Zico Brandão fabricante de violas
caipira anos após anos realiza em Tatuí (Estado de São Paulo) a festa de São
João, onde não faltam fogos de artifício, fogueira, leilão, procissão, quentão,
cateretê ou fandango, onde muita gente ao anoitecer de 23 de junho aparece em sua casa
modesta no bairro do Bate-Pau.
Em 1953 a festaria de São João promovida pelos reis da viola foi deveras
concorrida. Numa sala estava armado um altar onde, em destaque, se via a imagem de São
João Batista vestido no seu manto de pele de camelo, motivo por que o chamam de santo-menino,
pois está de calça curta tendo ao lado o carneiro com uma fita vermelha o
carneirinho de São João. Quer nas bandeiras, quer nas imagens, a representação do
Batista é a de um menino de cabelos encaracolado. Representação que é um apelo aos
nossos instintos paternais a criança é objeto de nosso afeto e amor.
Logo após o crepúsculo vespertino, Zico Brandão ateou fogo à grande pilha de lenha;
assim, quando regressarem os devotos que levaram o santo para a lavagem no riacho,
poderão ver um brasido esplêndido para ser "pisado por aqueles que tem fé".
Às 19:30 horas teve início a reza dirigida pelo Zico, que ao lado de sua esposa, dona
Adelaide, puxaram dois terços. Finda a reza, levantaram o mastro com a bandeira
do santo. Enquanto mocinhas enterravam cabelo na cova e outras amarravam no mastro fitas,
flores, cipós, os puxadores de rezacantaram:
- São João Batista, Batista João,
levanto a bandêra
co livro na mão,
o nosso corpo é uma podridão,
no fundo da terra,
no centro do chão.
O povo presente em coro cantou o estribilho:
- São João adormeceu
no colo de sua tia.
Se meu São João soubesse
quando era seu dia
descia do Céu na Terra
cum bandêra de alegria.
Findo o levantamento do mastro, teve início a queima dos fogos. No quintal, a um canto,
estava armado o castelo. Em um arame estirado da porta do quintal até o castelo
via-se uma peça pirotécnica parecida com uma pomba (outros diziam que eram um lagarto
de fogo). Num estopim, o promotor da festaria risca um fósforo. O estopim inflama. Pelo
engenho do fogueteiro, aquele pássaro de fogo, preso ao arame voa
vertiginosamente até ao topo do castelo, que se incendeia. É um espetáculo deslumbrante
a queima dos fogos de vista. Queimam-se primeiramente as três coroas píricas,
cada qual representando um santo junino; a do centro, a coroa maior é a de São João.
Quando esta termina de queimar, desenrola-se a bandeira do santo vinhetada pelas
multifárias cores dos fogos. Pistolões, estrelinhas, bichas, busca-pés... e das
girândolas partem foguetes com bombas ensurdecedoras, e os rojões de lágrimas, numa
orgia de cores, traçam linhas ígneas rabiscando o negror do céu.
Finda a queima dos fogos, os presentes tomam tigelas de quentão distribuído farta e
gratuitamente. Às 21 horas tem início o leilão: frangos assados, leitoas, cuscuz,
bolinhos, laranjas, churrasco, recebem bons lances em dinheiro arrecadado será para o
pagamento das despesas com a festança. Em quatro latas de vinte litros (latas de
querosene) sobre os tacurubas fervem raízes de gengibre para o preparo do quentão. Havia
muita gente quente ao arrematar as leitoas assadas no leilão, graças às
libações feitas com a popular bebida paulista...
Após o leilão, mais ou menos às 23 horas, os presentes se preparam para a procissão.
Saem quatro andores. À frente, numa charola amarela a imagem de Santo Antônio, a seguir num ferculum
cor-de-rosa, São Pedro; depois, numa sella gestatoria azul celeste, a imagem de
Nossa Senhora Aparecida e por último, em um andor ricamente enfeitado de flores vermelhas
naturais e artificiais o santo festejado São João batista.
Zico Brandão distribuiu entre os presentes velas feitas por ele mesmo: fios de barbante
(algodão) torcidos e embebidos em estearina. Estas velas serviram também para, no rio,
procurarem a imagem refletida nas águas. Cantando o povaréu presente em procissão se
dirigiu ao rio para a lavagem do santo:
Meu São João Batista,
filho de Santa Isabel,
batizou a Jesuis Cristo
por nome de Emanuel
Pelo trabaio que faço,
não hei de me amofiná,
que a graça de Deus é grande
com Ele hei de me apegá.
Aleluia, Aleluia,
louvemo a Senhora,
Jesuis Cristo nasceu,
louvemo a Senhora.
Foi por obra divina
que Jesuis nasceu,
para remi o mundo
que Adão prometeu.
Porque tanta riqueza,
porque tanto cabedá?
A Nossa Senhora
poderá nos dá.
O seu pai era o cravo
sua mãe era a rosa,
os fio é açucena
de flores mimosa.
Vamo minha gente
no rio do Jordão
vamo minha gente
batizá meu São João.
Ao chegar à margem do rio, desceram apenas a imagem de São João para ser lavada. Zico
Brandão e dona Adelaide lavaram o santo. Este voltou para o andor, sem se enxugar,
borrifado dágua. Em vários pontos do rio estavam os devotos procurando, iluminados
pela vela rústica, divisar sua imagem refletida nas águas. Alguns rojões assinalaram a
volta da procissão. Os devotos cantaram:
São João da donde veio
que veio todo orvaiado,
veio do rio do Jordão,
veio daquele rio sagrado.
São João Batista, batista João,
se São João subesse
qual era o seu dia,
o mundo acabava de tanta alegria.
Cerca de duas horas da madrugada, finalizaram a procissão de lavagem do santo no
ribeirão, quando entraram na casa e os santos retornaram ao altar. No terreiro, sobre as
brasas, muitas pessoas passaram descalças. Um menino que há muito sofria de reumatismo,
tirou os sapatos, cruzou os dedos da mão, e, rezando um padre-nosso, atravessou sobre as
brasas vivas; outra pessoa rezou um crendospadre e pediu a São João que seus
pés não se queimassem. E o ritual continuou até que as brasas se extingüiram graças
aos muitos pés desnudos que as pisaram.
Os violeiros completaram a festaria daquela noite dando o ritmo buliçoso a homens alegres
e não dormidos num movimentado cateretê. Batata assada, pinhão cozido, amendoim
torrado, paçoca, quentão, estimularam os presentes nessa vigília na noite mais fria do
ano.
Algumas mulheres, enquanto os outros folgavam, achegaram-se ao altar para cantar rezas a
São João:
Meu Santo Antônho
espelho de Portugá
venha me ajudá a vencê
esta batalha reá.
O padre dizeno missa,
São João rezano no artá,
que tê prazê no mundo
pro lugá que nóis andá.
Quando o sol despontou, dispersaram-se os participantes da festaria de São João. Alguns
pelos cantos do terreiro, encostados nas cercas ou no beiral da casa, já dormiam por
causa do quentão, não viram o raiar do sol do primeiro dia do ano cósmico no bairro do
Bate-pau em Tatuí.
[1953]
(ARAÚJO, Alceu Maynard. Folclore nacional) |


Charola
Andor.
Estribilho Verso repetido no fim de cada estrofe de uma composição;
Refrão.
Ígnea Da
cor do fogo. |