JESUS VIAJANDO COM O
APÓSTOLO PEDROQuando
o apóstolo Pedro andava pelo mundo com Jesus, ia porque gostava dele e não por causa da
fé. Pedro era descrente e vivia dizendo que, se fosse Deus, daria um jeito em todas as
coisas e acabava arrumando o mundo de jeito melhor. Jesus só ia escutando e nada dizia.
Certo dia, iam os dois a uma festa na cidade e se encontraram, no caminho, como por acaso,
com uma pastora que ia indo também à festa. Pedro lhe perguntou:
- E quem é que vai tomar conta de seu rebanho?
Deus guarda respondeu a pastora.
Pedro viu Jesus que estava rindo e ficou envergonhado.
Depois da festa, Jesus foi a um morro acompanhado do povaréu. Andaram, andaram, até que
o povo começou a reclamar que estava cansado e com fome. Então Jesus mandou que cada um
pegasse uma pedra. Pedro, por preguiça, escolheu um pedregulho bem miudinho. Jesus mandou
que as pedras se transformassem em pão. Aqueles que tinham catado pedras grandes ganharam
pão grande, mas, o pão de Pedro era tão pequeno que, de uma mordida só ele comeu tudo.
Aí ele ficou envergonhado, entendeu o castigo, mas não se corrigiu.
Depois de comer, Jesus e o povo foram caminhando pra mais adiante. Começou a escurecer e
o povo a reclamar. Então, Jesus mandou que cada um catasse uma pedra. Pedro pensando que
ia ser de novo aquela história do pão, arrancou um pedaço de rocha e ficou, muito
contente da vida, esperando. Jesus mandou que as pedras se transformassem em bancos, e o
banco de Pedro ficou tão grande e tão alto que, por mais que ele pelejasse a noite
inteira, não conseguiu subir nele.
(Recolhida em São Paulo e Jabuticabal, SP)
JESUS E AS DUAS MULHERES
Jesus e Pedro passaram por uma rua e viram uma mulher
lavando roupa no quintal. Jesus jogou praga na mulher e Pedro não disse nada. Mais
adiante, encontraram uma mulher toda enfeitada descansando na varanda de sua casa. Jesus
abençoou a tal mulher. Então, Pedro, muito admirado, disse:
- Aquela que trabalha, você praguejou; esta que está descansando, você abençoou. Por
que?
Pedro, Pedro -, respondeu Jesus - hoje é domingo, dia de guardamento mandado por
meu pai.
(Recolhida em Poá, SP)
FAÇA O QUE EU DIGO E NÃO FAÇA O QUE EU
FAÇO
Quando Jesus andava pelo mundo,
acompanhado pelo Apóstolo São Pedro, chegou certa vez numa casa onde moravam uma velha
muito doente e entrevada e seu filho. Os dois pararam ali para pedir pouso e o moço veio
receber, dizendo que podiam entrar, mas que não reparassem na casa e nem neles, que a
mãe estava entrevada na cama e ele fazendo alguma coisa pra janta.
Mais tarde, o moço deu comida pra eles e uma esteira para passarem a noite. Numa hora,
lá no meio da noite, Jesus cochichou na orelha de Pedro:
- Pedro, não faça barulho, você arranja um tacho, põe
toalha branca na mesa, arrume uns gravetos, vai lá fora arear o tacho no rio e traz um
pouco de água limpa!
Pedro, remoendo de raiva de sair da cama, fez o que Jesus mandou. Dali a pouco, Jesus
disse:
- Pedro, acende um fogo com esses gravetos e põe o tacho a ferver.
Pedro estava louco pra fazer perguntas, pensando que iam fazer alguma coisa para comer,
mas ficou quieto e mais do que depressa botou o tacho no fogo. Quando a água estava
esperta, Jesus disse:
- Pedro, vai lá no quarto da velha e baldeia ela para cá.
Mas Pedro não pôde mais prender a língua e disse muito admirado:
- Mas, o que é que o senhor vai fazer, Jesus amado?
Jesus disse:
- Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço.
Pedro agarrou a velha, levou pro fundo da casa e mataram ela. Cortaram a velha em pedaços
miúdos e puseram pra cozinhar naquele tacho. Foi cozinhando até que virou angu... Quando
esfriou, mais ou menos, despejaram na toalha em cima da mesa e cobriram. Pedro não parava
num lugar só e fazia muita bulia. Então Jesus disse:
- Olha Pedro, vai deitar no lugar da velha senão o moço acorda e desconfia.
Pedro foi, mas de tanto medo não podia dormir. Pegou então e levantou. Na ponta do pé
foi espiar Nosso Senhor Jesus Cristo que, nessa hora, estava ferrando no sono. Ele logo
pensou: "Olha, eu boto a velha de angu na cama dela e, de madrugada eu acordo
Jesus". E foi pegar o angu, mas quando levantou o pano, em lugar de angu, encontrou
um moça bonita dormindo que era uma lindeza. Pedro espiou pra ver se Jesus estava
dormindo mesmo e, quando viu que ele até roncava, subiu na mesa pra deitar junto da
moça, e já ia abraçando quando Jesus abriu os olhos e disse:
- Sai daí, diacho, senão eu te excomungo.
Pedro rodou da mesa e disse:
- Ai, Senhor meu, eu só estava vendo o tamanho dela pra ver se eu podia baldear ela pra
cama dela!
De manhã, os dois levantaram e o moço deu uma cuia para eles lavarem a cara. Beberam
café com farinha e foram embora. O moço foi ver a mãe e, quando viu que estava forte e
moça começou a gritar:
- Ei! venha ver minha mãe, ela sarou e ficou moça de novo!
Jesus voltou e disse:
- Se assim está, que assim fique.
E foram andando pra frente e então Pedro disse que estava com muita fome, que o dinheiro
que Jesus ia levando dava pra comprar alguma coisa. Entraram num botequim e Pedro pensou
que iam comer um lanche, mas Jesus pediu dois copos de água. Jesus mandou beber e Pedro
bebeu, resmungando que não era peixe, que onde já se viu Filho de Deus ser tão cainho
assim. Jesus disse:
- Pedro, faça o que eu mando, mas não faça o que eu faço.
Foram andando e passaram por uma padaria. Pedro pegou e roubou um pão e Jesus fez que
não viu, cada vez que Pedro disfarçando, ia levar um pedacinho na boca, Jesus dizia
qualquer coisa e ele era obrigado a responder e, para isso, cuspir o pedaço que ia
mastigar. Quando o pão, desse jeito, se acabou, Jesus mandou Pedro recolher todos os
pedacinhos e devolver o pão na padaria, dizendo:
- Vá catando os pedaços, que, até você chegar lá, o pão está inteiro de novo.
Pedro, de má vontade, fez, imaginando um jeito de se separar de Jesus. Jesus viu o
pensamento dele, mas não disse nada.
Foram andando, andando, até que chegaram numa encruzilhada e encontraram uma velha muito
velha, lavando roupa, se queixando da vida, que tinha tanto reumatismo que era um
despropósito. Pedro, com olho na velha, disse fingindo piedade:
- Senhor, chegamos na encruzilhada, pra adiantar nosso serviço não era melhor cada um ir
pra uma banda?
Jesus foi por um lado e Pedro ficou conversando com a velha, nem bem escureceu, Pedro
matou a velha, acendeu um fogo, pôs o tacho pra ferver, estendeu a toalha, cozinhou a
velha até fazer angu, mas, quando despejou o angu para esfriar, viu que a coisa não
virava em moça bonita, começou a chamar por Jesus:
- Valha-me, Deus Bom, que eu estou em apuro!
Jesus apareceu, salvou a velha e disse:
- Mais uma vez, Pedro, eu digo: faça o que digo, mas não faça o que eu faço!
Foram andando juntos e chegaram numa fazenda. Pedro estava danado de fome e, então, Jesus
falou que iam pedir pouso e comida num casebre que tinha por ali. Pedro não quis e disse
que ia se arrumar mesmo na casa grande da fazenda. Jesus teimou para que Pedro fosse
também na tapera, mas ele não quis e foi mesmo pra casa
grande. Na varanda da casa grande estava uma senhora fazendo renda de almofada. Pedro
pediu comida e pouso, e ela disse:
- Vá pros quinto, piolhento, deixe de amolar -, e tacou uma pedrada na testa de Pedro.
Pedro muito desenxabido foi na tapera. Jesus estava
sossegado, comendo virado de feijão. Perguntou pra Pedro:
- Já comeu?
- Qual o quê! - respondeu Pedro. - Comi é pedrada na testa!
- Se você não fosse tão cabeçudo, isso não ia acontecer. Venha comer que ainda tenho
um pouco para você. Agora espero que você me obedeça -, disse Jesus.
Noutro dia, continuaram viagem e passaram por uma roça muito bonita e viram uma mulher no
balanço, balançando e cantando. Jesus abençoou. Mais adiante, uma velha lavando roupa e
reclamando. Jesus amaldiçoou a velha, dizendo:
- Toma sua benção e jogou a velha rio abaixo.
Pedro ficou furioso e bradou contra Jesus. Jesus respondeu que iam aparecer pessoas
melhores pra olhar as crianças que a velha tinha deixado com mais amor e menos pragas.
Mais adiante, no meio do mato, encontraram um menino lenhando e querendo um pedaço de
cipó que ele não podia alcançar. Jesus mandou o menino trepar pelo cipó e cortar em
cima. Trepou e cortou, caindo sem se machucar. Pedro olhou bem aquilo e ficou com vontade
de fazer igual. Jesus percebeu e deu um jeito de deixar Pedro subir o caminho sozinho.
Pedro, satisfeito da vida foi indo até que encontrou uma velha lenhando. Chegou perto e
disse:
- Será que minha tia não quer cortar aquele cipó bonito?
- Ai, meu filho! -, respondeu a velha. - Mal posso andar, quanto mais cortar esse cipó
que está tão alto.
- É muito fácil, minha tia, trepe nele e corte lá em cima na forquilha da árvore.
A velha trepou, cortou o cipó na forquilha da árvore, despencou de lá que nem um saco e
se esborrachou no chão. Jesus apareceu e disse:
- Pedro, Pedro, mais uma vez eu lhe dou ajutório, mas lembre
sempre do que digo: faça o que digo, mas não faça o que faço.
Dizem que nem assim Pedro melhorou.
(Recolhida em Poá, SP)
(XIDIEH, Oswaldo Elias. Narrativas
populares) |


Ajutório
Ajuda, auxílio.
Desenxabido
Sem graça.
Tacho
Recipiente circular de barro ou metal para uso doméstico.
Tapera
Habitação em ruínas; Lugar feio e desolado. |