| Os
segredos do futuro
Sortes extraídas de um curioso livro editado no começo do século XX, intitulado Os
segredos do futuro; livro de sortes para divertimentos nas noites de Santo Antônio, São
João, São Pedro, Santana, Natal e Reis. (Rio de Janeiro, Livraria Quaresma, 1914)
Onde está o seu amado?
(para senhoras e senhoritas)
2
Estava, há pouco, comendo
Um pedaço de leitão,
Grande copazio bebendo,
Pra festejar São João
3
Vi-o, coitado, na sala,
Culpada deves ser tu,
Engasgado, já sem fala,
Com farofa de peru.
4
Aproveitando uns momentos
Que estavas em distrações,
Fez qüatorze juramentos
E doze declarações!
5
Stá aqui; o coração
Esse está muito distante,
Pensando em velha paixão,
Do tempo em que era estudante.
6
Está fingindo de contente,
Mas isso não é natural;
Quer ver se entre esta gente,
Fala com a tua rival.
7
Estava há bem pouco em casa,
Com um projeto insensato:
Tirar sardinha da brasa
Com as munhecas do gato.
8
Estava aqui, porém surpreso,
Se retirou meio amuado,
Porque notou o desprezo,
Com que o tinhas maltratado.
9
Está ausente. mas não tenhas
Saudades de tal sujeito,
Pode ser que um dia venhas
A saber o que tem feito.
10
Enquanto você falava
Com outro no corredor,
O maroto aproveitava
Dando corda noutro amor!
11
Está longe, te julgando,
Fiel ao que prometeste,
E inda agora, tu, valsando,
Um bilhete recebeste.
12
Está presente nos salões,
De vez em quando a fumar,
Procurando umas razões
Para contigo brigar.
Onde está a sua amada?
(para homens)
2
Está longe dos olhares
E perto do coração,
Afogando seus pesares,
Nos fogos de São João.
3
Está perto, bem se vê,
Precisando te falar;
Porque não pede você,
Para, com ella, dansar?!
4
Está perto te intrigando
Com uma moça tagarella,
Você vá se aproximando,
Para ouvir o que diz ela.
5
Esteve sentada à mesa,
Comendo e bebericando,
E depois, à sobremesa,
Foi um flirt começando.
6
À janela estava agora,
Prestando toda a atenção,
A um sujeito que namora
Muitas moças no salão.
7
Esteve dançando há bocado,
Com um rapaz estudante,
E tu estavas barrado,
Se elle não fosse pedante.
8
Esperta como raposa,
E sempre desconfiando,
A tua futura esposa
Estava há pouco te espiando.
9
Esteve perto da fogueira,
Ao piano e no salão;
Foi ouvir muito ligeira,
Um segredo no portão.
10
Enquanto você comia,
Fatias de pão de ló,
Ela contente sorria,
Para um meloso coió!
11
Com um mocinho dansou,
(Rapaz que não é daqui);
E finalmente se sentou,
Perto dele que bem vi!
12
Ela com outra morena,
Ria de ti-na sacada;
Ponha já de quarentena,
Mulher que a muitos agrada.
Será pedida em casamento?
(para senhoras e senhoritas)
2
Se por ele não existe
Mentira nem fingimento,
Muito breve não resiste
E te pede em casamento.
3
Antes disso muita gente,
Teve a morte em garra adunca,
Serás pedida brevemente...
Lá pro dia de São Nunca!
4
Serás pedida e quando menos
Nisso, pensando estiveres,
Correrão dias serenos,
Até a época que queres.
5
Pedida por dois ou três,
Hás de ser; a sorte o diz,
Mas a questão é que talvez
Com nenhum sejas feliz.
6
Tu podes ser requestada,
Nenhuma dúvida há nisso,
Basta estar enamorada
E acceitar um compromisso.
7
Pedido não quer dizer
Que casar seja uma cisma,
Mas bem pode acontecer,
Que seja um erro, um sofisma.
8
É destino da mulher,
Mão formosa oferecer;
Pode pedi-lá qualquer,
A questão é de querer.
9
Casar, decerto, concede,
A sorte a quem lhe agradar,
Por isso há gente que pede,
Para depois desmanchar.
10
Não deseje ser pedida;
É meia escravidão;
Leve a vida divertida,
Até melhor ocasião.
11
Se você pedida for
É caso de parabém;
Será um drama de amor,
Porque és pobre e sem vintém.
12
Não é tal sorte a primeira,
De muitas moças da zona,
Nem será a derradeira
Que fica pra solteirona.
Pedirá alguém em casamento?
(para homens)
2
Mesmo que faças pedido,
Desengano vais levar,
Pois não será atendido
Por dinheiro te faltar
3
Pedes sim e certamente,
Tu serás bem atendido;
Trabalhador, inteligente
Mesmo pobre és preferido
4
Tu és louco e nada mais...
Não sabes que vais fazer;
Tirar a filha dos pais,
Sem emprego pra viver.
5
Se a menina te prefere
E é prezada donzela,
O teu desejo confere;
Vais à igreja com ela.
6
O teu saber é profundo
Mas não produz e não brilha;
Haverá alguem no mundo
Que te entregue uma filha?
7
Ela diz em cada canto
Que te deu amor ardente;
Se não pedes, rompe em pranto
Na cama que é lugar quente.
8
Ela é feia mas é rica.
O arame está muito vasqueiro
Se você não pede, fica,
Sem mulher e sem dinheiro.
9
Tem muita força a beleza
Aliada à sedução
Hás de pedir com certeza
E não te negam a mão
10
Se a família não ta der
É porque alguém te difama;
Mas peça, se ela quiser,
Pois quem não chora não mama!
11
Um pedido mais falado,
Certamente aqui não houve
Enforca-te se fores barrado,
Num talo verde de couve.
12
Vá pedir a diva antiga,
Fazendo as pazes com ela...
Lava, engoma, é tagarela,
Mas não é nenhuma espiga.
(XICO-BRAZ. Os
segredos do futuro; livro de sortes para divertimentos nas noites de Santo Antônio, São
João, São Pedro, Santana, Natal e Reis)
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Correio
dos namorados
Ao acaso, num 12 de junho, dia dos namorados, tive em mão o livreto de cordel com o
título acima, também denominado Novíssimo dicionário das flores.
É tradicional, amiúde reeditado, não sei se com aplicação, mas sempre estimado entre
os da roça.
Não compreendemos como nasceram os significados lá enfileirados e como exóticos
vegetais, até raizes, tiveram interpretações, mas muitos estão dentro de alguma
lógica das várias noções do passado, embora estas tenham, também, nas mais
expressivas uma complexidade a constatar.
Assim, porque a acácia significa "sonhei contigo"?; já a azeitona (só a
verde) = prazer, venturas e alegrias (o caso virá da Grécia ou de mais longe?).
No selecionamento de certas afinidades de sentido (?) com o nome das plantas
apresentarnos:
abóbora = esperança vã, talvez por ser oca;
agulhas = intriga; o alecrim, nas suas várias espécies, como ocorre com outros vegetais,
tem vários significados;
alface = vaidade (aí a explicação dos "alfacinhos" em Portugal);
jacinto = dor;
almeirão = impaciência (por amargor?);
algodão em rama = amizade verdadeira (por ser branco?);
amor perfeito = existo só para ti;
araçá de pedras = tropeços;
arruda = castidade (a arruda é de sortilégios, dando sorte);
babosa = enredos (por ser gomosa pegando nos dedos?);
banana maçã = merecimento (talvez pela fama de digestibilidade);
bainetas (têm outra denominação?) = tem dó de mim;
beldroegas = variedade;
balsa de pastor = prevenir;
boquinha de moça = aflição:
borragem = modéstia;
caju = paixão desgraçada (pelo travo?);
canas doces = repitamos (pela seqüência da mastigação?);
cará mimoso = cativar (e porque o vegetal tem aquele nome?);
carrapicho = malícia;
cabelo de Vênus = simpatia;
coco de dendê = tudo é teu (pelas oferendas africanas?);
couve = estou com sono (tem fama de indigesto...);
cravo de defunto = pouco me resta viver;
cravo branco = inclinação afetuosa (já o rajado significa súplicas);
cruzes de Malta = martírio;
damas azuis = ternura;
dormideira = incerteza;
ervilha de cheiro = prazer delicado (pelo suave perfume?);
esporas brancas = apressa-te;
favas = fazer seleção (daí a locução "ir às favas");
flor de laranjeira = afabilidade;
flor de lis = poder ou grandeza dalma (vejam portanto a correlação nas armas
antigas da França);
folhas de loureiro = premiar;
folhas de parreira = fidelidade e amor (a consultar a devoção de Adão);
funcho = sofrimento (lembrar a expressão "enfunchado");
fruta de pão = fastio de amor;
girassol = fugir do amor;
goiaba = apertos (é adstringente);
grelo de maracujá = acordei com sobressaltos (e é sedativo para o caso...);
grelo de nabos = arranhos como gato (reparem como é áspero mesmo...);
grinaldas (é vegetal?) = cadeia de amor;
incenso = lágrimas;
Isabel entre sonhos = mimos de amor;
jaboticaba = vem me ver (olhos de jaboticaba...);
laranja da terra = amarguras;
limão azedo = crueldade (no ponto de vista de azedume);
lírio branco = ardor (como devocional);
loureiro = triunfo (é típico na Grécia Antiga);
madresilva = respeito;
lírio dos vales = és leviana (na forma de alastrar-se?);
mal-me-quer = amor oculto;
marmelo = arrependimento; mamona = impertinência (é o caso típico da
"carrapateira");
manga = ora, não fales nisso! (é proverbial: "estar mangando"...);
maravilhas = admiração;
martírios = sofro martírios;
maxixe = libertar-se;
melindres = delicadeza;
monsenhor branco = não quero mais amar;
mostarda = furor (ver a locução "subir a mostarda ao nariz"...);
miosótis (o forget me not) = não te esqueças de mim;
narciso = amor próprio;
papagaio (planta) = não fales sem pensar;
pepinos = fazer acintes (arrebitado ele é, como, também, molestador);
pimenta malagueta = estar ardendo;
pitangas = passeio (encontradiça em tal caso);
primavera = desejo amar;
resedá = tuas qualidades encantam (pelo rescender?);
rosa branca = afeição (realmente tem louçania);
romã (fruta trazida por conquistadores?) = ambição;
rosa de todo o ano = continua e vencerás;
sabugueiro = últitno recurso (é remédio anti-febril);
saudade roxa = melancolia;
saudade branca = sinceridade;
suspiro (vegetal) = até quando?;
palma de Santa Rita = ofereço minha mão;
trepadeira branca = pela janela;
trigo = dias de casamento (Ceres e outras analogias com Roma Antiga);
tulipa = honestidade (os holandeses têm tais pendores de cultivo...);
uvas moscatéis = contentamento;
violeta = candura (mesmo as roxas são de tal expressão nítida);
vanilha (baunilha) = amor extremoso (tem esta ou não o perfume enebriante?).
Revisamos toda a primeira parte do livreto e aí estão pontos curiosos, merecendo maiores
comentários além dos feitos entre parêntesis.
Mas, nos nomes de vegetais em que nada encontramos de expressivo, talvez sendo pura
convenção, ainda que de origens remotas e diversificadas O manual está
cheio... Vamos pois, exemplificar:
salsa = não desanime;
tomates = querer;
trevo = vem segunda-feira;
tinhorão = a ninguém mais amo;
chuchu = há novidades em casa;
rabanetes = repreensão;
pêssego = docilidade;
pimentão maduro = amas a todos;
malvas = acautela-te;
melão = nós nos queremos;
lima da Pérsia = vontade;
jaca mole = não me importa;
gervão = esperança baldada;
magnólia = não entendo;
gergelim = vivo para ti;
jiló = singeleza;
folhas de limeira = mexerico;
flor de macieira = voluptuosidade;
folhas de laranjeira = raiva;
coco da Bahia = não sejas ingrato;
coco de catarro = chega à janela;
camélias = aceito com alegria;
aveleira = reconciliação;
banana da terra = antipatia;
ananás = meiguice (mas para tanto espinho?!);
ananás de coroa = vitória;
açafrão = há diferença na amizade;
aipim com casca = temor de desgraça;
abacate = traição; etc., etc.
Limitamos estes curiosos registros de dúvidas, para os que quiserem tentar algo
explicativo.
Notamos, também, que, nas flores, em que existe o branco e, também, espécies vermelhas,
estas últimas têm significado oposto; exemplificando;
margarida branca = é tua a minha mão (já com relação à vermelha = estou prometida).
Vimos, também, nomes de plantas que são, talvez, especiais de Portugal e cores que,
realmente, são de surpreender, como cravo verde e rosas azuis...
No mesmo livreto uma parte final tem indicativos (aí bem convencionais) para marcações
de horas, significados de pedras preciosas (já os orientais faziam suas conclusões!!),
referências emblemáticas das cores e até o telégrafo amatório (pelos gestos), além
das espécies de amor, com as suas descritivas e os motivos que em tais casos devem
preponderar em cartas.
(CAMINHA, Vítor B. Em Boletim da Comissão Catarinense de Folclore) |
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