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O HONORATO

O Honorato. Ilustração de Marcos JardimEra véspera de São João.

No terreiro vasto da fazenda do coronel João Policarpo, nas margens do Tocantins, a três léguas da cidade de Cametá, crepitavam cinco grandes fogueiras, preparadas com capricho pelo mestre José, o negro mais folgazão e mais estimado da fazenda.

Nos ranchos, colocados em torno da casa senhorial, notava-se um vai-vem contínuo, gritos, cantos, vozes desencontradas. Nesse dia, além de ser a véspera de São João, era também dia de anos do senhor, e toda fazenda estava em festa.

Duas ou três ronqueiras faziam ouvir, de espaço a espaço, formidáveis estampidos, anunciando às fazendas vizinhas o início da grande festa.

No meio do terreiro, uma bateria de tambores, manejados pelos moleques mais sacudidos, convidava à dança, ao som do canto alegre do crioulo Vidal e do coro de assistentes.

As negras com seus vestidos novos e cordões de ouro ao pescoço, recendiam ao perfume da periperióca, jasmim e injuára-tasseú, e não recusavam o convite para o lundum, e, quando o Vidal cantava:


Jaboti sabe ler,
Mas não sabe escrever
Quem ensina jaboti
Não tem o que fazer
Jaboti foi pra cidade
Pra acabar de aprender


O coro, em voz uníssona, repetia o estribilho:

Foi pra cidade
Mandou senhor
Foi na canoa
Veiu no vapor


Mais adiante, dois retirantes cearenses atraíam a atenção de um grande grupo, cantando em desafio ao som da viola. E, quando o primeiro repentista perguntava:

Da palma nasce o palmito
Do palmito nasce a palma
Quero que você me diga
Quem entrou no Céu sem alma?

O segundo replicava imediatamente:

Do palmito nasce a palma
Da palma nasce o palmito
Quem entrou no Céu sem alma
Foi a Cruz de Jesus Cristo!


Na casa grande da fazenda estava o baile em todo o seu fulgor. Haviam chegado os vizinhos em suas galeótas, bem preparadas e pintadas. O coronel João Policarpo e sua senhora, os mais ricos cacaualistas do Tocantins, recebiam fidalgamente os seus convidados.

Havia fogos de todas as qualidades, mandados vir de Belém, e uma orquestra das primeiras da cidade de Cametá, que prima pelo bom gosto e ilustração de seus habitantes. As moças de Cametá, além de sua beleza física, sabem trajar-se com elegância e os rapazes sabem apresentar-se com desembaraço e gentileza.

A orquestra rompeu uma valsa brilhante. Era meia-noite. O movimento geral havia cessado como por encanto e todos seguiam com atenção um único par que voava, ao som da música pelo vasto salão. Era um moço esbelto, de uma formosura fascinante, cabelos louros, olhos azuis, vestido com primorosa elegância e que havia enlaçado a mais linda moça do salão, a filha do doutor Figueiredo, Juiz de Direito da Comarca, chegado, não havia muito, da Corte.

Nunca se havia visto dançar com tanta perfeição. Os dançarinos mal tocavam com as pontas dos pés o soalho luzido e a música parecia guiar-se pelo compasso por eles marcado.

- O "Honorato", o "Honorato"! – cada qual repetia ao seu vizinho.

- Quem é o "Honorato"? – perguntei eu ao coronel Siqueira.

- Pois você não sabe que é o "Honorato"?!

- É-me completamente desconhecido.

- Pois admira, aqui ninguém o ignora. O "Honorato" é um rapaz, que se acha encantado em uma cobra-grande e habita no fundo do rio.

- Ora, coronel, se isto me fosse dito por um homem ignorante... mas pelo senhor!

- Que quer? Sou obrigado a aceitar os fatos. Eu lhe conto a lenda e depois dir-lhe-ei o que se passa.

Ainda no tempo colonial, veio para o Pará um português riquíssimo e, desejando aumentar os seus haveres, fundou no Tocantins, perto de Mocajuba, uma fazenda para o cultivo do cacau. Além do grande pessoal que consigo trouxe, acompanhou-o um filho de nome Honorato, rapaz de seus quinze a vinte anos, muito bonito e dado a conquistador.

Um dia, este moço desapareceu, sem que pessoa alguma pudesse dele dar notícias.

Dizia então uma velha índia que havia visto o moço Honorato andar nos dias anteriores, triste, passeando pelas praias do Tocantins, atraído, sem dúvida, pela beleza da Iara, e que esta o havia levado para o fundo do rio.

O que é certo, é que alguns anos depois, quando há uma grande festa, à meia-noite aparece este moço, que dança, diverte-se e, às três para as quatro horas da madrugada, quando a aurora começa a despontar, ele some-se, sem que ninguém saiba para onde vai. Muitas vezes já se tem procurado sitiá-lo, colocando vigias por todos os lados, para vê-lo sair, e apenas uma vez muitos rapazes o viram atirar-se nágua, do alto da ribanceira.

- Mas, coronel, isto é um absurdo, uma tolice.

- Não fale assim; há tanta coisa na Natureza que nós não compreendemos, de que não sabemos a causa e, no entanto, não podemos negar.

- Mas este fato tem uma explicação natural. O Tocantins é continuamente navegado pelas canoas de regatões, por vapores e lanchas. Ora, não é de admirar que, uma ou outra vez, um desses viajantes apareça em uma festa e de repente se vá embora, para continuar viagem. Ninguém o conhece e a imaginação popular começa logo a criar mistérios.

- Não é assim. Ouça: há dois anos, houve uma festa no engenho do capitão Pinheiro, no distrito de Abaeté, na véspera do Natal, e na mesma noite outra na casa do Manoel Francisco, que o senhor bem conhece, chefe político de nomeada em Baião. Pois bem, à meia-noite em ponto o "Honorato" aparecia no baile do Pinheiro, em Abaeté, desaparecia às duas horas, para surgir às duas e meia em casa do Manoel Francisco. Qual a canoa, o vapor, o balão capaz de em meia hora percorrer a distância que vai de uma a outra casa? Nem em oito horas!

- E o senhor poderia me dizer se conhece alguma cobra grande, capaz de fazer esse percurso em meia hora?

- O "Honorato", porque é encantado.

Com tal resposta, não pude conter uma gostosa gargalhada.

O coronel, enfiado deveras, replicou-me:

- Pode rir-se à vontade, mas nem por isso o senhor pode destruir um fato confirmado por inúmeras testemunhas em todo o Tocantins e no Amazonas, até Óbidos. No paraná-mirim de Óbidos é comum o aparecimento do "Honorato". E até logo! São três e meia da madrugada; procure o "Honorato" e veja se é capaz de encontrá-lo em alguma parte, aqui na fazenda.

Com efeito, o tal rapaz louro havia desaparecido...


(OLIVEIRA, Hosaná, padre. Lendas e fatos de minha terra)

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