A necessidade, natural ao
homem, de tudo dispor para um futuro feliz introduziu no Brasil, há mais de dois
séculos, o costume de se soltarem bombas e foguetes nas ruas, na suposição de que o
ruído desperte para o dia de sua festa o santo padroeiro, que se imagina adormecido
durante o resto do ano.
Por esse motivo, na véspera das festas de São João, Santo Antônio, São Pedro e São
José, queimam-se fogos de artifícios nas ruas e praças, bem como diante da porta da
igreja do santo cuja festa se celebra, a fim de forçar o homenageado a tomar parte ativa
nas manifestações de seus devotos. Reiniciam-se os festejos ao raiar do dia da festa,
prolongando-se os mesmos durante os intervalos entre as cerimônias religiosas, até oito
ou nove horas da noite, em meio a fogueiras, girândolas e iluminações. O grande
divertimento noturno consiste em jogar punhados de bombas no meio das fogueiras acesas em
todas as ruas da paróquia, bem como diante das casas particulares de outros bairros da
cidade. Esse crepitar de estampidos mistura-se aos ruidosos vivas a São João e Santo
Antônio, etc., repetidos confusamente pela multidão branca e preta, que se diverte em
pular as fogueiras semi-extintas.
O que explica o motivo interessado dos primeiros crentes, esforçando-se por acordar o
santo na véspera da festa, encontra-se ainda hoje no fato de que, para ridicularizar a
falta de generosidade de um homem levado a receber mesquinhamente seus amigos no dia se
seu aniversário, se afirma que seu santo padroeiro ainda está dormindo.
Deixo de detalhar um milhão de puerilidades consagradas por tradição a manter viva a
superstição e término pela enumeração das dignidades militares concedidas a Santo
Antônio em diferentes províncias do Brasil. É pouco provável que Santo Antônio,
simples e virtuoso anacoreta que se recusou a comparecer na
corte de Constantino, que durante cento e cinqüenta [1]
anos viveu voluntariamente na mais profunda humildade, imaginasse figurar militarmente um
dia no Novo Mundo como marechal dos exércitos do rei e comandante da Ordem de Cristo, na
Bahia; como coronel e grão-cruz de Cristo, no Rio de Janeiro; ou mesmo, mais
modestamente, como simples cavaleiro da Ordem de Cristo, no Rio Grande, recebendo os
vencimentos em todas essas dignidades. A simplicidade de seu hábito contrasta de maneira
singular com o brilho de um enorme crachá e outras condecorações, cheias de diamantes,
que se penduram ao pescoço de sua imagem e berra sobre o fundo marrom de sua túnica
grosseira.
1.
Tradução literal do texto francês (N. do T.)
(DEBRET, Jean-Baptiste. Viagem
pitoresca e histórica ao Brasil) |

Anacoreta Religioso
ou penitente que vive na solidão, em vida contemplativa. |