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O EFEITO SALUTAR DA ORAÇÃO DIRIGIDA A SÃO JOÃO

A superstição consiste em encontrar-se a pessoa, na véspera de São João, à beira-mar, preparada para tomar um banho à meia-noite em ponto; entra de costas na água, molhando-se até a cintura e dirigindo a seguinte prece ao santo do dia: "São João, bota na água salgada…" O resto é subentendido.

Essa purificação religiosa
[1], instituída há mais de duzentos anos no Brasil pelos missionários, ainda é praticada pontualmente por muitas mulatas e negras livres, que, vivendo de intrigas amorosas, estão continuamente expostas a perder suas aventuras e sua saúde; muito felizes ainda se consideram quando sua estrela lhes deixa a alternativa de uma das desgraças somente. Sua vida angustiada muito contribui para manter vivo o fervor da superstição. Por isso observam-se, na véspera de São João, inúmeras banhistas desse tipo em todas as praias.

Essa prática se repete com uma fórmula diferente de oração: tomar fortuna
[2]. Pede-se ao santo felicidade. O banho religioso, nessa circunstância, não visa propriamente purificar dos pecados; a devoção que a prática exprime é a dos corações mais puros, que solicitam do santo apenas uma felicidade lícita e reclamam a sua proteção.

Nessa época observa-se, nas residências à beira-mar, muita gente reunida para tomar parte nesse divertimento noturno, cuja forma, apenas, persiste, pois é hoje de bom-tom desprezar-se ostensivamente o intuito. Entretanto, presos intimamente à tradição religiosa, os atores em sua maioria se entregam, furtivamente, a uma invocação secreta. Os mais expansivos afixam certa hipocrisia, articulando as palavras em voz alta e com afetação; muitos outros, menos escrupulosos, entremeiam essas palavras com grandes gargalhadas; no fundo, dissimulando embora por diversos meios a prática religiosa que os tranqülizou em relação a seu futuro, tudo esperam do santo, entregando-se em seguida, sem reservas, às demonstrações de uma folia barulhenta e variada, que dura o resto da noite.

A mesma superstição atribui também benéficos efeitos à raiz da arruda, arrancada na véspera de São João, ao bater meia-noite
[3].

A educação religiosa de uma brasileira revela-lhe uma grande quantidade de preventivos e curativos misteriosos nos diversos vegetais. Por exemplo, é sob a proteção de São João Batista que se coloca a arruda, a que a superstição atribui uma influência universal sobre a felicidade. Essa planta maravilhosa costuma ser respeitosamente cultivada nos jardins, e seu grande consumo faz dela um objeto infalivelmente lucrativo. Na classe média, uma boa mãe de família, por amor a seus inúmeros descendentes, nunca se esquece de correr ao jardim na véspera de São João, à meia-noite em ponto, para arrancar uma raiz de arruda, que é cuidadosamente conservada até secar de todo. Com ela se fazem, mais tarde, esses pequenos antebraços de punho fechado e que têm em geral uma polegada de comprimento.

Depois de fazê-los benzer, a boa senhora os distribui a seus filhos e netos. As crianças de peito, principalmente, usam às vezes cinco ou seis pendurados ao mesmo colar.

Esses amuletos têm o nome genérico de figas, porque a princípio esculpiam-se pequenas peras ou figos consagrados ao mesmo uso. A superstição recomenda que, no momento de pendurá-los ao pescoço da criança, se reze uma oração a São João, o qual indubitavelmente preservará o pequeno de todas as desgraças.

O luxo, desprezando a raiz da arruda, e prendendo-se exclusivamente à forma do talismã, faz com que as senhoras icas usem figas de coral, ouro ou malaquita, presas a brincos ou a colares. Entre as figas de ouro, existem algumas infinitamente pequenas, seguras a uma pequena corrente do mesmo metal, e que se usam como anéis, pulseiras, brincos ou colares.

É raro que uma vendedora negra ambulante se mostre na rua sem seu pequeno amuleto ao pescoço, o que não a impede de usar também dois outros à cintura, de cambulhada com cinco a seis talismãs, de forma e natureza diferentes
[4].

Mencionemos agora a influência do tiro de fuzil dado à meia-noite em uma mangueira. A ingenuidade supersticiosa do fazendeiro, para conseguir uma colheita feliz durante o ano, implora a proteção de São João dando um tiro de fuzil numa mangueira, à meia-noite em ponto, na véspera do dia do santo protetor. Para justificar essa superstição, parece que existe apenas a vantagem de fazer cair certa quantidade de frutos, beneficiando assim os que tiverem escapado ao chumbo da espingarda; talvez essa vantagem seja a de afugentar, pelo estampido, os malandros que se dedicam ao roubo noturno.

E termino com a moedinha jogada no braseiro, na véspera de São João.

A cena se passa sempre à meia-noite, mas, desta feita, na rua, diante de uma dessas pequenas fogueiras acesas na frente das casas particulares habitadas por pessoas que tenham o nome do santo. À devoção das moças, que no mundo inteiro se reduz a pedir aos céus a conservação dos pais, a posse de um namorado fiel e um casamento vantajoso, se ajunta, no Brasil, a inapreciável prerrogativa de uma correspondência direta com São João, cuja resposta é dada por meio de certa prática supersticiosa. Esta consiste em jogar um vintém no braseiro ardente, à meia-noite em ponto, retirar em seguida a moeda, depois de apagado o fogo, e conservá-la cuidadosamente até o ano seguinte, para dá-la ao primeiro pobre que se apresente na mesma época à meia-noite. Pergunta-se a esse homem o seu nome, o qual, por analogia, deve indicar infalivelmente o do futuro marido que o céu destina à jovem crente.

Para julgar das probabilidades desse cálculo supersticioso, é preciso ter em vista que o nome do brasileiro se acompanha sempre de vários prenomes, que começam, entretanto, naturalmente, por João, José, Antônio ou Pedro; a vulgaridade desses nomes abre vasta perspectiva para as moças em relação à assiduidade dos rapazes de sua sociedade.

Essa ingênua superstição, baseada em nomes de santos, alimenta em segundo lugar, e sem grande mal, a esperança das moças, as quais são levadas assim a favorecer sem remorsos as efusões dos pretendentes escolhidos de acordo com o oráculo do ano. Acrescente-se a essas circunstâncias que é costume no Brasil chamar as pessoas unicamente pelo primeiro nome de batismo, de maneira que na conversação os nomes de João, José, Antônio e Pedro precedem todas as interpelações. Por isso, como é deliciosa a manhã de São João! Visitas, encontros, adeuses, tudo provoca uma suave emoção na jovem supersticiosa, que conserva no coração o número premiado dessa loteria mística, inventada com tanta felicidade a fim de dar-lhe perspectiva de namorados e maridos. Essa doce ilusão durante muito tempo ainda induzirá as moças, principalmente na classe média, a jogar anualmente um vintém no fogo, na vépesra de São João.

Notas:

1. Suprimindo-se o que há de místico nesse hábito, dito religioso, resta apenas, no fundo, um banho muito saudável, tomado de noite e de um modo prudente, porquanto se prescreve que se evite, ao entrar na água, o choque da onda. Não há, por conseguinte, nenhuma razão física que possa desacreditar esse prazer (N. do A.)

2. Em português no texto; por isso foi a expressão mantida, embora não deva representar exatamente a forma da oração. (N. do T.)

3. Como se vê das considerações seguintes, o autor confunde arruda com guiné. (N. do T.)

4. Entre os pobres, como entre os selvagens, a superstição atribui uma influência salutar aos resíduos naturais. Conservam religiosamente uma fava vermelha de uma polegada de diâmetro, outra preta do mesmo tamanho, uma terceira amarelo-clara, um pequeno cone de madeira ou de chifre, uma espora de galo, etc. Todos esses presentes, dados de boa fé e recebidos com credulidade, devem, de acordo com suas propriedades específicas, preservar dos males tão numerosos que ameaçam a humanidade. Uma ama negra ou mulata procura com superstição obter uma pérola redonda, de esmalte azul-céu, de cinco ou seis linhas de diâmetro, a fim de pendurá-la ao pescoço, pois empresta-lhe a propriedade de melhorar o leite, donde o nome de pedra de leite. (N. do A.)


(DEBRET, Jean-Baptiste. Viagem pitoresca e histórica ao Brasil)


Afetação – Fingimento, simulação; Falta de naturalidade; Pedantismo.

Analogia – Semelhança de uma coisa com outra.

Cambulhada – Molho, cambada.

Efusões – Manifestação, comunicação de sentimentos.

Malaquita - Pedra de belo verde vivo que se pode cinzelar e polir para obras de joalheria e fantasia.

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