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| Página 1 | 2 | 3 | Sumário | Festança | Cancioneiro | Imaginário | Oficina | Palhoça | Colher de Pau | Panacéia | Catavento |
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![]() Toda a gente sabe dos empecilhos encontrados outrora pelos que se amavam, antes do padre consentir em que se unissem. O excessivo recato, os preconceitos do sexo, as precauções dos pais, o medo da boca do povo, constituíam motivos fortíssimos para se evitar o contato entre os jovens de calças e de saias já compridas. Atualmente, porque os rapazes usem calções nos esportes e nos banhos de mar e as moças na adolescêncla conservem curtíssimas as saias, já não vigoram tais rigores nem cautelas. Mas antigamente! Que o digam as gelosias dos sobrados, as cadeirinhas de rebuço, os véus espessos, a proibição das mulheres aparecerem às visitas e sentarem-se às mesas com estranhos, os casamentos acertados entre os pais sem os noivos sequer se terem visto um dia. E outros pedacinhos da moral dos tempos. Tudo isso, é bem verdade, vai muito distante, e já no século XIX, pelo menos na sua última metade, processavam-se transformações profundas nesses assuntos do coração. Houve uma "liberdade tal" que assanhou os moralistas da época, e acres reprimendas surgiram na paisagem social. No capítulo das danças, os versinhos mordazes do Carapuceiro são incisivos, o padre Lopes da Gama, que o redigia, não tolerava a moda dos pares rodarem sozinhos, em conversas, risinhos, sem dúvida "maldades". E aconselhava a pais e maridos:
Não deixeis que filha ou esposa As quadrilhas e polcas, que substituíam os minuetos e outras danças inocentes, eram pretextos temíveis para namoros e tentações. E mais:
Quadrilhas e balancês
Essas petições, se não recebiam, na entrada, o carimbo do protocolo paterno, não se
admitiam sem quebra da disciplina e da moralidade.
A mor parte destas bruxas
Não seriam todas. Abundariam as que se dedicavam a fazer casamentos. Pelo menos haveria
uma casa a mais onde recebessem benefícios dobrados de gratidão... Até netinhos viriam
aumentar o seu prestígio de antigos correios de amores contrariados.
Estava um poema. "M. J." Quem era? Maria Joana? Maria José? De que rua, de
que arrabalde? Ele, o D. (Donato? Dionísio?) o saberia bem. E precisava dizer à moça
que não a podia esquecer desde que a vira numa festa. Fazia-o daquele jeito.
Mistério. "Ingrata". Os namorados quase sempre julgam ser mistério o que os
mortais conhecem de sobejo por já terem passado pelo mesmo caminho.
Era amado por ti, era querido Provavelmente nada dessas suspeitas era real. Ciúmes,
simplesmente. Nela o amor persistiria firme, imutável. Ele é que se mostrava insaciável
nas provas de afeto da sua eleita. Ou, talvez, esses versos não passassem de
"mágoas de poeta" - poeta desses que inentam as próprias dores. Doentes
imaginários de amor. O desfecho terá sido outro. Noivaram, casaram-se, foram dignos de
uma "lua-de-mel eterna".
Quem sabe se mesmo agora,
Vê-se aí nitidamente o timbre do ciúme. O poeta é igual a milhares de outros. A todos
os poetas do tempo. Os do século XIX e ainda os do XX. (Cala tua boca, cronista! Tens a
língua preta!) Uns transbordavam esses sentimentos passionais pelas solicitadas. Os mais
felizes vinham mesmo pelas páginas editoriais. De qualquer modo a finalidade não
variava: madrigal, queixume, recado...
A... |
Na verdade, como poeta, esse
apaixonado não merecia muito amor... E talvez porque a sua deusa tivesse maiores
exigências literárias, no outro dia vinha pelo mesmo jornal esta resposta, que, embora
incisiva, não se mostrava, quer poética, quer gramaticalmente, mais feliz:
À V. Meu poeta vou pedir-te
Houve nessas publicações verdadeiros romances de amor, para quem as acompanhou com
interesse e constância. Um deles, em tempos recuadíssimos, começou assim:
O primeiro capítulo resume-se nesse bilhete. Haviam-se
conhecido e amado. Ia tudo bem. De repente ele se ausenta, sem explicações. Que foi? Ela
pensou num esquecimento, em "outra", em tudo que fosse ruim... Não o via mais
no pião da esquina! Esperara-o debalde à varanda ou no caramanchão do jardim. Ingrato!
Pois também não quereria mais saber dele. Não era o único homem no mundo... Um muxoxo,
um arrufo, uma decisão.
O teu riso todo angélico,
Encontram-se, porque os versos aludem a "prazer ao teu lado", mas sem a antiga
satisfação de dois corações que se compreendem. Ao contrário. A um recado deste
molde:
há esta resposta cruel:
Os capítulos separam-se por vários meses. Silêncio profundo. Que se teria dado?
Reconciliação? Noivado? Felicidade completa? Ou ele terá desistido inteira e
definitivamente? Quem pode penetrar o segredo dessa mudez?
Outra mulher, menos voluntariosa, já se teria talvez
compadecido. E o romance estaria findo. Porém essa Iaiá ou Maroquinhas revelava-se
vingativa ou cheia de amor-próprio. "Reinava" para experimentar bem a
sinceridade do arrependimento. E não deixava de ser prudente. "Homem!" E
persistiam as picardias. Numa "partida", negava-lhe a valsa, dizendo-se doente
de um pé, e ia acintosamente dançar uma valsa de corrupio com outro.. Num casamento,
distribuía os cravos da noiva com todos os rapazes, menos com ele. Até uma rosa que ele
lhe deixara cair aos pés, pisara-a "distraída"... E o pobre a escrever-lhe:
E não vinha a esperança. Remoques, desdéns, isto sim.
Deveria renunciar. Tudo debalde. Um ano, dois anos quase, e nem uma sombra de felicidade.
Outro interregno. Silêncio. Suspendera-se o "folhetim". Mas chegou o Natal. Ela
estaria veraneando em Apipucos ou em Olinda. Mês de alegrias para todos, menos para ele.
Deus o esquecera sem dúvida. Ela divertia-se e ele penava. Mesmo assim publicou:
Noite da missa do galo. Fizera roupa nova, comprara
gravata da moda, sapatos de couro de lustro, extratara-se, pusera cosmético no bigode,
metera na cabeça o chapéu-de-coco inglês, levou a bengala de cabo de marfim. Saiu
radiante. Dera "festas" de três patacas aos moleques de casa.
"Sinhozinho viu passarinho verde" - afirmara a irmã ao vê-lo tão contente,
quando vivia tão macambúzio. Vira mesmo. Pela manhã, ao abrir o jornal, encontrara este
quadrlnho:
Era a ansiosamente esperada vitória. Ela, a querida
deusa dos seus sonhos, rendera-se. Quebrara a obstinada mostra de desdém, de desprezo.
Aquele cartãozinho do jornal traduzia tudo. E no dia de festa quisera dar-lhe o presente
almejado acima de todos os mais: o seu coração de mulher...
Fora pressuroso, e não a vira ou não lhe falara. Eis a
história toda. Baile, teatro, novena, piquenique... quem sabe? Talvez propósito,
rompimento, olvido. Mesmo com essas, manifestações havia quem tivesse esperanças:
Nas expansões poéticas desses amores seria natural que, ao lado dos versos maus, surgissem poetas de verdade, com os seus sonetos e eles predominavam, dignos de elogios. Não admira que os autores deixassem nos seus trabalhos, apreciáveis seus nomes por extenso, numa justa vaidade literária. Releva, porém, notar os anônimos. Modéstia, recato, temor de atrair cóleras paternas para a moça... Estaria num desses casos o autor deste soneto, realmente bem feito, que saiu anônimo: Á...Morrer é nada! A flor que entreabre o seio, Turíbulo de perfumes, murcha e morre, E o rouxinol na mata, que percorre, Solta, morrendo, o último gorjeio. Tomba o cedro do Líbano, no meio Da luta, em que o calor não mais socorre, E do tronco lascado a seiva escorre Por onde perde o gigantesco anseio. Morrer é nada! A lei, que sopra a vida E que anima a existência, e o ser vigora, Mata, de um golpe, a obra produzida... Porém, morrer aos poucos, hora a hora, Lendo nos olhos teus quanto és fingida, Não é morte... É suplício que devora.
Essa mulher não tinha razões, pelo menos intelectuais, para não amar a esse homem. O
soneto, que não quis assinar, dava-lhe credenciais para merecer um afeto sincero. E quem
poderá mais imaginar, depois de meio século de dintâcia, o que houve depois? O
"fingida" porventura não seria "de coração". Ciúmes... E os dois
se teriam unido e dado ao mundo uma prole sadia e feliz.
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