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Sumário | Festança | Cancioneiro | Imaginário | Oficina | Palhoça | Colher de Pau | Panacéia | Catavento



Toda a gente sabe dos empecilhos encontrados outrora pelos que se amavam, antes do padre consentir em que se unissem. O excessivo recato, os preconceitos do sexo, as precauções dos pais, o medo da boca do povo, constituíam motivos fortíssimos para se evitar o contato entre os jovens de calças e de saias já compridas. Atualmente, porque os rapazes usem calções nos esportes e nos banhos de mar e as moças na adolescêncla conservem curtíssimas as saias, já não vigoram tais rigores nem cautelas. Mas antigamente!

Que o digam as gelosias dos sobrados, as cadeirinhas de rebuço, os véus espessos, a proibição das mulheres aparecerem às visitas e sentarem-se às mesas com estranhos, os casamentos acertados entre os pais sem os noivos sequer se terem visto um dia. E outros pedacinhos da moral dos tempos. Tudo isso, é bem verdade, vai muito distante, e já no século XIX, pelo menos na sua última metade, processavam-se transformações profundas nesses assuntos do coração. Houve uma "liberdade tal" que assanhou os moralistas da época, e acres reprimendas surgiram na paisagem social. No capítulo das danças, os versinhos mordazes do Carapuceiro são incisivos, o padre Lopes da Gama, que o redigia, não tolerava a moda dos pares rodarem sozinhos, em conversas, risinhos, sem dúvida "maldades". E aconselhava a pais e maridos:

Não deixeis que filha ou esposa
Em baile ou visitação
Fique ao pé dum maganão
Apoiado cochichando:
Por certo não estão rezando

As quadrilhas e polcas, que substituíam os minuetos e outras danças inocentes, eram pretextos temíveis para namoros e tentações. E mais:

Quadrilhas e balancês
São favoráveis ensejos
Se não de furtivos beijos
De abraços e apertões
De introduzir petições.

Essas petições, se não recebiam, na entrada, o carimbo do protocolo paterno, não se admitiam sem quebra da disciplina e da moralidade.

Os conselhos não surtiram muito efeito no sentido de travar a evolução das práticas modernas na sociedade. Os amores lograram muita franquia. Os corações já se escolhiam por si mesmos, e os namorados se viam, embora a furto ou de sentinela à vista... Tempos das varandas, dos sinais com flores, dos lampiões de esquina, das cartinhas em papel enfeitado de cromos e dos postais com pensamentos e versos... Mas ainda havia muita dificuldade, muito aperreio, muita oposição, maxime quando existiam irmãs ou tias solteironas em casa, aliadas a vizinhas em idênticas condições de desesperanças de um noivo. Eram bisbilhotices, denúncias, desfeitas, o diabo. Trancavam-se janelas, punham-se vigilantes no jardim ou no quintal, proibia-se a ida à missa, cortavam-se por todos os meios as ousadias do "bilontra".

Na verdade, freqüentes vezes tais providências visavam salutarmente evitar casamento com um "espia-maré", tipo sem eira nem beira, de maus precedentes, e que apenas se candidatava a uma noiva rica para depois desfrutar o dinheiro dela com as "cômicas"... Não seriam raros, porém, os casos em que os estorvos nenhum fundamento plausível tinham, e com eles os futuros sogros estavam simplesmente sujando bem a água para mais tarde bebê-la, em gostosos sonos, achando o genro excelente amigo... Aliás, o pecado não se acabou de todo com as épocas, convenhamos.

Nesses apertos de amores contrariados, aparecia quase sempre um cireneu. Em geral era o preto cativo ou a negra escrava. Teriam criado a sinhazinha ou o ioiôzinho, morriam de querer-lhe bem, e, nessas conjunturas, resolviam fazer o papel de onze-letras, embora arriscando-se ao tronco, às surras é até à venda para um engenho cujo senhor tinha fama de "judeu". Levavam ou traziam o bilhetinho, a flor, o presente. Ou o próprio recado verbal. Também como alcoviteiras se ofereciam aquelas velhas devotas, de lenço branco na cabeça e vestidos ruços, freqüentadoras das famílias, que as protegiam com esmolas, jejuns, trajes usados, restos de refeições. Algumas vendiam rendas de almofadas, bonecas de pano, bolinhos de goma, não lhes sabendo passar por mendigas. Nem sempre acobertavam idílios inocentes de jovens solteiros; atribuíam-lhes a missão criminosa de fomentar paixões adulterinas. Daí o alerta:

A mor parte destas bruxas
Mostram-se muito fagueiras
Com casadas e solteiras
E à sombra do biquinho
Vão impingindo o escritinho.

Não seriam todas. Abundariam as que se dedicavam a fazer casamentos. Pelo menos haveria uma casa a mais onde recebessem benefícios dobrados de gratidão... Até netinhos viriam aumentar o seu prestígio de antigos correios de amores contrariados.

Os derradeiros anos do século passado e os primeiros do atual estavam já bastante mudados em confronto com o que houvera, nesse particular, anteriormente. Bailes, teatros, novenas, prados, Carnaval, todas essas festas religiosas ou profanas davam oportunidade a encontros; contatos, confissões, promessas, ajustes.

Os tempos eram outros, muito embora as cerimônias do "pedido", as exigências de um vigilante ao pé dos noivos, a proibição absoluta de andarem sozinhos, vigorassem em toda a plenitude. O enfin seuls daqueles cartões-postais ilustrados, tão em voga por volta de 1900, refletia realmente uma situação íntima de rigorosa usança no tempo. Só no dia do casamento, ao se retirar o último conviva, os noivos se viam pela primeira vez na vida inteiramente sós.

Uma das modalidades mais interessantes dos recursos de correspondência dos namorados de outrora proporcionou-se-lhes quando surgiu a imprensa. Parece estranho e é paradoxal: - as manifestações mais discretas dos corações viram-se expostas, por circunstâncias especiais de privação de ensejos, a se revelar publicamente numa coluna de jornal. Guttenberg sem dúvida nunca pensara em tal utilidade de seu invento. Este servira para descobrir mundos, para disseminar idéias, para revolucionar povos, para espalhar acontecimentos; mas quem avaliaria viesse a ser veículo de ternuras, de ciúmes e de confissões? Religião, política, ciência, agricultura, comércio, artes, muito bem. Mas amores contrariados, isso era novidade. E, no entanto, foi o que se viu. Prestou valioso auxílio aos namorados de então. Constituiu até, na rigidez editorial das folhas de outrora, a nota viva, ágil, musical, por entre avisos de "barcas de vapor", anúncios de "cabras-bichos para vender", queixas contra o costume de se atirar água suja da varanda sem prévio grito de alerta aos transeuntes...

Num cartãozinho assim:

M. J.

Não posso esquecê-la.

D.

Estava um poema. "M. J." Quem era? Maria Joana? Maria José? De que rua, de que arrabalde? Ele, o D. (Donato? Dionísio?) o saberia bem. E precisava dizer à moça que não a podia esquecer desde que a vira numa festa. Fazia-o daquele jeito.

Outro, porém, tinha motivos diferentes para se manifestar:

Saudades de uma ingrata.

C. S.

 Mistério. "Ingrata". Os namorados quase sempre julgam ser mistério o que os mortais conhecem de sobejo por já terem passado pelo mesmo caminho.

E os que eram poetas, hem?

Esses não se contentavam com as declarações e os queixumes em prosa, recorriam aos versos:

Era amado por ti, era querido
Por ti que me roubaste o coração,
Mas hoje teus olhares são mudados
Já teu peito por mim não tem paixão.

Outrora em teu olhar tão puro e lindo
Eu lia meu futuro esperançoso,
No arfar dos teus seios melindrosos
Julgava-me, então, ser mui ditoso.

Hoje vejo adverso o meu futuro,
Hoje creio que tudo era ilusão;
Teu olhar só me mostra brilho impuro,
Teu peito só me dá ingratidão.

Provavelmente nada dessas suspeitas era real. Ciúmes, simplesmente. Nela o amor persistiria firme, imutável. Ele é que se mostrava insaciável nas provas de afeto da sua eleita. Ou, talvez, esses versos não passassem de "mágoas de poeta" - poeta desses que inentam as próprias dores. Doentes imaginários de amor. O desfecho terá sido outro. Noivaram, casaram-se, foram dignos de uma "lua-de-mel eterna".

Essas lamúrias tornavam-se comuns:

Quem sabe se mesmo agora,
Enquanto eu só penso em ti,
Não te alegras distraída
Sem te lembrares de mi?

Vê-se aí nitidamente o timbre do ciúme. O poeta é igual a milhares de outros. A todos os poetas do tempo. Os do século XIX e ainda os do XX. (Cala tua boca, cronista! Tens a língua preta!) Uns transbordavam esses sentimentos passionais pelas solicitadas. Os mais felizes vinham mesmo pelas páginas editoriais. De qualquer modo a finalidade não variava: madrigal, queixume, recado...

Teus olhos são dois focos de ternura
Que me prendem, perturbam e me arrebatam.

Houve, nesses amores de solicitadas, pedacinhos cômicos e irônicos. Certo dia uma dessas almas apaixonadas desaguou assim para um jornal do seu tempo:

A...

Mulher, ainda um dia quero
A teus pés pedir perdão
Dos crimes por mim passados,
Deixar de amar-te isto não!

Cumprirei a sentença dada
Lavrada por vossa mão,
Tudo cumprirei enfim,
Deixar de amar-te isto não!

Antes de tudo haver sofrido
Quero entregar-te o meu condão
Para urna lembrança esquecida,
Deixar de amar-te isto não!

Ainda um dia hei de ver-te
Por vós dada a absolvição
Proferindo estas palavras:
Era quem me amava? Não.

Arrependida do que vos fiz
Também vos peço um perdão,
Foram queixas e estas tais
Que vos ofereço a minha mão.

V.

Na verdade, como poeta, esse apaixonado não merecia muito amor... E talvez porque a sua deusa tivesse maiores exigências literárias, no outro dia vinha pelo mesmo jornal esta resposta, que, embora incisiva, não se mostrava, quer poética, quer gramaticalmente, mais feliz:

À V.

Meu poeta vou pedir-te
Que não sejas bestalhão;
Dos crimes por mim passados
Não te perdôo, isto não.

Vai cumprir "vossos deveres",
Estudar vossa lição,
Pois escuta meu bestunto:
Vosso amor não quero não.

Que importa teres sofrido?
Vai prá lá com teu condão
Para uma lembrança esquecida
Terás, sim, reprovação.

Desde há muito que vós tínheis
A minha condenação,
Pois eu sempre desprezei
Vossa parva amolação.

No fim do ano .dirá:
"Fui sempre da aula um fujão
Por isto meu pai me espera
Com uma tunda de bordão."

J.

Houve nessas publicações verdadeiros romances de amor, para quem as acompanhou com interesse e constância. Um deles, em tempos recuadíssimos, começou assim:

Não calculas o amor que nutro por ti, minha amada. Por algum tempo não pude ir ver-te, é verdade, mas se souberes a razão me perdoarás. Ah! muito sofri com isto! Peço-te não sejas assim má, pois o amor que te consagro me mata. Teu sincero

R. B.

O primeiro capítulo resume-se nesse bilhete. Haviam-se conhecido e amado. Ia tudo bem. De repente ele se ausenta, sem explicações. Que foi? Ela pensou num esquecimento, em "outra", em tudo que fosse ruim... Não o via mais no pião da esquina! Esperara-o debalde à varanda ou no caramanchão do jardim. Ingrato! Pois também não quereria mais saber dele. Não era o único homem no mundo... Um muxoxo, um arrufo, uma decisão.

Dá-se o reencontro. Reacende-se a paixão no rapaz. Ela, no entanto, de verdade ou fingindo, não lhe dá atenção. Vira a cara, foge, despreza-o. "Deusa de meus sonhos". Não acredita. Caprichosa essa "deusa". Ele recorre aos versos:

O teu riso todo angélico,
Teu olhar encantador,
Fizeram nascer em mim
Um profundo, ardente amor...

Não dá resultado. A moça é dura de se comover. Não lhe perdoa o malfeito. Continua impassível e arisca. Judia dele à vontade.

Quando tu foges de mim
Sinto cruel dissabor.
Ah! quanto sofre quem está
Nos laços preso de amor!

Encontram-se, porque os versos aludem a "prazer ao teu lado", mas sem a antiga satisfação de dois corações que se compreendem. Ao contrário. A um recado deste molde:

Estou imensamente ansioso por ver-te.

 há esta resposta cruel:

Desejo nenhum. Não me agrada ver-te.

 Os capítulos separam-se por vários meses. Silêncio profundo. Que se teria dado? Reconciliação? Noivado? Felicidade completa? Ou ele terá desistido inteira e definitivamente? Quem pode penetrar o segredo dessa mudez?

Eis senão quando surge este lamento:

Tenho penado bastante por ti! Quanto te mostras má! Os dias passam e meu amor por ti aumenta!

Outra mulher, menos voluntariosa, já se teria talvez compadecido. E o romance estaria findo. Porém essa Iaiá ou Maroquinhas revelava-se vingativa ou cheia de amor-próprio. "Reinava" para experimentar bem a sinceridade do arrependimento. E não deixava de ser prudente. "Homem!" E persistiam as picardias. Numa "partida", negava-lhe a valsa, dizendo-se doente de um pé, e ia acintosamente dançar uma valsa de corrupio com outro.. Num casamento, distribuía os cravos da noiva com todos os rapazes, menos com ele. Até uma rosa que ele lhe deixara cair aos pés, pisara-a "distraída"... E o pobre a escrever-lhe:

Não me é possível esquecer-te. Tua beleza e teus encantos me fascinam. Não sejas cruel! Exige-me um sacrifício e fá-lo-ei. Mas dá-me uma esperança de amor e serei o mais ditoso dos homens.

E não vinha a esperança. Remoques, desdéns, isto sim. Deveria renunciar. Tudo debalde. Um ano, dois anos quase, e nem uma sombra de felicidade. Outro interregno. Silêncio. Suspendera-se o "folhetim". Mas chegou o Natal. Ela estaria veraneando em Apipucos ou em Olinda. Mês de alegrias para todos, menos para ele. Deus o esquecera sem dúvida. Ela divertia-se e ele penava. Mesmo assim publicou:

Impossível olvidar-te. Impossível! Boas festas!

Noite da missa do galo. Fizera roupa nova, comprara gravata da moda, sapatos de couro de lustro, extratara-se, pusera cosmético no bigode, metera na cabeça o chapéu-de-coco inglês, levou a bengala de cabo de marfim. Saiu radiante. Dera "festas" de três patacas aos moleques de casa. – "Sinhozinho viu passarinho verde" - afirmara a irmã ao vê-lo tão contente, quando vivia tão macambúzio. Vira mesmo. Pela manhã, ao abrir o jornal, encontrara este quadrlnho:

R.

Cumprimento-te afetuosamente desejando-te milhares de venturas e felicidades, para prazer de quem saudosamente pensa em ti.

S.

Era a ansiosamente esperada vitória. Ela, a querida deusa dos seus sonhos, rendera-se. Quebrara a obstinada mostra de desdém, de desprezo. Aquele cartãozinho do jornal traduzia tudo. E no dia de festa quisera dar-lhe o presente almejado acima de todos os mais: o seu coração de mulher...

Um verdadeiro romance pelas solicitadas...

Os amores alheios, como se vê, faziam-se ostensivos pela imprensa de outrora. Ainda nos começos do século atual recadinhos e versos dessa natureza não eram raros. Os quadrinhos, mais ou menos enfeitados, apareciam com felicitações em iniciais, com transbordamentos de ciúmes, com avisos de oportunos encontros... E, às vezes decepções dessas entrevistas:

À M...

Fui e não ... Por quê?

O.

Fora pressuroso, e não a vira ou não lhe falara. Eis a história toda. Baile, teatro, novena, piquenique... quem sabe? Talvez propósito, rompimento, olvido. Mesmo com essas, manifestações havia quem tivesse esperanças:

À...

O proscrito da sorte ainda te espera.

X.

Nas expansões poéticas desses amores seria natural que, ao lado dos versos maus, surgissem poetas de verdade, com os seus sonetos e eles predominavam, dignos de elogios. Não admira que os autores deixassem nos seus trabalhos, apreciáveis seus nomes por extenso, numa justa vaidade literária. Releva, porém, notar os anônimos. Modéstia, recato, temor de atrair cóleras paternas para a moça... Estaria num desses casos o autor deste soneto, realmente bem feito, que saiu anônimo:

Á...

Morrer é nada! A flor que entreabre o seio,
Turíbulo de perfumes, murcha e morre,
E o rouxinol na mata, que percorre,
Solta, morrendo, o último gorjeio.

Tomba o cedro do Líbano, no meio
Da luta, em que o calor não mais socorre,
E do tronco lascado a seiva escorre
Por onde perde o gigantesco anseio.

Morrer é nada! A lei, que sopra a vida
E que anima a existência, e o ser vigora,
Mata, de um golpe, a obra produzida...

Porém, morrer aos poucos, hora a hora,
Lendo nos olhos teus quanto és fingida,
Não é morte... É suplício que devora.

Essa mulher não tinha razões, pelo menos intelectuais, para não amar a esse homem. O soneto, que não quis assinar, dava-lhe credenciais para merecer um afeto sincero. E quem poderá mais imaginar, depois de meio século de dintâcia, o que houve depois? O "fingida" porventura não seria "de coração". Ciúmes... E os dois se teriam unido e dado ao mundo uma prole sadia e feliz.

Todos esses amores de longe, lembrados ou não nesta crônica, levantarão, para nós, esta interrogação: - "Terão florido? Terão murchado?"


(SETTE, Mário. Arruar; História pitoresca do Recife antigo)

 

 

12 de junho, dia dos Namorados

Veja também:

• Os versos da correspondência amorosa no interior do Brasil, em meados da década de 1950.

• Um ABC dos amores originário do Rio Grande do Sul e recolhido por Sílvio Romero.

• Os segredos do futuro.

• Correio dos namorados.

 

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