| Mal se aproxima o dia 13, e já se alça nos
céus o primeiro balão. É como um aviso: Santo Antônio às portas! E os garotos
capixabas, geralmente em pequenos grupos, dão início, insofridos, ao preparo dos seus
coloridos balões. Fazem-nos caprichosamente de variados formatos: balão comum, de seis,
oito, dez ou mais gomos; balão charuto, esguio, espichado, que ginga no ar
quando sobe; o zepelim, de duas pontas, que precisa ter altura bastante para que o
fogo da bucha não queime o teto do balão; o cebola, quase redondo,
inchado, vistoso como quê; a cruz e o boneco, que devem ser soltados de
dia, para melhor serem vistos e apreciados... uma variedade infinita de balões que,
durante todo o mês de junho, pontilham o céu, em louvor dos três santos mais populares
do nosso folclore: Santo Antônio, São João e São Pedro. A subida, a queima e a queda
dos balões dão motivo a manifestações tipicamente folclóricas. O grito da gurizada
balão!! balão!!, clamor incoercível, jubiloso, brado que sempre anuncia e
saúda a subida imponente dos balões. Há magotes de moleques, perversos, desejosos de
furar o balão dos outros, com pedras e ao grito de tasca! procuram atingir
o balão luminoso, quando sobe aos ares, ou quando, sem forças retorna à terra. Tascar
balão é, aliás, o divertimento maior desses pequeninos sádicos. Os guris, porém,
preferem implorar, olhando o céu, cobiçosos: cai, cai, balão! cai, cai, balão! aqui
na minha mão! variante reduzida desta cantiga velha que ainda se ouve em Vitória:
Cai, cai, balão!
Cai, cai, balão!
Na rua do Sabão!
Não cai não,
Não cai não,
Não cai não,
Cai aqui na minha mão!
Há, também, uma pega pouco decente, que consiste em perguntar ao simplório:
quando o balão se queima no ar, o que é que cai primeiro? Se a resposta é o gás!
pra quê! ressoa de pronto a frase injuriosa, entre a risada mordaz da molecada toda...
Prende-se aos balões uma das nossas sortes ou crendices joaninas. No dia 23, à
noite, os namorados ao verem soltar um balão, fazem em voz alta, um pedido ou promessa ao
santo milagreiro. Se o balão subir, o recado por ele chegará até os ouvidos de
São João. Se, porém, o balão não subir, ou pegar fogo, - que pena! não
conseguirão ainda o que intentam.
Santo Antônio, São João e São Pedro já lá se foram. Mas, nos céus de Vitória,
à noite, aqui e ali, por toda a parte, ainda julgamos ver o rasto cintilante dos balões
que festivamente se elevaram aos ares, ao sopro vivificador e constante das belas
tradições da nossa terra e da nossa gente.
(NEVES, Guilherme Santos. In Folclore. Vitória, ano
1, nº 3, novembro-dezembro de 1949) |
Oração dos
baloeiros
Creio em Deus todo poderoso
Creio no sol, na chuva, no vento
E na polícia que mantém a ordem
Creio no papel 2ª via, rotativo estrangeiro ou nacional
Creio na cola, no barbante encerado ou parafinado
Creio na flecha, no verga; hão, no saco e no algodão
Creio na guia, na lanternagem e no sebo
Creio no gás, no maçarico e na turma que ajuda
Creio até no que vem do além
Mas livrai-me da chuva do vento e da polícia,
também.(Folheto
distribuídos por ocasião do lançamento dos balões, registrado por Sandra Maria Corrêa
de Sá Carneiro em Balão no céu, alegria na terra) |