vocábulo tupy que significa: "o que é forte em aparecer
na guerra ou fora dela".
[2]. Estudado pelo notável naturalista patrício Eurico Augusto
Xavier de Brito (Artigos zoológicos. Rio de Janeiro, 1890/1960)
[3]. Ou tamoyos. Tribo do grande tupy. Habitantes do território do
atual estado do Rio de Janeiro. Quase que inteiramente destroçados pelos portugueses,
são hoje representados pelos remanescentes - os tapirapés, em Goiás, onde foram
visitados pelo professor Othon Machado (ver desse autor Os carajás, 1946).
[4]. A partir de 1586?
[5]. Corruptela de mocamby, alteração do vocábulo tupi mocambu,
que quer dizer: "fazer mamar, amamentar, criar ao peito". Apelido das índias
que amamentavam as crianças nativas e as brancas. "Mulher de leite".
[6]. Posteriormente, alterado para columy, por influência
africana. No tupy não há o som da letra L.
[7]. O uso e estudo da língua portuguesa no Brasil foram impostos à
força, sob severas penas, em virtude da provisão do rei de Portugal, datada de 12 de
outubro de 1726 (ver Boiteux). Até então, a língua mais falada era o nheengatu (a
língua boa, de gente), também conhecida por "língua geral"; falada,
inclusive, pelos portugueses e africanos, os quais chegavam a esquecer sua língua e
idiomas de origem.
[8]. Derivado de mimbaba, nome
indígena do animal doméstico, de estimação. Che: meu, minha; mimbaba:
estimação.
[1950] |
(OLIVEIRA, Agenor Lopes de.
Comunicação
à Comissão Nacional de Folclore) |
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